Líderes industriais e empresariais, bem como investidores e autoridades do Brasil e dos EUA, se reuniram no último dia 11, em Nova York, para participar do Brasil-U.S. Industry Day 2026. A iniciativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com U.S. Chamber of Commerce, foi realizada pela primeira vez no contexto da Brazil Week, semana de eventos empresariais em torno das relações comerciais entre os dois países. Cerca de 400 pessoas compareceram ao evento, realizado no The Glasshouse, à beira do Rio Hudson, com ampla vista para Manhattan. Dois painéis de debate e uma grande premiação marcaram a noite.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, comemorou a presença de lideranças americanas no local. Em entrevista antes do início do evento, ele revelou que 32% dos inscritos eram de fora do Brasil. Para Alban, a reunião em NY simboliza uma oportunidade de avanços na relação com os EUA, “um país que nos conhece há muito tempo”, nas palavras dele. Também significa um passo rumo à superação da dependência de commodities nas exportações: Alban mencionou mineração, fontes de energia limpa, biocombustíveis, data centers e ferramentas de inteligência artificial como potenciais para a relação Brasil-EUA.
O Brasil já é um parceiro industrial relevante dos EUA e tem interesse em aprofundar sua inserção nas cadeias globais de suplementos
— Ricardo Alban, presidente da CNI
“O Brasil já é um parceiro industrial relevante dos EUA e tem interesse em aprofundar sua inserção nas cadeias globais de suplementos. Também queremos estabelecer alianças para produzir, inovar e agregar valor à manufatura”, afirmou Alban em sua fala de abertura do evento. O presidente da CNI defendeu que a complementaridade entre as economias dos dois países é a chave para resolver quaisquer desafios na relação.
Do lado americano, os presentes foram saudados por John Murphy, vice-presidente e diretor internacional da U.S. Chamber of Commerce. “São as pessoas nesta sala que mantêm aquecida a relação [entre os dois países]”, celebrou Murphy.
Robustas há mais de duzentos anos, as relações comerciais entre Brasil e EUA têm impacto inegável. Em 2025, apesar da queda de 6,7% em decorrência do “tarifaço” da gestão de Donald Trump, as exportações brasileiras totalizaram US$ 37,7 bilhões. A cada um bilhão exportado, no ano anterior, 24,3 mil empregos foram gerados. O Brasil é o 14º principal fornecedor da economia americana, a maior do mundo. Dos 15 produtos que os EUA mais importaram em 2025, dez deles partiram principalmente da produção brasileira.
Dados como esses embasaram não só os diálogos estimulados nos painéis da CNI, como as conversas entre os convidados do Brasil-U.S. Industry Day 2026. Além de lideranças de mercado, o evento foi prestigiado por autoridades dos dois países. Na plateia, estavam o governador do Ceará, Elmano de Freitas; o secretário de Desenvolvimento Econômico de São Paulo, Jorge Lima; e o secretário da Fazenda da Bahia, Manoel Vitório Filho. Presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), o ministro Vital do Rêgo também marcou presença. Figuras federais e locais do Executivo e do Legislativo completaram a audiência junto com diplomatas que interligam Brasil e EUA, do passado ao presente.
“O encontro ocorre num momento muito importante, logo após a visita que o presidente Lula realizou a Washington, transmitindo mensagens importantes sobre a relevância do comércio bilateral, que é muito importante para os dois países”, afirmou a embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Viotti. “É importante evitar novas barreiras que possam colocar em risco esse comércio […]. Nossas equipes técnicas vão intensificar o diálogo nos próximos 30 dias em busca de uma solução que nos permita ampliar o comércio e ampliar os investimentos”, completou.
Diálogo, inovação e regulação como prioridades
Dos minerais críticos à indústria alimentícia, executivos elencaram reforços para a cooperação
Quais devem ser as prioridades para fortalecer a relação econômica entre Brasil e Estados Unidos, principalmente em relação à reindustrialização dos dois países? Quatro debatedores convidados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) endereçaram respostas para essa pergunta durante o Brasil-U.S. Industry Day 2026, em Nova York. O painel foi o primeiro da noite e reuniu falas de representantes de gigantes brasileiras e americanas como Gerdau, Vale, Merck e PepsiCo. A mediação foi de Lisa Schroeter, diretora global de Política de Comércio e Investimentos da Dow.
