Impulsionada por investimentos de centenas de bilhões de dólares, a inteligência artificial (IA) tem evoluído com rapidez vertiginosa. São a cada dia mais persuasivas as evidências de que poderá atingir capacidade cognitiva e intelectual superior à humana. Um sistema de IA previu a estrutura de 200 milhões de proteínas, rendendo o Nobel de Química a seus desenvolvedores. No mês passado, um modelo da OpenAI resolveu um problema que desafiava os matemáticos desde que fora proposto pelo húngaro Paul Erdös em 1946. Há um ano, outro modelo do Google alcançou o nível dos medalhistas de ouro em Olimpíadas Internacionais de Matemática. Conquistas assim corroboram a previsão de solução em série para problemas até agora intratáveis.
Há razão para otimismo, mas não faltam motivos para apreensão. Em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV enfatizou as consequências econômicas e sociais da IA em diversas atividades. No 77º Congresso da Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias, o presidente do jornal The New York Times, Arthur G. Sulzberger, chamou a atenção para um dos efeitos mais alarmantes: o impacto no jornalismo e na imprensa. Exatamente como fizeram os pioneiros da internet, as empresas que lideram a corrida da IA têm treinado seus modelos com base no roubo descarado de conteúdos protegidos por direito autoral, em escala nunca vista. As gigantes de tecnologia invadem sites de notícias sem permissão, copiam e reelaboram informações, depois passam a competir em audiência e receita com as empresas de comunicação.
Não é difícil imaginar um momento em que sumirão as fontes fidedignas de informação. “Temo que caminhemos a passos largos para um futuro com cada vez menos jornalistas para fazer o trabalho caro e difícil da reportagem — ir aos lugares, conversar com pessoas, cavar informações, cobrir assuntos e eventos importantes, fornecer contexto e análise, investigar os poderosos”, disse Sulzberger. “Um futuro em que o manancial necessário para uma sociedade saudável e uma democracia estável — a verdade, a compreensão e a responsabilidade social proporcionadas pelo jornalismo — continua a secar.”
O estrago não se resume às empresas jornalísticas. Os sistemas de IA não conhecem limites. Invadem acervos de livros, filmes, música e pesquisas acadêmicas. O significado e a importância desse conjunto de bens transcendem o peso cultural. Na estimativa apresentada por Sulzberger, as profissões “criativas” empregam mais de 50 milhões de pessoas no mundo e geram anualmente US$ 12 trilhões em riqueza.
Os críticos da rapina promovida pelos modelos de IA costumam ser acusados de retrógrados, apegados ao passado. Nada mais falso. As empresas de jornalismo estão entre as primeiras a adotar novas tecnologias, inclusive ferramentas de IA. Não se trata, como ponderou Leão XIV, de ser contra a IA, mas de discutir que versão de IA será mais benéfica para a sociedade. Em seu discurso, Sulzberger relatou como o avanço das redes sociais resultou no fechamento de jornais. Nas comunidades afetadas, diminuíram a confiança e a tolerância, cresceram o isolamento e o ódio. “O engajamento cívico diminui e a corrupção pública aumenta”, disse. Nesse cenário de declínio do jornalismo, a IA pode representar um golpe fatal em democracias já abaladas. É um futuro que deve preocupar os entusiastas ingênuos das novas tecnologias.