17.5 C
Brasília
terça-feira, maio 19, 2026

Crítica | Operação Dragão Negro – Plano Crítico

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

É preciso ter muita sensibilidade e um alto domínio de seu estilo e texto para criar uma aventura exclusivamente baseada em um tema infantil, sem fazer com que a história seja, de todo, “infantil“. O que Paulo Moreira faz aqui em Operação Dragão Negro é uma crônica que não subestima a faixa etária que representa. Nos livros e quadrinhos para crianças e adolescentes (ou que apenas usam essa fase como tema), não é comum encontrar histórias que falam de amadurecimento ou mesmo do dia a dia desses meninos e meninas que sejam, de fato, honestas. E nem estou falando de material didático. Daí vem a minha felicidade com esse quadrinho do artista paraibano que conheci através de Boca de Siri (2025) e a quem passei a admirar muitíssimo. Nesta publicação independente de 2017, posteriormente lançada pela Conrad, temos uma narrativa de amizade, descobertas e demonstração de valor pessoal em um ambiente com um sotaque e modo de agir das crianças e dos adultos que me faz lembrar muitas vivências pessoais.

Quando bati o olho nesse título, comecei a dar risada, pois sentia que haveria uma referência direta ao título no roteiro, e foi ainda melhor do que eu esperava: as crianças passaram da escolha de um “nome de missão” vinda de um filme de kung fu (Operação Dragão, o clássico de 1974, dirigido por Robert Clouse), para o de um blaxploitaion de 1975, o referido Operação Dragão Negro (Bogard, dirigido por Timothy Galfas), tudo sem forçar a barra, numa sequência de diálogos que se ligam perfeitamente à história e faz sentido para o andamento da narrativa. Além disso, por conta da inocência dos meninos, cai de um jeito delicioso como piadinha nas entrelinhas. Admiro muito a forma como Paulo Moreira escreve seus diálogos, porque eles são espontâneos e trazem umas tiradas inesperadas, desde o rapazinho escalador que fala “eu subo rápido nos canto” até o bate-papo do quarteto formado por Raul, Romero e os gêmeos após o caos causado na festa de Maria.

O traço convidativo do artista cumpre bem o papel de chamar a atenção do nosso olhar para a história, como se fosse parte de uma memória. Sei que esta não é a intenção de Moreira, mas o assunto principal do enredo, os enquadramentos e a maneira como ele normalmente finaliza os desenhos (aqui, em preto e branco) me dão a impressão de que Operação Dragão Negro é uma memória muito terna de algum personagem. À parte essa impressão, gosto bastante das nuances com falhas em alguns quadros, demarcando velocidade; e gosto também da forma como o estilo do artista conduz visualmente o leitor para aquilo que importa, sejam personagens, cenários ou grupos.

Brigas de escola, palavrões, amizades que fazem tudo por nós e paixonite de adolescente são coisas que todos nós já vimos ou tivemos, de modo que Operação Dragão Negro tem uma carga nostálgica universal. É uma fofura de história que pode até mesmo emocionar, em seu final, ao mesmo tempo que nos deixa em uma nota quase reticente, mas certamente muito engraçada (lembrei dos óculos perdidos do personagem em Boca de Siri). Desde a representação satírica do jogo de Raul e Romero na sequência inicial da HQ, até a briga com os valentões no aniversário de Maria, mais a conhecida crueldade que crianças e adolescentes podem ter uns para com os outros (a cena do coco me deixou tenso de verdade), o quadrinho respira uma infância raiz, de meninos na rua, jogando bola, fazendo arte, amizades e, a seu modo, resolvendo os conflitos em que se metem. Me deu muita saudade e me fez lembrar vividamente de um tempo. Pois é.

Operação Dragão Negro (Brasil, 2017)
Roteiro: Paulo Moreira
Arte: Paulo Moreira
Editora: publicado de forma independente em 2017; e pela Conrad, em 2021.
82 páginas



[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img