O dólar voltou a operar acima de R$ 5 nesta semana em meio ao aumento da volatilidade no mercado doméstico. Operadores atribuíram parte da alta do dólar ao noticiário político, à preocupação fiscal e a ajustes de posições por parte dos investidores.
A moeda americana saltou mais de 2% no pregão do dia 13 de maio, figurando como a maior alta desde dezembro de 2025. No entanto, o mercado ainda não enxerga uma mudança concreta de cenário, e reafirma a tese de que a corrida eleitoral fará mais volatilidade do que preço.
Em outras palavras, o mercado espera um câmbio mais pressionado no segundo semestre por conta das eleições, mas ainda é cedo para cravar preço ou tendência. O que se sabe é que eventos como o desta semana podem voltar a fazer a curva de juros abrir e a bolsa cair em alguns dias.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren, avalia que o debate sobre consolidação fiscal tende a ganhar relevância após as eleições, independentemente do resultado do pleito.
“Passadas as eleições, será preciso elaborar um plano de ação para o primeiro ano. Não haverá tempo hábil para esperar a posse e só então elaborar um programa de consolidação fiscal”, afirma.
“Entendo que a questão central não é cortar gastos, mas conter a sua taxa de crescimento em relação ao produto interno bruto. Isso parece fácil, mas requererá uma revisão completa de despesas”, diz.
Segundo o economista, propostas apresentadas durante a campanha também são monitoradas pelo mercado. “Veja, por exemplo, o caso da isenção até R$ 5 mil no Imposto de Renda das Pessoas Físicas. Foi promessa de campanha e teve de ser concretizada. O que se promete na campanha, quando relevante, acaba sendo acompanhado pelo mercado.”
Volatilidade atrelada às eleições tem data para chegar no mercado
O período em que estamos atualmente, próximo ao mês de abril, tradicionalmente mostra uma volatilidade mais alta para ativos como dólar e bolsa, olhando sob o prisma da corrida eleitoral. Isso, segundo o que diz a XP, que analisou o tema em um estudo interno.
Victor Scalet, estrategista de Macroeconomia da casa, observa que a volatilidade foi parcialmente antecipada para dezembro, com o anúncio da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Além disso, destaca que (não ironicamente) a volatilidade deve voltar com mais força após a Copa do Mundo.
“Depois desse momento de abril, que achamos que foi antecipado [para dezembro], entramos em um momento que é mais tranquilo de volatilidade, de maior até o fim de julho. É um período mais intenso para a política, com alianças sendo feitas, chapas locais, mas que para o eleitorado não muda muita coisa. É um momento cujo resultado ele vai ver lá na frente. As pesquisas mexem menos nesse momento, historicamente”, explica.
“Depois disso passa a Copa do Mundo….parece piada, mas não é. Temos uma métrica em que olhamos o Google Trends, e que mostra bem que o brasileiro começa a prestar atenção em várias outras coisas, principalmente Copa, e bem menos para eleições. Com a Copa do Mundo acabando e mais perto das eleições, no fim de julho e meados de agosto, [a volatilidade] volta a se intensificar. Aí começa a ter mudança de pesquisa e mudança nos preço de ativos por causa disso”, completa.
O principal foco do mercado no debate econômico
Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria, afirma que entre 2027 e 2028 a margem discricionária do orçamento ficará bastante reduzida caso não haja mudanças na dinâmica das despesas obrigatórias.
“Não vai sobrar dinheiro, e será preciso evitar esse cenário. Precisamos de medidas que mudem a dinâmica das despesas obrigatórias”, afirma.
Segundo ele, temas relacionados ao crescimento dos gastos públicos continuarão no centro da atenção dos investidores.
“O Brasil precisa tomar decisões nas contas públicas e o mais relevante agora é mexer em regras que elevam os gastos reais”, diz.
Campos Neto afirma que discussões sobre reajuste do salário mínimo, pisos constitucionais e revisão de programas sociais devem fazer parte do debate econômico nos próximos anos.
Salto, da Warren, afirma que o próximo governo precisará adotar medidas para recompor o resultado primário e melhorar a percepção de risco fiscal.
“O anúncio de um programa crível nessa direção melhoraria o custo da dívida, facilitaria a vida do Banco Central e levaria o país a ampliar investimentos”, comenta.
Entre as medidas defendidas pelo economista estão redução de gastos tributários, revisão de subsídios, reforma administrativa e contenção do crescimento das despesas obrigatórias.
Balança comercial forte e fluxo robusto mantêm dólar fraco
Fora do campo político, vale destacar que o mercado ainda vê um cenário global que favorece o real contra o dólar.
Tendo uma predileção dentre os mercados emergentes no panorama atual, o Brasil ganhou grandes injeções de capital nos últimos meses.
Recentemente o investidor estrangeiro atingiu um patamar histórico de participação na bolsa de valores brasileira, chegando a 61% dos negócios totais.
Olhando para o fluxo financeiro, somente em janeiro foram R$ 26,4 bilhões, ante R$ 15,3 bilhões no mês anterior.
Janeiro, aliás, mostrou um fluxo de capital que superou o que foi injetado no Brasil durante todos os 12 meses de 2025 somados.
No campo da política comercial, o BTG Pactual elevou sua projeção de superávit da balança comercial de US$ 75 bilhões para US$ 90 bilhões.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostraram que em abril o Brasil alcançou o maior volume de exportações da sua história, com US$ 34,1 bilhões – na esteira de um incremento de 13% no valor exportado, mais do que o dobro do crescimento das importações, que ficou em 6%.
No relatório do BofA anteriormente citado neste texto, os analistas do banco destacaram o Brasil como ‘ativo livre de riscos’ por conta dessa soma de fatores.
A casa emitiu o parecer logo depois de se reunir com clientes institucionais em Nova York e pouco antes das reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington.
Guerra não é necessariamente um fator negativo
A balança comercial polpuda, em partes, está atrelada à posição confortável do Brasil frente ao conflito no Oriente Médio, dado que o país é exportador líquido de petróleo.
O fenômeno também fez, em partes, com que o Ibovespa flertasse com os 200 mil pontos – levando em conta que o índice tem grande concentração em commodities, e os papéis da Petrobras acumulam valorização de 48% desde o início do ano.
Da mesma forma, foi um vento favorável para que o dólar voltasse a operar abaixo de R$ 5 pela primeira vez em tempos – algo que pode se tornar passado à medida que as eleições batem à porta.