O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira (19) que o choque de oferta teve impacto relevante sobre as expectativas de inflação para 2028, mas avaliou que a desancoragem ainda mais intensa das projeções para esse período não é simples de explicar.
Segundo ele, nesse horizonte, os efeitos desses choques já deveriam ter se dissipado e eventuais medidas que estejam estimulando a atividade econômica no presente não deveriam produzir impacto tão significativo sobre a inflação em 2028.
Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo reiterou que o principal desafio do Banco Central é conseguir separar o que representa uma elevação de preços decorrente de choques de oferta dos chamados efeitos de segunda ordem. Essa avaliação, disse, se torna ainda mais complexa porque a economia brasileira também atravessa um cenário de mercado de trabalho aquecido, com desemprego em níveis historicamente baixos e crescimento expressivo da renda.
Ele comentou ainda que a economia global atravessa o quarto choque de oferta consecutivo com impacto sobre o nível de preços e avaliou que o aumento acumulado dos preços em ritmo superior ao da renda tem gerado uma dissonância na percepção econômica.
Galípolo repetiu ainda que é fato que, historicamente, a taxa de juros no Brasil se mantém sistematicamente e estruturalmente em patamar mais elevado do que a observada em países pares. Por outro lado, dos últimos seis anos, em quatro anos o BC não cumpriu a meta de inflação, inclusive a banda superior. “O que sugeriria que o Banco Central talvez tenha sido pouco conservador”, acrescentou.
O presidente do BC avaliou ainda que a inclusão ou exclusão de itens mais voláteis nos núcleos de inflação não alteraria de forma significativa a leitura sobre o comportamento atual dos preços. “A média desses núcleos que já exclui itens mais voláteis estão rodando no mesmo patamar da inflação cheia”, pontuou.
Nível restritivo da Selic
Galípolo destacou, na audiência na CAE, as taxas de juros no Brasil estão em um nível bastante restritivo, tanto quando comparadas tanto com outros países quanto com padrões históricos. Ainda assim, ressaltou que a economia brasileira segue demonstrando resiliência, com renda crescendo acima da inflação.
“Dentro da matriz de como funciona a política monetária, o instrumento que existe no Banco Central para colocar a inflação na meta é a taxa de juros e toda vez que a gente tem esses indicadores mostrando uma economia bastante aquecida, onde a demanda vem pressionado a oferta e isso vem colocando a inflação mais distante da meta, a resposta que é demandada ao Banco Central é colocar a taxa de juros num patamar mais restritivo”, disse.
O presidente do BC afirmou que a economia brasileira está próxima do pleno emprego, segundo parâmetros usualmente adotados pela literatura econômica, mas observou que, do ponto de vista da inflação, o comportamento tem sido o oposto do esperado.
Segundo ele, mesmo diante de juros em nível restritivo, a atividade econômica segue demonstrando resiliência surpreendente, acompanhada por uma taxa de desemprego em patamares bastante baixos.
Teto para dívida pública
Durante a audiência pública, Galípolo afirmou que uma das preocupações em relação à criação de um teto para a dívida pública é que a medida possa ser interpretada pelo mercado como um sinal de incapacidade de rolagem da dívida.
Segundo ele, é fundamental preservar a percepção de solvência e a capacidade de pagamento da dívida soberana, uma vez que os efeitos associados ao risco de moratória são prejudiciais para a economia do país.
“Uma percepção (pelos credores do Brasil) de que receber recursos está em risco ou que o valor em reais também está em risco tende a provocar fuga de recursos para outra moeda”, comentou.
Ele comentou ainda que, atualmente, cerca de 50% da dívida soberana está indexada à Selic. Segundo ele, essa característica contribui para o encurtamento do perfil da dívida pública e adiciona um fator de preocupação adicional.
“Se o Tesouro escolheu ‘linkar’ (atrelar) 50% da dívida pública à Selic e 20% ao IPCA é porque essa taxa era a taxa mais barata que ele encontrava para rolar dívida. Se por acaso ele fosse ofertar algum outro tipo de título, provavelmente encontraria uma taxa mais alta. Mas essa discussão sobre taxa de juros e evolução da dívida pública é bastante particular do Brasil”, comentou.
Galípolo afirmou ainda que o câmbio tem apresentado desempenho favorável e destacou que o real vem se valorizando em ritmo superior ao observado em moedas de países pares e de economias avançadas. “O câmbio vem se comportando muito bem”, disse.
Segundo ele, a moeda brasileira tem sido beneficiada por um duplo movimento: de um lado, o Brasil ganha atratividade por ser exportador de petróleo e energia em um cenário de choque de oferta; de outro, o país continua oferecendo oportunidade de retorno aos investidores diante das condições atuais da economia e do diferencial de juros.
O presidente do BC acrescentou que, mesmo diante do choque de oferta e dos desafios fiscais enfrentados por outras economias, há otimismo com os ganhos de produtividade com a inteligência artificial. “Isso teve efeito relevante na curva de juros norte-americana. A curva de juros norte-americana está se comportando bem para período de volatilidade”, comentou.
Galípolo avaliou ainda que a regulação brasileira sobre ativos virtuais tem recebido reconhecimento de organismos internacionais, como o Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo ele, os ativos virtuais já operam quase como um mercado financeiro à parte.
Ele afirmou ainda que estudos internacionais mostram um aumento da exposição das pessoas ao crédito, como refletido na ampliação do número médio de cartões por consumidor. Segundo ele, no Brasil, esse movimento foi intensificado pelo processo de bancarização associado ao avanço do Pix, que incorporou pessoas antes fora do sistema financeiro e ampliou o acesso ao crédito e a produtos bancários.