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sábado, maio 30, 2026

Bolsas de nicotina são a nova estratégia da Philip Morris no Brasil

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Ruas limpas, ar fresco e uma contagem regressiva para fazer história na saúde pública: a Suécia está prestes a se tornar oficialmente o primeiro país do mundo considerado “livre de fumaça” pela Organização Mundial da Saúde (OMS), reduzindo sua taxa de fumantes para menos de 5%.

O segredo por trás desse fenômeno escandinavo não está na abstenção da nicotina, mas em uma mudança radical de comportamento. Pelas calçadas de Estocolmo, o cigarro tradicional foi quase extinto, substituído nos bolsos e bolsas por pequenas latas redondas e coloridas. Trata-se do mercado consumidor do snus (tabaco oral) e dos nicotine pouches (bolsas de nicotina sem tabaco), uma categoria liderada globalmente pela marca Zyn.

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Essa engrenagem sueca, no entanto, é mais do que um traço cultural nórdico. Ela se transformou no principal laboratório e vitrine comercial da Philip Morris International (PMI). Com a venda de cigarros tradicionais em declínio global, a maior empresa de tabaco do mundo mira mercados protegidos e populosos para introduzir seus novos produtos à base de nicotina. E o Brasil é o alvo principal desse novo xadrez corporativo.

O lobby da nicotina no Brasil

Atualmente, a comercialização de qualquer produto de nicotina por via oral ou eletrônica que não seja voltado para a cessação médica é proibida no mercado brasileiro por resoluções da Anvisa. Isso inclui vapes (os famosos “cigarros eletrônicos”) e os dispositivos de tabaco aquecido, pouco conhecidos no Brasil, mas também fabricados pela PMI como um produto de redução de danos no consumo de nicotina.

Para romper essa barreira regulatória, a estratégia da PMI passa por pautar a imprensa internacional e gerar debate público no país, de olho na criação de uma forte corrente de lobby junto ao Poder Legislativo em Brasília.

A argumentação da companhia para forçar uma abertura de mercado é puramente pragmática. De acordo com o Vice-Presidente de Comunicação Global da PMI, Tommaso Di Giovanni, decretos proibicionistas falham em extinguir a demanda dos usuários. O executivo defende que a proibição retira o controle sanitário do Estado e entrega um mercado bilionário diretamente para as mãos do crime organizado.

Tommaso Di Giovanni, Vice-Presidente de Comunicação Global da PMI. (Fonte: PMI/Divulgação)

Do ponto de vista tributário, a fabricante busca usar o debate da Reforma Tributária brasileira para defender alíquotas proporcionais ao risco de cada produto. A tese comercial é que o cigarro tradicional deve sofrer tributações punitivas, enquanto as alternativas sem combustão precisariam de impostos reduzidos para incentivar financeiramente a migração do consumidor para opções menos nocivas.

O perigo da nicotina e o papel do Estado

A grande aposta científica da indústria para legitimar as bolsas de nicotina baseia-se na separação entre a substância que causa o vício e o processo que gera as doenças. “As pessoas fumam pela nicotina, mas morrem pelo alcatrão”, resume a literatura corporativa que serve de base para os materiais de relações públicas da empresa.

Segundo a Diretora de Assuntos Científicos da PMI, Gizelle Baker, a fumaça gerada pela combustão do tabaco aceso libera mais de 6 mil substâncias químicas, sendo cerca de uma centena delas catalogadas como cancerígenas. O Zyn, por sua vez, utiliza nicotina de grau farmacêutico extraída quimicamente, idêntica à pureza encontrada em chicletes e adesivos de cessação vendidos em farmácias, eliminando o fogo da equação.

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Gizelle Baker, Diretora de Assuntos Científicos da PMI. (Fonte: PMI/Divulgação)

Contudo, autoridades médicas brasileiras e agências de saúde internacionais mantêm o ceticismo e alertam para o tom duvidoso dessa narrativa. Embora o risco de câncer de pulmão caia significativamente sem a queima do tabaco, a nicotina está longe de ser uma substância inofensiva.

Ela continua sendo uma droga neuroestimulante com altíssimo poder de dependência química severa, que provoca impactos imediatos no sistema cardiovascular, eleva a frequência cardíaca, contrai os vasos sanguíneos e aumenta a pressão arterial, atuando como um gatilho para infartos e AVCs.

Diante desse cenário complexo, o debate caminha para uma encruzilhada: a proibição total e a liberação irrestrita parecem caminhos igualmente problemáticos. É aí que ganha força uma visão mais equilibrada, que entende que a saída ideal pode não ser o banimento às cegas, mas sim a permissão de venda sob um controle estatal severo.

A regulação rígida do Estado — definindo dosagens máximas, regras de publicidade e locais de venda — surge como a única ferramenta capaz de garantir a segurança do consumidor adulto, sufocar o crime organizado e, ao mesmo tempo, evitar os abusos de um mercado sem freios.

Por trás do selo científico da PMI, há uma contradição mercadológica evidente: a corporação assume que não tem interesse em ver seus clientes abandonarem a substância. O modelo de negócios da maior empresa de tabaco do mundo não prevê a cura do vício, mas sim a migração do usuário para um novo formato de consumo que o mantenha fisgado economicamente — e de forma vitalícia — à marca. Daí a necessidade indispensável de um controle do Estado para ditar as regras do jogo.

Apelo aos jovens: bolsas de nicotina como porta de entrada?