Para André Gerdau, presidente do conselho de administração da Gerdau e da Gerdau Metalúrgica, o diálogo entre os dois países deve ser uma das prioridades em meio à guerra comercial global na qual EUA e Brasil estão imersos. Ele também defendeu uma troca entre as melhores práticas de governança e de tecnologia de cada nação.
“A gente nasceu no Brasil, mas cresceu muito forte aqui, nos Estados Unidos”, afirmou o executivo, em alusão à parcela de 70% dos resultados da Gerdau que estão relacionados aos EUA.
Nós não estamos procurando um comprador [para os minerais críticos], mas um parceiro de longo prazo. Há muito para colaborar
— Sami Arap, vice-presidente executivo da Vale
Questionado por Lisa Schroeter, Sami Arap, vice-presidente executivo da Vale, refletiu sobre as urgências relativas à exportação de minerais críticos, objetos de interesse dos EUA. O tema, segundo ele, evoluiu do desinteresse à agenda da segurança nacional. Por isso, demanda inovações (via investimentos e intercâmbio de tecnologias), segurança nas operações e, ainda, preocupação com a sustentabilidade. O timing seria “o agora”.
Esses avanços, sugeriu Arap, viriam do estreitamento do laço entre as economias brasileira e americana. “Nós não estamos procurando um comprador [para os minerais críticos], mas um parceiro de longo prazo. Há muito para colaborar”, disse ele, mencionando potenciais parcerias com os departamentos de Defesa, Energia e Comércio dos EUA.
Prioridades regulatórias, baseadas em critérios cientifícios, foram defendidas por Jenelle Krishnamoorthy, vice-presidente e diretora de Política Global e Relações Públicas da Merck, e Athina Kanioura, vice-presidente e CEO da PepsiCo para América Latina. Ao defenderem as parcerias entre EUA e Brasil nas indústrias farmacêutica e alimentícia, respectivamente, as duas ressaltaram a ciência como uma aliada indispensável.
“Precisamos passar pelo processo regulador, mas também precisamos garantir acesso [a medicamentos]. E a única forma de fazer isso é com parceria”, afirmou Krishnamoorthy.
Sob a perspectiva da PepsiCo, Kanioura completou: “Gostamos da regulação quando ela é standardizada, baseada em ciências […]. O que nós não gostamos é a regulação que não tem todos esses elementos ou quando continua mudando”, explicou.
Líderes desvendam o que falta para a atração de investimentos externos
Mitigação de riscos, necessidade de capacitação, questão fiscal e burocracia foram abordados em rodada de debates do Brasil-U.S. Industry Day 2026
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Oportunidades de investimentos no Brasil, sobretudo aquelas com potencial para a alocação de capital de longo prazo, foram debatidas no segundo e último painel do Brasil-U.S. Industry Day 2026, em Nova York. Mediada pelo embaixador Roberto de Azevêdo (ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, a OMC), a discussão incluiu representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Bank of America (BofA), bem como do Tribunal de Contas da União (TCU).
O presidente do BID, Ilan Goldfajn, abriu o painel analisando a noção de mitigação de riscos para a atração de investimentos, a partir de uma provocação do mediador Roberto de Azêvedo. De acordo com Goldfajn, os riscos não devem ser transferidos do setor privado para o público, mas conduzidos sob a ótica do investimento público, do financiamento climático (preocupado com o futuro do planeta) e com foco no desenvolvimento.
“Os recursos são escassos, temos dívidas elevadas tanto dos que estão se financiando, quanto poucos recursos fiscais dos que poderiam ser financiadores”, afirmou Goldfajn. “Precisamos nos reinventar”, completou ele.
Capacitação e questão fiscal
O diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Gordon, defendeu a inovação como uma “agenda estratégica” para atrair investimentos. O executivo analisou os minerais críticos, também discutidos no primeiro painel da noite, e defendeu a necessidade de capacitação para atrair recursos do exterior.
