A Questão Homérica permanece como um dos enigmas centrais da filologia e da literatura ocidental, centrando-se no debate sobre a identidade de Homero e a autoria das épicas Ilíada e Odisseia. O cerne da discussão oscila entre a teoria de um único autor genial e a visão das obras como compilações de uma vasta tradição oral. Os eixos contemporâneos desse debate, que se mantêm relevantes, questionam a existência histórica do poeta (vendo-o talvez como pseudônimo ou lenda), a formação gradual dos poemas a partir de cantos menores (rapsódias) transmitidos oralmente, e a unidade estilística, analisando se as variações entre as duas epopeias sugerem autores distintos ou diferentes fases criativas de uma mesma pessoa. Pensando por um lado mais prático, salvaguardadas as devidas proporções reflexivas e se distanciando do necessário debate acadêmico, para o leitor cada vez mais escasso de 2026, isso realmente importa? O que vale não é pensar que a poesia homérica está ai pra ser contemplada?
É um eixo de pensamento, fruto de muitos dos estudantes que atravessam minhas jornadas de educação literária, mas, para os questionamentos também há as respostas, então, pensando por um lado da crítica, filologia e outros caminhos da pesquisa científica em literatura, sim, o tema importa, e está sempre em constante debate, como no contexto brasileiro, por meio de Donaldo Schüler, escritor, tradutor premiado e Doutor em Letras, que aprofunda essa discussão em seu livro A construção da Ilíada: Uma Análise de Sua Elaboração. A publicação de 151 páginas, publicada pela L&PM, disseca a estrutura e a significação do poema fundador da cultura ocidental, propondo considerações sobre sua redação na pavimentação dos nove capítulos que estruturam as reflexões de uma publicação que embora seja mais atrativa para interessados em literatura clássica, a profundidade das reflexões sobre tradução, personagens e a elaboração da epopeia o torna particularmente talhado para iniciados ou curiosos dispostos a um mergulho mais profundo na temática. Schüler, reconhecido por suas traduções de James Joyce, eleito pela APCA e laureado com o Prêmio Jabuti, traz uma perspectiva erudita e valorizada ao debate homérico. Não é uma travessia das mais fáceis, nem para os já iniciados, mas é interessante.
Além da análise das peculiaridades da Ilíada, com detalhes sobre seus versos, contradições, dentre outros pontos, o autor expõe com aprofundamento que essa extensa composição é fundamentalmente o poema da ira, centrando-se na “cólera de Aquiles” e nas suas consequências devastadoras para gregos e troianos. Enquanto essa obra foca na força bruta e no destino trágico em meio ao cerco de Troia, a Odisseia desloca o eixo para a figura individual de Ulisses, consolidando-se como o poema do herói astuto. Nela, a narrativa abandona o campo de batalha para explorar a metis (inteligência estratégica) de um homem que busca retornar ao seu lar, enfrentando deuses e monstros através da resiliência e do intelecto. A imagem de Aquiles permanece como um mito poderoso na atualidade por personificar a dualidade extrema da condição humana: a busca pela glória eterna em contraste com a consciência da própria mortalidade. Ele representa o arquétipo do herói que escolhe uma vida curta e memorável em vez de uma existência longa e anônima, ecoando o desejo contemporâneo de transcendência e individualismo. Além disso, sua vulnerabilidade física e emocional, o famoso “calcanhar de Aquiles” e seu luto profundo por Pátroclo, humaniza a figura divina, tornando-a um símbolo eterno das paixões e fragilidades que definem a humanidade, temas que nós amamos e sempre buscamos ressignificar.
Ademais, em A construção da Ilíada: Uma Análise de Sua Elaboração, nós aprendemos que o tempo cronológico na Ilíada é surpreendentemente concentrado, não ultrapassando cinquenta dias de narrativa. No entanto, essa brevidade externa contrasta com a dilatação interna da obra, onde certos dias se tornam extensos devido ao desenvolvimento minucioso das batalhas e diálogos. Sem os aparelhos de medição da modernidade, o tempo é sentido como algo vago e fluido, marcado por efeitos de retardamento que suspendem o desfecho das ações para dar lugar à intensidade do momento épico. Quanto à construção das figuras humanas, os personagens são apresentados de forma econômica e funcional, raramente recebendo descrições físicas detalhadas. Sua identidade é estabelecida por meio de poucos epítetos recorrentes, que frequentemente enfatizam a filiação e a linhagem, situando o herói em seu contexto genealógico. Dessa forma, a caracterização em Homero foca mais no papel social e na essência do guerreiro do que em nuances psicológicas ou traços visuais específicos, reforçando a natureza arquetípica do poema. Ah, e pela escrita que se posiciona, Schuler tem em Aquiles o seu “queridinho”.
E por fim, o livro nos permite entender melhor a “embaixada”, uma terminologia importante para compreender o poema. Pelo que me recordo de quando li e com base nas reflexões do autor nesse livro, o termo “A Embaixada” se refere a um dos episódios mais cruciais do Canto IX da Ilíada, no qual uma delegação composta por Odisseu, Ájax e Fênix é enviada por Agamêmnon para tentar persuadir Aquiles a retornar à batalha. Após ser humilhado pelo rei, que lhe tomou a escrava Briseida, o herói retirou-se do combate, causando perdas devastadoras aos gregos. A embaixada oferece a Aquiles presentes valiosos e a promessa de glória, mas sua recusa revela uma mudança profunda em seu caráter: ele questiona o próprio código de honra heroico, priorizando sua dignidade pessoal e a consciência da própria mortalidade em detrimento das recompensas materiais. Assim, compreender esse momento é fundamental para entender a evolução de Aquiles, pois marca a transição de um guerreiro movido pelo reconhecimento público para um homem isolado em sua fúria e dor. Ao rejeitar as súplicas de seus companheiros, Aquiles demonstra que sua mágoa não pode ser comprada, elevando o conflito de uma disputa de egos para uma crise existencial sobre o valor da vida e a justiça.
No geral, caro leitor, um livro mais cifrado para não iniciados no tema, mas muito informativo.
A Construção da Ilíada: Uma Análise de Sua Elaboração (Brasil, 2004)
Autoria: Donaldo Schüler
Editora: L&PM
Páginas: 152