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sábado, maio 16, 2026

Stablecoins não vão substituir os bancos — vão passar por dentro deles

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As stablecoins estão ganhando espaço como uma das principais aplicações práticas do mercado cripto, especialmente em pagamentos internacionais e operações de câmbio. Mas, ao contrário da narrativa de que essa tecnologia poderia eliminar bancos e intermediários financeiros, executivos que participaram de dois painéis no evento de lançamento da Blockchain Rio 2026 defenderam uma visão mais pragmática: no curto e médio prazo, as stablecoins tendem a funcionar como uma nova engrenagem dentro do sistema financeiro, e não como uma substituição completa dele.

Segundo Rafael Castaneda, cofundador da Oxus Finance, a discussão sobre stablecoins precisa ser separada em duas frentes: de um lado, o uso como instrumento de investimento ou rentabilização; de outro, o caso de uso que já se mostra mais forte hoje, que é o de pagamentos. Para ele, a principal dor do mercado não está em encontrar investimentos depois que o dinheiro já chegou ao destino, mas em mover recursos de uma moeda fiduciária para outra, entre diferentes jurisdições.

Nesse sentido, ele afirmou que ainda não é o momento de “brigar com os bancos” ou defender que eles se tornaram desnecessários. A proposta, segundo o executivo, é melhorar a forma como o dinheiro se movimenta entre instituições financeiras, usando stablecoins como um trilho mais eficiente em determinadas etapas do processo. “Hoje, pra mim, o ponto em questão é: vamos melhorar a maneira como os bancos funcionam sem tirá-los da jogada”, disse.

Em outro painel, Caio Cansian, Chief of Staff do Braza, afirmou que a instituição veio do mercado de câmbio e passou a olhar para stablecoins por entender que o futuro desse setor passa pela tecnologia. Segundo ele, em alguns anos, não deve haver câmbio sem stablecoins envolvidas em algum momento ou em alguma ponta da operação.

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A tese se apoia na combinação entre custo menor, velocidade, transparência e programabilidade. Mas também reconhece que, na prática, muitas operações ainda começam e terminam em bancos. O cliente pode sair de reais em uma conta bancária brasileira e chegar a dólares em uma conta bancária no exterior, com a stablecoin funcionando como caminho alternativo no meio do fluxo.

Silvio Pegado, Managing Director da Ripple para a América Latina, descreveu uma demanda parecida. Segundo ele, grandes instituições financeiras e bancos já têm acesso a stablecoins, mas precisam de estruturas capazes de transformar esses recursos em pagamentos em moeda fiduciária em outros mercados. Nesse contexto, a Ripple atua como uma ponte para conectar stablecoins a pagamentos nos Estados Unidos, na Europa e em outros corredores.

Jorge Borges, Head of Sales e Strategic Business Development da Fireblocks para a América Latina, também reforçou que a adoção tende a acontecer quando a tecnologia ficar menos visível para o usuário final. Segundo ele, muitas soluções de conta global já podem usar stablecoins na tesouraria sem que o cliente precise saber se há blockchain por trás da operação. O que importa, para o usuário, é conseguir acessar dólar, fazer uma compra internacional ou pagar um spread menor.

O limite do 24/7

Um dos pontos mais relevantes dos painéis foi a crítica à ideia de que stablecoins tornam qualquer pagamento internacional instantâneo e disponível 24 horas por dia, sete dias por semana. Castaneda afirmou que essa promessa só é plenamente verdadeira quando as duas partes operam diretamente em blockchain. Quando a operação precisa entrar ou sair do sistema bancário, a liquidação continua sujeita aos horários, regras e prazos dos bancos.

“Mesmo que o cara não precise, nós não entregamos isso. Por quê? Porque no final o dinheiro vai parar num banco”, afirmou o executivo da Oxus. Segundo ele, é possível iniciar uma operação com Pix à noite, por exemplo, mas se o destino final for uma conta em um banco nos Estados Unidos, a compensação dependerá dos horários e trilhos bancários locais.

