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quinta-feira, maio 14, 2026

Créditos ‘podres’ de US$ 3 trilhões na China prolongam temor econômico

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Por qualquer parâmetro, Tom Hu deveria estar inadimplente em um empréstimo bancário de US$ 730 mil para seu negócio de plásticos na China. A receita mal cobre as despesas, e ele não consegue arcar com o custo da dívida. Ainda assim, em vez de executar o crédito, o banco permite o adiamento dos pagamentos — mantendo a empresa viva enquanto evita registrar mais um empréstimo em atraso em seus balanços.

“Para ser sincero, parece que a economia está piorando”, disse Hu em entrevista recente, observando que muitas outras empresas também enfrentam dificuldades. “Não quero parar na lista negra de crédito, e os bancos também não querem ver seus empréstimos problemáticos aumentarem.”

Histórias como a de Hu se repetem por toda a China no momento em que os bancos lutam contra um crescente acúmulo de dívidas incobráveis. É impossível quantificar a verdadeira extensão do problema, embora a maioria dos economistas afirme que a proporção de empréstimos inadimplentes é significativamente maior do que a taxa oficial de 1,5%. Um analista da Absolute Strategy Research, em Londres, estima que seja cerca de 10%, o que significaria que US$ 3 trilhões em empréstimos que deveriam ser classificados como vencidos na verdade não estão. Outros dizem que esse valor pode ser o dobro.

Embora a cautela, amplamente tolerada pelos reguladores em Pequim, tenha ajudado a manter a estabilidade financeira nos últimos anos, ela também significa que o sistema bancário está reciclando capital em empresas improdutivas em vez de impulsionar o crescimento real em empresas saudáveis. Isso ameaça se tornar um entrave permanente para a segunda maior economia do mundo — um desafio para o presidente Xi Jinping, enquanto enfrenta pressões externas incluindo a crise energética global e a volatilidade das políticas comerciais de Donald Trump.

“Não há crise financeira, mas não existe almoço grátis em economia”, disse Victor Shih, professor associado da Universidade da Califórnia em San Diego, que escreveu um livro sobre finanças na China. “O preço a pagar é simplesmente crescimento, ineficiência e baixa produtividade”.

A aparente estabilidade da taxa de inadimplência é ainda mais surpreendente, já que a economia sofreu um grande colapso imobiliário e registrou o crescimento nominal mais lento fora do período da covid-19 desde a década de 1970. Em março, a China reduziu sua meta de crescimento para 2026 para entre 4,5% e 5% — a menos ambiciosa desde 1991.

Os reguladores tomaram nota. Apesar das reservas de capital aparentemente robustas e dos índices de inadimplência estáveis, as autoridades tomaram medidas para reforçar os seis maiores bancos do país com mais de US$ 100 bilhões em capital novo. A Administração Nacional de Regulação Financeira não respondeu ao pedido de comentário.

O principal culpado pelo aumento dos empréstimos inadimplentes é a enorme quantidade de crédito concedida a empresas cujos lucros são insuficientes para cobrir o pagamento de juros. Cerca de 10% das empresas não financeiras listadas em bolsa não conseguiram cobrir o pagamento de juros com seus lucros antes de juros e impostos por três anos consecutivos, de acordo com a Absolute Strategy Research. Como resultado, o índice de empréstimos inadimplentes provavelmente está mais próximo de 10% do que de 1,5%, segundo Adam Wolfe, economista de mercados emergentes da empresa.

Até mesmo as autoridades chinesas têm estimativas pessimistas. Um estudo recente do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia citado em uma entrevista anônima com funcionários governamentais de nível médio indica que as estimativas para a verdadeira taxa de inadimplência variam de 15% a 20%. Shih, da Universidade da Califórnia, também estima a taxa em cerca de 20%.

Hu deveria estar na categoria de inadimplente, administrando uma empresa falida na província industrial de Zhejiang, perto de Xangai. A combinação de fraca demanda interna e exportações voláteis o obrigou a reduzir sua força de trabalho em 90%. Desde a reabertura pós-pandemia no final de 2022, sua fábrica de plásticos tem oscilado à beira da falência, gerando caixa apenas o suficiente para cobrir as operações básicas.

“Estou improvisando, sem planos concretos”, disse Hu, pedindo que seu credor não fosse identificado por medo de represálias. “Se o banco exigir o pagamento do empréstimo, não tenho como pagar o principal agora.”

A taxa oficial de inadimplência na China sempre foi um tanto misteriosa. Em tempos bons e ruins, raramente se desviou muito de 1,5%, e a maioria dos economistas afirma que ela subestima consideravelmente a verdadeira pressão sobre o sistema. O índice contabiliza apenas os empréstimos oficialmente classificados como “subpadrão”, “duvidoso” ou “perda”.