“A maior parte das empresas do setor ainda é de junior companies. Precisamos capacitá-las”, projetou Gordon. Entre os cases de sucesso mencionados por ele, a Embraer foi o maior destaque: a empresa mantém parceria com os EUA há 45 anos.
O Brasil tem mais de 200 milhões de consumidores, mais de R$ 2 bilhões de PIB. É um dos poucos países que têm essa relevância
— Alexandre Bettamio, co-chair de Corporate & Investment Banking do Bank of America
Já para o Bank of America, representado por Alexandre Bettamio, a chave para a atração de investimentos está na questão fiscal. É necessário, de acordo com ele, que o Brasil mantenha o fisco “amparado em credibilidade”, com vistas para um superávit primário condizente com sua dívida e também para a redução de juros.
“Uma vez acertando a parte fiscal, o capital vai entrar no Brasil. Porque o Brasil é muito atraente: tem mais de 200 milhões de consumidores; mais de R$ 2 bilhões de Produto Interno Bruto (PIB). É um dos poucos países que têm essa relevância”, completou.
O presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, colocou a côrte de contas à disposição dos brasileiros para diminuir burocracias — outro entrave para a atração de investimentos externos. “Estamos preparados para ser um ator principal no movimento de destravar a economia brasileira”, afirmou.
Premiação reconhece destaques dos dois países
Nomes que trabalharam para aproximar Brasil e EUA foram celebrados em três categorias
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A atmosfera de celebração e reconhecimento embalou a entrega do 2026 Brasil-U.S. Industry Awards. A cerimônia promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi dedicada a líderes e instituições que, ao longo do tempo, tiveram papel definitivo no reforço das relações entre as economias brasileira e americana. Chamado informalmente de “Oscar da indústria”, o prêmio contemplou 18 nomes com atuação em ambos os territórios, todos com anos de experiência e impacto no Brasil e nos EUA.
Entre os seis nomes que a CNI premiou na categoria Integração Econômica Brasil e EUA estiveram Francisco Gomes (Embraer); Alexandre Bettamio (Bank of America) e Wesley Batista (JBS). A lista incluiu também Paula Bellizia (AWS para a América Latina), Marcos Antonio Molina dos Santos (MBRF) e André Gerdau (Gerdau e Gerdau Metalúrgica). “Quando a JBS fez seu primeiro investimento nos EUA, em 2007, me mudei para cá com a minha família. Foi a oportunidade mais incrível da minha vida”, relembrou Wesley Batista ao agradecer pelo prêmio.
Os discursos dos homenageados incluíram métricas superlativas que ilustram a importância da relação entre Brasil e EUA. No caso da JBS, 78 mil trabalhadores são absorvidos graças à integração econômica, segundo Batista. A Embraer, de acordo com Francisco Gomes, vende 45% de seus aviões comerciais para o mercado americano. O Bank of America está prestes a completar 80 anos de atividades no Brasil, com mais de mil colaboradores atuando no “intercâmbio”.
Os quatro agraciados na categoria Inovação e Transformação Industrial foram Marco Stefanini (fundador e CEO da Stefanini), Jenelle Krishnamoorthy (VP e chefe de Políticas Públicas Globais da Merck), Daniel Marteleto Godinho (VP de Sustentabilidade e Relações Institucionais da WEG) e Bruce Rastetter (fundador e presidente executivo do Summit Agricultural Group).
Já sob a ótica da Diplomacia Institucional, a CNI premiou oito nomes. Entre representantes de instituições de peso estiveram Alvaro Prata (presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii); Ilan Goldfajn (presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID); Rui Gomes (CEO da InvestSP) e Tom Madrecki (VP sênior de Assuntos Públicos da Consumer Brands Association).
Diplomatas dos EUA que serviram como embaixadores no Brasil também foram lembrados e marcaram presença. Entre eles, Anthony Harrington (no posto entre 1999 e 2001), Thomas Shanon (de 2010 a 2013), Liliana Ayalde (2013 a 2016) e Michael McKinley (2017 a 2018). “[O prêmio] É um reconhecimento a todos os diplomatas americanos que têm trabalhado em prol das relações entre Brasil e Estados Unidos”, disse McKinley.