A partir dessa lógica, a stablecoin não elimina as limitações do sistema tradicional, mas pode reduzir fricções em partes importantes do caminho. Castaneda comparou a Oxus a uma empresa que “monta o banheiro”, enquanto provedores de infraestrutura seriam os “encanadores” do sistema. A metáfora resume o desafio: o cliente final não quer lidar com carteiras, blockchains, provedores de liquidez e regras de cada país; ele quer uma solução simples que entregue o dinheiro no destino da melhor forma possível.

Esse modelo também explica por que a adoção no comércio exterior tende a ser mais complexa do que a simples transferência de stablecoins entre carteiras. Fillipe Trentin, CEO da Oxus Finance, afirmou que pagamentos ligados a importação e exportação dependem de documentação, regras aduaneiras, interpretação de órgãos públicos, Receita Federal, bancos e agentes de carga. Se uma empresa tenta provar um pagamento apenas com um hash de blockchain, isso pode não ser suficiente para liberar uma mercadoria no porto.

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Segundo Trentin, sem a devida instrumentalização, o importador pode enfrentar problemas como atraso no desembaraço aduaneiro, custos de armazenagem, seguro e demurrage. Por isso, o uso de stablecoins no comércio exterior precisa conversar com as regras e sistemas já existentes, em vez de simplesmente ignorá-los.

Atalho para o comércio exterior

Apesar dos limites, os participantes apontaram o comércio exterior como um dos casos de uso mais concretos para stablecoins no Brasil. Caio Cansian afirmou que, no Braza, o maior bloco de clientes nesse mercado é formado por importadores brasileiros que precisam fazer pagamentos ao exterior com mais velocidade, menor custo e menos fricção. Em alguns casos, a demora do câmbio tradicional pode fazer uma empresa perder o prazo de embarque de uma mercadoria em um contêiner ou navio.

Para Castaneda, esse é justamente o tipo de dor que torna o Brasil um mercado relevante para a tecnologia. Mover dinheiro para dentro e para fora do país ainda pode ser caro, lento ou inacessível para empresas menores. Nesse cenário, stablecoins funcionam como uma alternativa para acelerar trechos da operação, sem necessariamente remover bancos da equação.

Um dos exemplos citados pela Oxus foi o de um “Swift inteligente”. Em vez de originar uma transferência diretamente do Brasil para a China, a empresa pode converter reais em stablecoins, levar esse valor para os Estados Unidos, transformar novamente em dólar no sistema fiduciário americano e, a partir dali, originar um Swift para o destino final. Na definição de Castaneda, é como “ir de avião até onde dá e terminar de carroça”: não é uma substituição total do sistema tradicional, mas uma combinação de trilhos para chegar ao resultado mais eficiente.

Trentin também destacou que stablecoins podem abrir espaço para pequenas e médias empresas negociarem melhor no mercado internacional. Segundo ele, produtores e empresas menores muitas vezes não têm volume suficiente para acessar boas condições junto a grandes instituições financeiras. Com stablecoins, esse público pode ganhar mais autonomia para fazer pagamentos internacionais e buscar margens melhores.

A discussão regulatória, porém, segue como peça central para que esse mercado avance. Cansian afirmou que o Brasil está entre os países mais avançados no debate sobre cripto e stablecoins, mas ressaltou a importância do diálogo entre reguladores, empresas e associações.

Pegado, da Ripple, disse que a regulação brasileira já trouxe mais clareza e conforto jurídico para instituições financeiras, ainda que não seja perfeita. Borges, da Fireblocks, resumiu o momento como um processo de “trocar pneu com o carro andando”: há avanços, mas o mercado ainda espera mais previsibilidade sobre o que pode ser feito, em que escala e sob quais condições.

No fim, a mensagem dos painéis foi menos revolucionária e mais prática. Stablecoins podem reduzir custos, acelerar pagamentos, melhorar a rastreabilidade e abrir novos modelos de negócio. Mas, para ganhar escala no mundo real, precisarão se integrar a bancos, reguladores, sistemas de compliance, infraestrutura de custódia e trilhos tradicionais de liquidação.

A ruptura, portanto, pode não vir da substituição dos bancos, mas da transformação silenciosa dos caminhos por onde o dinheiro passa.

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[Fonte Original]

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