Um simpaticíssimo Guaiamum: este é o mitológico crustáceo gigante da praia do Cabo Branco que Ygo, Vitória e Duda decidem atravessar João Pessoa inteira de bicicleta para ver. Já nessa premissa, o surpreendente Paulo Moreira entrega o espírito do que é sua HQ Boca de Siri, como ele mesmo afirma, nos extras do volume, uma “história de crianças com bicicletas“, só que de raiz nordestina, entrando para a linhagem nostálgica que E.T.: O Extraterrestre popularizou imensamente e Stranger Things trouxe para as novas gerações. Neste caso, porém, estamos falando de uma aventura pelas calçadas pessoenses, passando por paredes com pichos e a presença de um siri de trinta metros em uma posição de defesa de um território que ama. O quadrinho, que é preto e branco, foi publicado pelo selo Pitaya da HarperCollins, e nasceu de saídas de bicicleta do próprio Paulo Moreira por João Pessoa, como os extras do livro mostram, e a cidade precede os personagens na ordem de concepção, fazendo o trabalho expositivo para o autor antes de qualquer diálogo. Francamente, adoro esse tipo de projeto, e Casas Ilustradas: Campos dos Goytacazes (2024), de Rapha Pinheiro, lançado pela Inko Criativo, é um dos meus favoritos nessa linhagem de artistas que usam o desenho para documentar e também denunciar a situação de um espaço geográfico.
A ironia do autor em relação à prefeitura que quer alargar a orla da praia e se depara com um crustáceo gigante (apoiado pela maioria dos banhistas) contrário à empreitada é certeira. E o roteiro traz à tona um absurdo real, já que entre 2021 e 2023, a prefeitura de João Pessoa (nas garras de Cícero Lucena, do Progressistas, que foi reeleito em 2024) tocou exatamente esse projeto, com custo estimado na casa das centenas de milhões de reais, frequentemente citado entre R$ 100 milhões e R$ 200 milhões, o que gerou diversos protestos, levou à abertura de inquérito civil pelo Ministério Público Federal e a apontamentos técnicos do Tribunal de Contas do Estado, até ser suspenso pela própria prefeitura em julho de 2023, após a pressão institucional. E João Pessoa não estava sozinha nessa onda de péssimas ideias: Balneário Camboriú, Natal (citada na HQ) e Fortaleza também conduziram ou planejaram projetos de engorda de orla no mesmo período, quase sempre com os mesmos argumentos de “proteção costeira” e quase sempre favorecendo a valorização imobiliária, obviamente. A documentação que temos do MapBiomas é que as áreas de praias e dunas do Brasil encolheram 15% entre 1985 e 2021, uma perda de 680 km², puxada principalmente (adivinhem?) pela pressão do mercado imobiliário e pela expansão mal planejada de infraestruturas urbanas sobre a zona costeira.
Aqui em Boca de Siri, o prefeito Jotinha berrando que o Guaiamum “estava travando o progresso e a economia da capital” é a transcrição fiel de um discurso que vira e mexe aparece nos jornais, de líderes municipais tentando justificar projetos que só farão bem, de fato, ao seu bolso e ao dos donos das construtoras que eles favorecem. A crítica às apostas é outra aparição ácida na HQ, e a brincadeira com a rixa cultural entre Paraíba e Pernambuco em torno do sotaque, com o “x” chiando em certas palavras, me arrancou uma gargalhada real, sendo eu pernambucano. Outro destaque aplaudível é o texto do autor, que sabe construir diálogos hilários, fluidos e muito gostosos de ler, que condizem perfeitamente com os personagens em cena e, acima de tudo, que não procuram disfarçar a comunicação da cidade onde a trama se passa: o vocabulário local é direto, exposto sem polimento, e é delicioso de acompanhar, com suas gírias, vocativos e conectivos vivos na voz dos três protagonistas.

Outro elemento prazeroso dessa leitura é a sensação de continuidade no contato entre a população e o Guaiamum. O azulão reconhece os filhos de homens com quem conviveu décadas atrás no litoral, e isso lhe dá um status de mito vivo, o que certamente justifica o apoio gigantesco que tem do povo e o quanto chama a atenção. A batalha contra o robô Parahybatron, construído pela prefeitura ao melhor estilo tokusatsu, é um dos melhores pontos do enredo. O kaiju local é mobilizado e celebrado por uma comunidade inteira, sustentando uma causa importante de maneira prática, unindo pessoas e dando às gerações mais novas um exemplo tangível de que verdadeira pressão popular derruba projeto absurdo, como de fato aconteceu em João Pessoa. A comunicação dos eventos pelo rádio para toda a cidade é outro ponto onde se cria essa rede de afeto ao longo da trama, pois temos um conflito onde o apresentador anti-Guaiamum e pró-engorda da orla agride uma entrevistada e é preso, e quem ocupa o seu lugar é a Doutora entrevistada, que não se furta em vibrar pelo Guaiamum. Gosto imensamente de quase tudo aqui, exceto pela interrupção meio brusca do ritmo nas páginas finais, e um encerramento mais pacífico e simples do que eu esperava que fosse.
A fantasia de um crustáceo gigante botando moral na especulação imobiliária do litoral já merece aplausos por si só. Para uma cidade com um grande nível de afeto pela própria orla, a magia ecológica não substitui a ação no mundo real, mas serve para dar nome aos bois, mostrar que existem muitas camadas de patrocinadores com interesses escusos e, principalmente, que a mobilização popular tem poder. Boca de Siri é um quadrinho engraçado, de chamado à proteção de áreas costeiras, comunitário, folclórico e politicamente honesto, com traço e finalização relativamente simples, mas de muita beleza, que transforma João Pessoa em personagem e nos entrega uma das HQs brasileiras recentes (2025) mais acessíveis e completas sobre o quanto um mito local pode cimentar a identidade de uma comunidade e dar combustível para a resistência. Para um país que perde costa para o “progresso” todo ano, tramas assim são mais do que necessárias.
Boca de Siri (Brasil, 2025)
Roteiro: Paulo Moreira
Arte: Paulo Moreira
Editora: Pitaya
160 páginas