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quarta-feira, maio 13, 2026

Crítica | Homem em Chamas – 1ª Temporada – Plano Crítico

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Terceira adaptação audiovisual do romance Homem em Chamas, de A.J. Quinnell, originalmente publicado em 1980 e que conta com quatro continuações, a versão homônima desenvolvida por Kyle Killen (Halo) é a primeira serializada e, talvez, um exemplo claro de que nem tudo deveria ser convertido em série ou, pelo menos, que devesse haver um cuidado maior para justificar a estrutura em capítulos para além de seguir uma tendência mais constante dos serviços de streaming de seguir preferencialmente por esse caminho. Estrelada por Yahya Abdul-Mateen II, que recentemente viveu Simon Williams, na ótima série Magnum, parte do Universo Cinematográfico Marvel, a produção é em grande parte filmada em locação na cidade do Rio de Janeiro, em uma trama que coloca seu traumatizado personagem John Creasy em uma jornada vingativa que envolve muita pancadaria, explosão, tortura e tiroteio e que, infelizmente, acaba resultando em algo diluído e sem personalidade.

Depois de perder toda sua equipe em uma missão no México, Creasy passa a sofre de transtorno de estresse pós-traumático e tenta se suicidar, sendo contratado em seguida por seu amigo de longa data Paul Rayburn (Bobby Cannavale), dono de uma firma de segurança, para trabalhar com ele no Rio de Janeiro. No entanto, Rayburn e toda a sua família com exceção da filha mais velha Poe (Billie Boullet) são mortos, juntamente com outras centenas de pessoas, em um ataque aparentemente terrorista, o que leva Creasy (Abdul-Mateen II) a uma espiral de vingança e de proteção de Poe na base do custe o que custar. Arregimentando o trabalho de Valeria Melo (Alice Braga), uma motorista particular que conhecera na noite da tragédia e que é particularmente bem conectada na cidade, o ex-militar parte para investigar o ocorrido e a liquidar todo e qualquer envolvido no assassinato, o que o leva a desencavar uma conspiração sinistra.

Na verdade, uso a expressão “conspiração sinistra” com muita liberalidade, pois ela de sinistra não tem nada levando em conta o quanto esse tipo de história já foi contado antes no audiovisual e de forma bem mais competente. Aqui, os roteiros de Killen se limitam a enfileirar e a usar os clichês mais comuns desse tipo de narrativa, algo que por si só não é um problema se o emprego desses clichês fosse bem feito, com um mínimo de cuidado para entregar ao espectador algo que faça valer a experiência. No entanto, tudo o que vemos na telinha é uma sucessão do básico misturado com o banal, com Killen só realmente triunfando (sarcasmo!) na forma como ele estica tudo o que pode esticar para transformar algo que poderia muito facilmente ocupar um filme de 90 minutos em uma série de quase seis horas. Para isso, ele recorre a elementos gráficos, especialmente no que se refere à violência como as cenas de tortura e a melodramas deslocados como é toda a história paralela na favela onde Valeria esconde Poe. O restante é a mistura de surpresas e reviravoltas que são tão telegrafadas pelo roteiro e pela direção que só resta ao espectador revirar os olhos.

Mas nem tudo se perde. Apesar de o elenco não ter muito com que trabalhar, tanto Yahya Abdul-Mateen II quanto Alice Braga conseguem entregar boas performances que convencem o suficiente para carregar a série nas costas. Iago Xavier e Jefferson Batista, respectivamente como Vico e Livro, dois coadjuvantes de personalidades bem opostas, mas que vão convergindo na medida em que a trama progride, também merecem destaque por eles conseguirem sair das amarras iniciais consideravelmente estereotipadas de seus personagens. Além disso, todo o episódio de “infiltração e fuga da prisão” é, sendo honesto, o único momento em que Killen conseguiu oferecer algo fora do Manual Básico dos Clichês, mas menos por toda a operação montada por Creasy e aliados e mais pela forma como, uma vez localizado seu alvo, o líder de facção criminosa Emanuel Ferraz (Ravel Cabral), os desdobramentos acontecem. E, claro, há o bônus de os personagens brasileiros falarem realmente português e não espanhol ou portunhol como volta e meia acontece, ainda que a interface de vários com Creasy se dê dessa forma facilitadora, por assim dizer.

Chega a ser constrangedor ver a produção se preocupar em estabelecer Creasy como um homem profundamente traumatizado pelo que sofreu no passado, mas só usando com vontade essa circunstância paralisante uma única vez e, ainda por cima, em uma cena dentre de um quarto do pânico que a direção não consegue construir nenhum  tipo de suspense ou tensão. Em todo o resto da jornada vingativa de Creasy, seu trauma é mencionado e até mesmo zombado, mas ele nunca volta a sofrer com ele de forma que os acontecimentos sejam afetados. Mais uma vez, é o roteiro que faz de uma questão de saúde mental um artifício de uso único para colorir determinado momento e, depois, o descarta, provavelmente por ser difícil de trabalhar com isso sem que o personagem durão se torne alvo fácil para todo mundo que quer eliminá-lo.

Homem em Chamas quase não pega fogo. No máximo, o que Kyle Killen consegue oferecer são interlúdios quentes como se jogássemos álcool em cima de brasas sendo lentamente apagadas, ou seja, há, aqui e ali, momentos explosivos, mas, no geral, a temperatura é no máximo morna. Talvez uma terceira adaptação em forma de longa metragem tivesse resolvido boa parte dos problemas da série, mas como séries são as queridinhas dos streamers, tudo parece caminhar nessa direção.

Homem em Chamas – 1ª Temporada (Man on Fire – EUA, 30 de abril de 2026)
Criação e showrunner: Kyle Killen (baseado em romance de A. J. Quinnell)
Direção: Steven Caple Jr., Vicente Amorim, Clare Kilner, Michael Cuesta
Roteiro: Kyle Killen
Elenco: Yahya Abdul-Mateen II, Billie Boullet, Scoot McNairy, Alice Braga, Bobby Cannavale, Paul Ben-Victor, Thomás Aquino, Iago Xavier, Jefferson Baptista, Ravel Cabral
Duração: 330 min.



[Fonte Original]

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