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segunda-feira, junho 1, 2026

Pix diminui demanda por stablecoins de real, diz diretor do BC

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As stablecoins ganharam protagonismo nas discussões sobre o futuro do sistema financeiro, mas o Banco Central avalia que versões lastreadas em real podem encontrar um mercado mais limitado no Brasil do que em outros países.

O motivo é simples: os brasileiros já contam com uma infraestrutura de pagamentos considerada uma das mais avançadas do mundo, liderada pelo Pix.

Durante painel no TokenNation 2026, Pedro Nascimento, coordenador do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central, afirmou que a autoridade monetária enxerga uma demanda relativamente reduzida para o uso cotidiano de stablecoins de real. Segundo ele, grande parte das necessidades dos consumidores já é atendida pelos meios de pagamento existentes.

“A nossa impressão é que o apetite interno do Brasil, da população, para realmente usar esses instrumentos é limitado, porque grande parte da demanda já é atendida por outros meios de pagamento”, afirmou.

Leia também: Veja todas as stablecoins lastreadas ao real do Brasil

Entre eles, citou Pix, cartões, TEDs e outras alternativas já amplamente utilizadas pelos brasileiros. Para o representante do BC, a vantagem de uma stablecoin atrelada ao real para pagamentos do dia a dia tende a ser pequena.

A avaliação não significa que o Banco Central veja pouco potencial para esse tipo de ativo. Pelo contrário. Nascimento destacou que o principal valor das stablecoins pode estar em aplicações ligadas à tokenização de ativos e à liquidação financeira em ambientes baseados em blockchain.

Leia também: BC regulamenta criptomoedas e acende debate sobre limites do mercado no Brasil

“Se a gente tokenizar de uma maneira mais ampla, seria muito útil ter uma camada nativa de liquidação desses ativos em blockchain”, afirmou.

O tema ganhou força nos últimos meses diante do avanço das stablecoins em todo o mundo e do surgimento de iniciativas voltadas à emissão de versões lastreadas em real por empresas do setor cripto.

Segundo Nascimento, a regulamentação mais ampla desse mercado ainda depende de discussões legislativas, especialmente sobre regras para emissão desses ativos.

Stablecoins como ponte entre finanças tradicionais e blockchain

Se o Banco Central vê limitações para o uso das stablecoins de real como meio de pagamento, representantes da indústria destacam que esses ativos vêm se consolidando como a principal porta de entrada da tecnologia blockchain no sistema financeiro.

Jorge Borges, head Latam da Fireblocks, afirmou que as stablecoins já representam mais de dois terços do volume processado pela companhia, uma mudança significativa em relação aos primeiros anos do mercado cripto.

“Lá atrás o volume era 20% stablecoin e 80% outros ativos cripto. Hoje está próximo de dois terços do volume”, afirmou.

Segundo ele, o principal valor das stablecoins não está necessariamente na experiência de pagamento do consumidor final, mas nos processos de liquidação e movimentação de recursos que acontecem nos bastidores do sistema financeiro. “O pagamento já é 24 por 7. O que a gente vê muito valor na cadeia é o que acontece por trás, o que a gente chama de liquidação”, disse.

Borges argumentou ainda que as stablecoins estão servindo como uma ponte para uma transformação mais ampla dos mercados financeiros, abrindo caminho para produtos tokenizados como ações, ETFs e outros ativos tradicionais.

“A stablecoin foi a ponte que está permitindo que o mercado financeiro tradicional comece a experimentar a tecnologia em escala”, afirmou.

Pix, cartões e cripto devem coexistir

Apesar do crescimento das stablecoins, a expectativa dos participantes do painel é que os diferentes meios de movimentação de dinheiro coexistam nos próximos anos, em vez de competir diretamente entre si.

Antônia Souza, diretora de moedas digitais da Visa para América Latina e Caribe, destacou que a empresa enxerga Pix, cartões e criptoativos como soluções complementares.

Leia também: B3 prepara lançamento de ações tokenizadas e sua própria stablecoin este ano

“No final do dia, a gente quer que o usuário possa escolher a melhor solução para ele no caso de uso que faz sentido para ele”, afirmou.

Segundo ela, o próprio mercado já mostra exemplos dessa integração. Hoje, usuários podem transferir recursos via Pix para plataformas de criptoativos, converter os valores em stablecoins ou outras criptomoedas e, posteriormente, gastar os recursos por meio de cartões vinculados às carteiras digitais.

“Essas três modalidades já estão sendo utilizadas. O Pix facilita a compra da cripto, o cartão facilita o gasto, e essas tecnologias vão coexistir. Uma potencializa a outra”, disse.

A executiva também defendeu que o setor ainda está apenas começando a explorar as possibilidades abertas pelas stablecoins, especialmente em áreas como dinheiro programável e inteligência artificial.

“Muitos dos casos de uso que usamos hoje para stablecoin ainda estão na superfície”, afirmou. “Uma vez que esses problemas mais básicos estiverem resolvidos, surgem muitos outros casos de uso.”

Enquanto isso, o Banco Central reforça que não pretende escolher vencedores entre as diferentes tecnologias. Segundo Nascimento, o papel da autoridade monetária é garantir um ambiente competitivo e seguro para que o mercado e os consumidores definam quais soluções terão mais sucesso.

“Não cabe a gente escolher a solução melhor ou mais eficiente. Cabe ao mercado oferecer seus produtos e aos consumidores escolherem”, afirmou.

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