O risco de empréstimos inadimplentes “poderia ter levado a uma crise financeira se não fossem as políticas de tolerância e a intervenção do governo”, disse May Yan, chefe de pesquisa financeira da Ásia no UBS Group. O fato de a China não estar em crise demonstra o sucesso dessas medidas, afirmou ela.

Em outras palavras, em vez de reprimir os devedores inadimplentes, os bancos chineses são incentivados a lhes dar alguma flexibilidade. Há anos, os reguladores vêm instando os grandes bancos a manterem seu índice de inadimplência declarado abaixo de 2%, de acordo com pessoas familiarizadas com as estimativa.

Com a política de tolerância — um legado dos programas de apoio da covid-19 que foi estendida a incorporadoras imobiliárias e outras empresas — Pequim sinaliza seu desejo de manter a estabilidade financeira. O governo quer evitar uma onda de falências bancárias que se seguiria a um aumento nos relatos de crédito inadimplente e inadimplência empresarial.

Uma política de flexibilização para pequenas empresas, introduzida durante a pandemia, foi prorrogada em 2024 para encorajar os bancos a rolar os empréstimos de empresas que enfrentam dificuldades temporárias. Esta política é válida até o final do próximo ano e aplica-se a empréstimos no valor de 9,4 trilhões de yuans (US$ 1,38 trilhão), de acordo com autoridades.

Como resultado, os bancos rotineiramente refinanciam empréstimos com vencimento próximo, estendem os prazos de pagamento ou permitem a capitalização de juros para evitar o reconhecimento de empréstimos inadimplentes. Os governos locais também pressionam os credores para manter a estabilidade, evitando cortes nas classificações de risco de empréstimos vinculados a setores sensíveis. Esses setores incluem incorporadoras imobiliárias, dívidas de governos locais e pequenas empresas em regiões mais frágeis, de acordo com uma dúzia de banqueiros entrevistados pela Bloomberg News.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) também vem alertando para os perigos da leniência. Em seu relatório anual sobre a economia chinesa publicado em fevereiro, o FMI pediu a remoção das políticas de tolerância para permitir que os bancos agissem mais rapidamente no reconhecimento de empréstimos inadimplentes.

“As medidas de tolerância mascaram a qualidade subjacente dos ativos, aumentando os riscos futuros para a qualidade dos ativos”, afirmou a equipe do FMI no relatório. “São necessárias medidas decisivas para eliminar gradualmente as medidas de tolerância”.

É difícil determinar quais bancos são mais propensos a adiar pagamentos de empréstimos, embora isso tenda a ser mais comum em bancos rurais mais frágeis, disseram analistas. As ações de gigantes financeiros como Industrial & Commercial Bank of China (ICBC) e Agricultural Bank of China não sofreram com a deterioração da qualidade de crédito. Os investidores nessas ações tendem a comprá-las pelo rendimento de dividendos de 5% e pelas avaliações relativamente baixas, confiantes de que Pequim sempre fornecerá um suporte em momentos de crise. As ações do ICBC já subiram 12% este ano em Hong Kong.

Para reforçar os balanços, o governo vem injetando recursos. A China emitirá 300 bilhões de yuans em títulos soberanos especiais neste ano para recapitalizar bancos, após um pacote de 500 bilhões de yuans no ano passado.

Toda essa flexibilidade tem um preço. Os recursos financeiros ficam presos em empresas não lucrativas e até mesmo inativas, prejudicando a capacidade dos bancos de promover o crescimento em negócios saudáveis. O crescimento geral do crédito está desacelerando significativamente após o investimento em ativos fixos ter sofrido uma contração sem precedentes no ano passado.

Os bancos concederam o menor volume de novos empréstimos desde 2018 no último ano. Uma piora adicional pode impedir que compensem o impacto negativo dos cortes de juros sobre a rentabilidade, segundo Charlene Chu, analista sênior na Autonomous Research.

A onda de crédito problemático também afeta a política macroeconômica. Ela amplia preocupações com a saúde do setor bancário, restringindo decisões do banco central. Com margens já em mínimas históricas, novos cortes de juros podem reduzir ainda mais a lucratividade das instituições.

Em 2025, o Banco Popular da China (PBoc, o banco central chinês) entregou o menor volume de cortes de juros em quatro anos, frustrando economistas que esperavam maior estímulo monetário para sustentar a demanda doméstica.

Ainda assim, existem sinais de que os bancos estão tomando medidas para melhorar a qualidade do crédito. Ativos financeiros de alto risco — incluindo empréstimos inadimplentes e dívidas arriscadas em estruturas paralelas — caíram para 4,9% do total no fim de 2025, ante 30% em 2017, e devem recuar para cerca de 3% até 2027, segundo Richard Xu, chefe de pesquisa financeira da China no Morgan Stanley.

[Fonte Original]

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