O uso de criptomoedas como uma forma ‘revolucionária’ de pagamentos já é uma coisa do passado para parte do mercado financeiro brasileiro. Agora, executivos de bancos, plataformas de tokenização e infraestrutura financeira começaram a discutir um novo estágio da digitalização monetária: o “dinheiro generativo”, integrado diretamente a sistemas de inteligência artificial capazes de automatizar decisões financeiras, criar fluxos autônomos e reorganizar a lógica operacional do sistema bancário tradicional.
“A discussão já não está mais apenas no dinheiro programável. Estamos caminhando para um cenário em que o dinheiro passa a interagir com inteligência generativa e tomada automatizada de decisões”, afirmou Rita Casolato, da Liqi Digital Assets, durante painel realizado nesta segunda-feira (18) no evento “Fórum Bancos & Banking”, promovido pelo Cantarino Brasileiro em parceria com a Acrefi.
A fala sintetizou uma mudança importante de percepção dentro do setor financeiro nacional. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado na tokenização de ativos, blockchain e infraestrutura digital, agora o mercado começa a discutir como inteligência artificial e ativos tokenizados podem operar juntos em sistemas financeiros contínuos, automatizados e potencialmente autônomos.
O painel reuniu Ricardo Gomes, da Núclea, Rita Casolato, da Liqi Digital Assets, Vanessa Butalla, do Mercado Bitcoin, e João Gianvecchio, do Banco BV. Ao longo da conversa, os executivos deixaram claro que a indústria financeira brasileira já trata tokenização e infraestrutura blockchain menos como experimentação e mais como um novo modelo operacional em construção.
Um novo mercado financeiro
Ricardo Gomes afirmou que o mercado finalmente saiu da fase conceitual. Segundo ele, os últimos 12 meses marcaram uma transição importante entre projetos experimentais e aplicações reais dentro do sistema financeiro. O executivo destacou que bancos, infraestruturas financeiras e instituições tradicionais começaram a acelerar iniciativas ligadas à tokenização após avanços regulatórios e maior clareza jurídica.
Para Gomes, o movimento também desmonta uma visão antiga de que regulação atrapalharia inovação. Na avaliação dele, a presença de normas e supervisão passou justamente a funcionar como mecanismo de segurança para viabilizar novos modelos financeiros digitais.
“O mercado chegou no momento de sair da tese”, afirmou.
A discussão ganhou força principalmente no segmento de crédito estruturado e recebíveis tokenizados. Rita Casolato destacou o crescimento de estruturas ligadas a FIDCs tokenizados e apontou que instituições tradicionais já enxergam ganhos concretos de eficiência operacional, distribuição e liquidez.
O Banco BV apareceu diversas vezes como exemplo de instituição financeira tradicional que passou a incorporar tokenização em operações reais, especialmente em estruturas ligadas a veículos e crédito.
Tokenização
Segundo João Gianvecchio, a principal transformação provocada pela tokenização está na quebra das limitações operacionais do sistema financeiro tradicional. Para ele, o mercado caminha rapidamente para estruturas capazes de operar 24 horas por dia, sete dias por semana, reduzindo intermediações e ampliando acesso a investidores.
“O mercado de tokenização busca operar 24 por 7, com menos barreiras de intermediação. Isso muda completamente a lógica do mercado financeiro tradicional”, disse.
O executivo também afirmou que o mercado começa a enxergar novas possibilidades de captação internacional através de ativos tokenizados, especialmente em instrumentos de crédito privado e recebíveis estruturados.
Já Vanessa Butalla, do Mercado Bitcoin, defendeu que a tokenização pode alterar profundamente a forma como produtos financeiros chegam ao investidor final. Segundo ela, estruturas digitais permitem reduzir custos, simplificar fluxos operacionais e ampliar o acesso a ativos antes restritos a grandes investidores institucionais.
A executiva afirmou que a tokenização não representa apenas uma digitalização superficial de ativos tradicionais, mas uma reorganização completa da cadeia financeira.
“Produtos antes extremamente caros e restritos passam a ficar disponíveis para um público muito maior”, afirmou.
Vanessa também reforçou que o avanço desse mercado depende diretamente da atuação regulatória. Segundo ela, tecnologia, modelo de negócio e supervisão precisam evoluir juntos para que o setor consiga crescer de forma sustentável.