O design e a estética do produto são os pilares que transformaram as bolsas de nicotina em um fenômeno bilionário de consumo. O CEO da Swedish Match e Presidente de Produtos Orais da PMI, Nick Ricketts, explica que o maior desafio em mercados como o Brasil é a quebra mecânica do ritual de fumar, já que o consumidor não está acostumado com o uso de substâncias sob o lábio. Para a indústria, a inclusão de sabores agradáveis (como menta, mentol e combinações de frutas) cumpriria apenas um papel pedagógico de “segurar a mão” do fumante adulto durante o período de adaptação.

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Nick Ricketts, CEO da Swedish Match e Presidente de Produtos Orais da PMI. (Fonte: PMI/Divulgação)

Essa justificativa corporativa, no entanto, desmorona diante do óbvio apelo estético do produto para o público jovem e para não fumantes. Com latas coloridas que lembram embalagens de pastilhas com sabores de chiclete e uma discrição total que permite o uso em salas de aula ou escritórios sem ser detectado, o Zyn se tornou um sucesso nas redes sociais no exterior.

Longe de ser um mero “substituto de menor dano para fumantes”, os sachês atuam como um iniciador de vício perfeito, com velocidade de absorção rápida pela mucosa bucal, atraindo uma geração inteira que rejeitava o cheiro do cigarro comum, mas que agora é capturada pela “nicotina gourmetizada”.

Os argumentos da Anvisa contra os sachês de nicotina

A Anvisa sustenta seu veto por meio da Resolução RDC nº 855/2024, que proibiu o comércio de produtos alternativos de nicotina no país. Respaldada pelo “Princípio da Precaução”, a agência alerta que a ausência de fumaça não anula a toxicidade: a rápida absorção bucal da substância provoca vasoconstrição e sobrecarrega o sistema cardiovascular, elevando riscos de hipertensão.

Os fundamentos médicos estão no Relatório de Análise de Impacto Regulatório (AIR) da autarquia. O documento aponta que o uso recreativo estimula o consumo contínuo de altas dosagens. O corpo técnico adverte que a exposição precoce à nicotina causa danos severos ao desenvolvimento do córtex pré-frontal em jovens, afetando a atenção e o controle de impulsos, além de desencadear crises de ansiedade.

Por fim, notas técnicas do INCA e do Ministério da Saúde reforçam que liberar o produto para combater o contrabando ameaça o histórico controle do tabagismo no país. Para as autoridades, a verdadeira redução de danos já ocorre no SUS com adesivos e gomas terapêuticas de doses decrescentes voltadas à cura. Chancelar o Zyn significaria normalizar o consumo e repassar ao Estado o custo de tratar novos dependentes.

O espelho do contrabando na Europa e a pressão fiscal

Para alertar os parlamentares e formuladores de políticas públicas no Brasil, a PMI passou a utilizar dados recentes do mercado europeu para demonstrar que banir o produto gera graves efeitos colaterais de segurança pública.

O foco principal é a Alemanha, onde as bolsas de nicotina foram banidas após tribunais locais classificarem o produto na categoria de alimentos. Um levantamento exclusivo encomendado pela PMI à agência de pesquisas Ipsos revelou que, apesar da proibição de vendas na Alemanha, as bolsas de nicotina continuam amplamente disponíveis sob o balcão em 15,8% dos comércios varejistas do país. O dado mais alarmante da pesquisa mostra que 13,6% de todas as latas de Zyn coletadas em território alemão eram falsificadas.

O Diretor de Prevenção ao Mercado Ilegal da PMI na Europa, Klaus Berg, utiliza esse cenário como um alerta direto para as fronteiras brasileiras. O executivo, que é ex-oficial de inteligência do exército francês, afirma que o crime organizado possui uma velocidade de adaptação logística superior à das agências reguladoras. Sem regras claras e controle de mercado, o contrabando passa a fornecer produtos falsificados com dosagens perigosas e sem pagar impostos.

Pragmatismo de mercado contra barreiras sanitárias

Em suas campanhas globais, a indústria do tabaco exibe gráficos que atacam diretamente a eficácia das políticas restritivas aplicadas em países como Turquia e Brasil. Segundo as métricas apresentadas pela corporação, nações que proíbem terminantemente os produtos alternativos sem fumaça registram uma estagnação na queda das taxas de tabagismo nas últimas décadas.

No Brasil, o número de fumantes voltou a crescer após quase duas décadas de queda contínua, segundo dados do Ministério da Saúde. A proporção de adultos fumantes saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, representando um aumento de 25% em apenas um ano.

Apesar disso, o contraponto a essa leitura, defendido por sanitaristas nacionais, aponta que o Brasil se tornou uma das principais referências mundiais no combate ao fumo justamente por sua postura rigorosa de proibições, restrições publicitárias e suporte médico via SUS. Esse aumento seria devido, justamente, à popularização de cigarros eletrônicos, cigarros de palha e outras “maneiras de fumar”, que atraem principalmente os mais jovens e impulsionaram a retomada do consumo. A introdução de uma nova categoria recreativa saborizada é vista pelas autoridades brasileiras como um risco de retrocesso histórico para os índices de saúde do país.

O destino do Zyn e das bolsas de nicotina em solo nacional não será selado por consensos médicos imediatos, mas sim pelo embate direto que se desenha nos bastidores de Brasília. De um lado, o rigor técnico da Anvisa tenta blindar a população; do outro, uma das maiores indústrias do planeta movimenta suas peças de comunicação e influência fiscal para provar que a redução de danos é um caminho sem volta para a saúde, para os negócios e para o mercado.

[Fonte Original]

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