Encerrada a primeira e muito bem-sucedida maxissérie em 12 edições de BRZRKR publicada entre março de 2021 e março de 2023, a BOOM! Studios começou a trabalhar na diversificação de sua ainda nascente franquia que faz uso proeminente do nome e das feições do ator Keanu Reeves em todo o material de divulgação, licenciando sua propriedade para adaptações literárias e audiovisuais. Na seara dos quadrinhos, a continuidade das histórias não foi esquecida, mas a editora multimídia partiu para uma estratégia mais econômica, por assim dizer, investindo em one-shots com mais do que o dobro do número usual de páginas das HQs americanas sobre o passado do imortal Unute – ou B – no lugar de efetivamente continuar a história da maxissérie, algo que ainda deve acontecer, mas que não parece estar nos planos imediatos da editora.
Os dois primeiros one-shots, Poetry of Madness (Poesia da Loucura) e Fallen Empire (Império Caído) foram lançados respectivamente em julho e novembro de 2023 e colecionados no Volume 1 de Bloodlines, com os dois seguintes, A Faceful of Bullets e The Lost Book of B, lançados em julho e agosto de 2024 sendo colecionados no Volume 2 de Bloodlines. Outros dois one-shots foram publicados entre 2025 e 2026 e compilados no encadernado que é o objeto da presente crítica. Como as equipes criativas são completamente diferentes, escrevi sobre cada um dos dois one-shots do Volume 1 de Juramentos de Sangue separadamente. Vamos lá?
The Bleeding Tide
(A Maré de Sangue)

Em algum momento na época das Grandes Navegações europeias pelo mundo, uma capitã de navio que é uma poderosa vampira adorada por sua tripulação, ouve um coração batendo no fundo do mar e mergulha para localizar a origem, localizando uma caixa pequena, fechada por correntes que, quando é aberta, revela uma massa disforme que é Unute. As circunstâncias para o confinamento do imortal nunca são explicadas, mas, assim que ele é libertado, ele ajuda a capitã vampira no ataque a navios que a perseguem, com páginas e páginas dedicadas à carnificina, o que, claro, ajuda a conectar os dois tipos de imortais, um que precisa de sangue humano para viver e outro que precisa de violência extrema para o mesmo propósito.
O rapport entre os dois personagens é muito bom e faz o leitor querer ver mais detalhes desse relacionamento, mas, infelizmente, a história é curta e ainda precisa lidar com a busca, pela vampira, de uma menina que é sua protegida, que fora sequestrada por uma bruxa e levada a uma ilha, o que definitivamente funciona para ampliar os laços entre os dois, mas que, ao mesmo tempo, impede um proximidade mais significativa, mesmo quando, inevitavelmente, o sangue de Unute é usado para salvar a criatura das trevas. O roteiro de Marjorie Liu, porém, faz o melhor possível para extrair a essência dos dois muito parecidos personagens e usar isso para trabalhar uma história de duas pessoas que se entendem e se respeitam mutuamente pelo que são, com a arte de Garry Brown ajudando muito a materializar essa premissa, seja na forma como ele lida com o caos da violência sem freios, seja nos breves momentos de paz.
The Bleeding Tide (A Maré de Sangue em minha tradução literal que, eu sei, poderia ter sido A Maré Sangrenta) é uma das melhores histórias únicas de Unute, uma que funde com bastante competência a fúria assassina do personagem com um lado mais filosófico e contemplativo que, justamente por isso, talvez merecesse mais espaço para florescer. Uma bela adição à mitologia de BRZRKR que realmente precisa de material mais denso para funcionar para além dos tropos narrativos evidentes usados e abusados por roteiristas menos inspirados que a premissa da série permite.
Light Draws Breath
(A Luz Respira)

Quando vi que o roteiro de Light Draws Breath (A Luz Respira em minha humilde tradução) era coassinado por China Miéville, já me preparei para algo no mínimo estranho dada a bibliografia do autor e o fato de ele ter escrito O Livro de Algum Outro Lugar, romance que faz parte da franquia BRZRKR e que tem elementos para lá de bizarros. Dito e feito, o one-shot lida com um alquímico grego e sua aprendiz em Alexandria, no Egito, esperando o momento em que Unute morre em combate uma vez, para roubarem um pouco do sangue do “ovo” que se forma e fazer experimentações com ele com o objetivo de desvendar os mistérios da imortalidade. Mas, no lugar de seguir um caminho mais normal, Miéville e Season Butler dão vida a um homúnculo que inicialmente me lembrou o Brasinha, que é capaz de “inspirar” (sim, isso mesmo) e que é usado em experimentações até que a aprendiz o sequestra para evitar que ele seja torturado, passando a adotá-lo, na falta de uma palavra melhor.
O que segue, daí, é a passagem de tempo que transforma o homúnculo de um bebê vermelho a um bebê que parece a versão miniatura e mais rechonchuda de Unute em uma relação de muito tempo com a aprendiz, mas que sempre sente a necessidade de reunir-se novamente ao todo de onde foi retirado. Chega a ser surreal que um “pedaço” de Unute gere um mini-Unute, mas é mais surreal ainda quando o vemos interagir com a humanidade sem nenhum tipo de estranhamento maior, mesmo com um rosto adulto barbado em um corpo de bebê sem genitália. Miéville viajou completamente na sua criatividade, como ele costuma fazer e, com isso, acertou em mais uma abordagem da mitologia de BRZRKR, mesmo que, talvez pela primeira vez nessas edições únicas, essa mitologia ganha elementos que parecem acrescentar às possibilidades de uso futuro, tornando a história bem menos estanque do que eu imaginaria que fosse.
Claro que eu tenho lá minhas dúvidas se, em eventual nova publicação mensal contínua de BRZRKR, essa invenção do autor será usada de verdade, mas fica a possibilidade, claro. Seja como for, com a bela arte de Alessio Avallone, que não tem vergonha alguma em contrastar humanos normais com o homúnculo, esse one-shot funciona muito bem, servindo até mesmo de um respiro, já que o Unute Prime, por assim dizer, quase não aparece, permitindo um desenvolvimento completamente fora do esperado. Quem sabe um dia o homúnculo não volta para outra história própria?
BRZRKR: Juramentos de Sangue – Vol. 1 (BRZRKR: Blood Oaths – Vol. 1 (EUA, 2025/26)
Contendo: BRZRKR: The Bleeding Tide (TBT) e BRZRKR: Light Draws Breath (LDB)
Criação: Keanu Reeves
Roteiro: Marjorie Liu (TBT); Season Butler, China Miéville (LDB)
Arte: Garry Brown (TBT); Alessio Avallone (LDB)
Cores: Dee Cunniffe (TBT); Sara Cuomo (LDB)
Letras: Rus Wooton (TBT); Pat Brosseau (LDB)
Editoria: Sebastian Girner, Andy Schmidt
Editora original: BOOM! Studios
Datas originais de publicação: 24 de julho de 2024 (AFoB) e 21 de agosto de 2024 (TLBoB); 24 de dezembro de 2024 (encadernado)
Páginas: 59 (TBT) 58 (LDB)