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sábado, maio 30, 2026

Crítica | The Boroughs – 1ª Temporada – Plano Crítico

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Dois clássicos filmes de 1985 foram fundidos aqui em The Boroughs, criação de Jeffrey Addiss e Will Matthews, com produção executiva dos Irmãos Duffer, estes últimos mais conhecidos pelo estrondoso sucesso que obtiveram com Stranger Things. O conceito é muito interessante e funciona como uma versão sombria de Cocoon casada com uma versão da terceira idade de Os Goonies, mas trazidos a tempo presente e em forma serializada, resultando em uma gostosa aventura sobrenatural/extraterrestre com aposentados em uma comunidade idílica de alto luxo descobrindo que existe uma criatura misteriosa e sinistra que provavelmente é responsável pela morte de vários pacientes, ou seja, mais uma materialização audiovisual do adágio que diz que as aparências enganam.

O que funciona logo de imediato é o elenco veterano encabeçado por Alfred Molina, que vive Sam Cooper, um ex-engenheiro recém enviuvado que relutantemente passa a viver na comunidade do título onde ele planejava passar o final da vida com sua amada esposa. A dor da perda o impede de fazer conexões próximas, mas seu vizinho Jack Willard (Bill Pullman) consegue quebrar essa barreira, conectando-o com outros aposentados que vivem por ali. Quando um deles morre e Sam vê a criatura, uma investigação cambaleante começa e, aos poucos, ela vai fornecendo as peças para o quebra-cabeças ser montado. Ao lado de Sam, há Wally Baker (Denis O’Hare), ex-médico que tem câncer de próstata em estado avançado, Judy e Art Daniels (Alfre Woodard e Clarke Peters), uma ex-jornalista e seu marido e Renee (Geena Davis), uma ex-gerente musical que traz a reboque Paz Navarro (Carlos Miranda), segurança da comunidade com quem começa a namorar, todos formando um conjunto harmônico que consegue transplantar para o fim da vida o que os garotos de Goonies fizeram na outra ponta.

Entre conspirações sinistras, vilões comicamente arquetípicos e cenários enganosamente assépticos de casa de boneca que permitem as usuais descobertas, reviravoltas e momentos de tensão e emoção, sem esquecer da pegada levemente cômica, The Boroughs acerta ao focar de verdade em seus personagens mais maduros para arrancar do elenco performances dedicadas e imediatamente cativantes, além de uma abordagem honesta e direta da velhice, palavra que, não sei porque, virou tabu. Ver a naturalidade com que o namoro de Renee com Paz é trabalhado é refrescantes, assim como é ver o casamento dos Daniels e a maneira como Wally encara a morte iminente, algo que é espertamente usado no roteiro para trabalhar o personagem com mais vigor quando a ação engrena de verdade. Até mesmo os velhinhos na área de tratamento mais intensivo, aqueles que não se locomovem sozinhos ou têm demência, são encarados de frente, sem nenhum tipo de vergonha. Claro que Molina e seu torturado Sam é o grande destaque, mas, mesmo assim, a série oferece um elenco de se tirar o chapéu, com espaço até mesmo para Geena Davis e seu icônico Thelma & Louise serem homenageados com gosto.

Outro grande acerto dos roteiros é não morder dar passos maiores que suas pernas. Apesar de toda a lógica por trás dos acontecimentos parecer ambiciosa, ela é tratada e resolvida com os pés fincados no chão, sem desvios narrativos em excesso, sem a manutenção de mistérios por mais tempo do que o necessário e sem muito uso de pirotecnia vazia. Sem dúvida que há seus momentos de conveniência e, pessoalmente, acho que a convergência da Equipe Grisalha demora consideravelmente mais tempo do que deveria, mas a boa notícia é que a série tem começo, meio e fim, mesmo que os detalhes de tudo sobre a criatura não sejam expostos aqui. Aliás, eu só classifiquei o que deveria ser uma minissérie como série, inclusive usando o “1ª temporada” no título porque eu sei que qualquer coisa criada como minissérie que tem um mínimo de sucesso logo é “renovada”, o que é completamente desnecessário nesse caso como em vários outros.

The Boroughs é uma simpática diversão bem estruturada tecnicamente e protagonizada por um bem-vindo e inspirado elenco comumente considerado velho demais para Hollywood, mas cuja faixa etária vem recebendo cada vez mais atenção do audiovisual em obras sobre a própria faixa etária, vide Grace and Frankie, O Método Kominsky e O Clube do Crime das Quintas-Feiras, isso só para citar exemplos do próprio Netflix. Ser jovem é ótimo, mas todo jovem precisa lembrar que, se tudo der certo, ele um dia chegará em um momento da vida em que seu passado será contado em várias décadas e não apenas em vários anos. E lembrar-nos disso talvez seja o grande objetivo dessa pequena, mas agradabilíssima série que, espero, seja uma minissérie na verdade.

The Boroughs – 1ª Temporada (Idem – EUA, 21 de maio de 2026)
Criação: Jeffrey Addiss, Will Matthews
Direção: Ben Taylor, Augustine Frizzell, Kyle Patrick Alvarez
Roteiro: Jeffrey Addiss, Will Matthews, Jose Molina, Julie Siege, Keith Sweet II, Tom Hanada, James Schamus, Yona Speidel
Elenco: Alfred Molina, Alfre Woodard, Denis O’Hare, Clarke Peters, Geena Davis, Carlos Miranda, Jena Malone, Seth Numrich, Alice Kremelberg, Bill Pullman, Rafael Casal, Jane Kaczmarek, Eric Edelstein, Dee Wallace, Ed Begley Jr., Mousa Hussein Kraish, Karan Soni, Beth Bailey, Mary McDonnell
Duração: 371 min. (oito episódios)



[Fonte Original]

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