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quinta-feira, junho 4, 2026

Às vésperas da Copa do Mundo, álbum de figurinhas vira item de protesto em meio à crise de desaparecidos no México

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O tradicional álbum de figurinhas com estrelas do futebol que disputarão a próxima Copa do Mundo ganhou um significado sombrio em partes do México. Famílias de vítimas desaparecidas pela violência do crime organizado passaram a preencher um álbum virtual simbólico para chamar atenção para a luta por respostas sobre seus parentes.

A imagem contrasta com a que operadores de turismo e empresários do estado mexicano de Jalisco querem projetar enquanto milhões de torcedores se preparam para acompanhar o principal evento esportivo do planeta, que começa neste mês. Depois que militares mataram, em fevereiro, o notório traficante Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes, chefe do cartel Jalisco Nueva Generación, nos arredores da capital Guadalajara, turistas começaram a retornar à cidade histórica. A Copa agora é vista como uma chance de deixar para trás o episódio e seus desdobramentos violentos.

“El Mencho”, líder do cartel Jalisco Nova Geração, com seu filho Ruben Oseguera Gonzalez, conhecido como “El Menchito” — Foto: Divulgação / Corte do Distrito de Columbia

Mas muitos moradores temem que o clima festivo e as obras de infraestrutura encubram a crise de segurança que ainda afeta o cotidiano da população.

O México sedia o torneio ao lado de Canadá e Estados Unidos, na primeira Copa do Mundo realizada por três países. Em 13 partidas distribuídas por três cidades mexicanas, quase US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões) em recursos públicos e privados estão sendo investidos nos preparativos. Entre os locais está Jalisco, berço da tequila, sede do Vale do Silício mexicano e importante destino de praia para turistas dos EUA e do Canadá.

Telões estão sendo instalados no centro renovado de Guadalajara e em cidades turísticas próximas. No Estádio Akron, em Zapopan, nos arredores de Guadalajara, um novo gramado foi colocado para atender aos padrões da Fifa. O estádio, rebatizado temporariamente com o nome de Guadalajara durante o torneio, também ganhou novas áreas VIP. No fim de maio, um assento em um lounge à beira do campo custava mais de US$ 5 mil (R$ 25 mil), valor equivalente a dez vezes o salário mínimo mensal do México.

Para empresários locais, a Copa representa uma oportunidade de recuperação após afiliados do crime organizado incendiarem comércios e veículos em mais de 20 estados em reação à morte de El Mencho. Nas semanas seguintes, visitas estrangeiras à cidade turística de Puerto Vallarta, no litoral de Jalisco, caíram mais de 30% em comparação com 2025, enquanto a ocupação hoteleira e as vendas de restaurantes despencaram.

Em uma pesquisa do governo publicada em abril, nove em cada dez moradores de Guadalajara disseram se sentir inseguros. Ernesto Sánchez Proal, presidente da Câmara Americana de Comércio em Guadalajara, afirmou que sua empresa de turismo precisou cancelar, em março, uma viagem para fotografar a vida selvagem perto de Puerto Vallarta.

“As pessoas estavam com muito medo”, disse.

Muitos mexicanos ainda estão. Com o reforço da segurança, torcedores provavelmente se sentirão protegidos, mas moradores atingidos pela violência continuam desaparecendo. Com baldes de cola nas mãos, famílias e amigos passaram a colar imagens das vítimas pela cidade para garantir que elas não sejam esquecidas.

Estádio Azteca, na Cidade do México. — Foto: Luis CORTES / AFP
Estádio Azteca, na Cidade do México. — Foto: Luis CORTES / AFP

“Eles estão dando tanta atenção à Copa do Mundo”, disse Hilda Villalobos Tinoco, de 49 anos, cujo filho não voltou para casa depois de sair de moto de madrugada em março. “Quanto tempo leva para que eles prestem atenção em nós?”

Manifestantes contrários à Copa afirmam que a crise de segurança atinge mexicanos da classe trabalhadora, que não estarão nas arquibancadas. Em vez de reformar estádios, remodelar aeroportos e decorar praças com bolas de futebol ornamentais, dizem eles, o governo deveria direcionar recursos escassos para enfrentar os problemas sociais do país.

A Copa do Mundo não é estranha a protestos. No Brasil, em 2014, moradores foram às ruas antes dos jogos para pedir o fim da corrupção, após gastos considerados excessivos com estádios. Na África do Sul, o torneio de 2010 foi precedido pelo uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo pela polícia para reprimir greves trabalhistas, em meio a críticas semelhantes sobre o uso de dinheiro público.

Estudantes tomam a laje do Congresso durante manifestação na esplanada, em 17 de junho de 2013 — Foto: Givaldo Barbosa
Estudantes tomam a laje do Congresso durante manifestação na esplanada, em 17 de junho de 2013 — Foto: Givaldo Barbosa

Questionada em uma coletiva recente se a polícia bloquearia protestos do lado de fora dos estádios durante o torneio, a ministra do Interior, Rosa Icela Rodríguez, afirmou: “No México, há liberdade de expressão.”

Investimentos na segurança

O governo da presidente Claudia Sheinbaum, que tornou a segurança uma prioridade, garantiu em fevereiro que turistas não correm “nenhum risco”. O governo federal designou cerca de 99 mil integrantes das forças de segurança para Guadalajara, Cidade do México e Monterrey, onde os jogos serão disputados.

Jalisco também modernizou seu sistema de câmeras para monitorar melhor jogadores e torcedores. Um perímetro de cerca de 1,6 quilômetro ao redor do estádio foi planejado para impedir a entrada de pessoas sem ingresso. Dentro das arenas, equipes privadas de segurança foram reforçadas para conter eventuais brigas.

“Sabemos que há torcedores vindo de todo o México. Também sabemos que há espanhóis, colombianos, americanos. Também há uruguaios”, disse Alfonso Briseño Torres, autoridade de Jalisco que integra um comitê de segurança da Copa de 2026 e tem buscado tranquilizar diplomatas estrangeiros. “Nós nos reunimos com cônsules e embaixadores, e eles saíram convencidos de que, em Jalisco, estamos fazendo as coisas certas para garantir a segurança.”

A confiança será testada em Guadalajara, uma metrópole movimentada que reúne restaurantes estrelados pelo Michelin, igrejas famosas por seus vitrais e condomínios fechados de alto padrão. Zapopan, sozinha, abriga alguns dos CEPs mais ricos do México. Também é uma área marcada por valas clandestinas — e por pessoas que procuram por elas.

Villalobos percebeu que algo estava errado quando seu filho, Giovanni Luna Villalobos, de 31 anos, não apareceu para comer pozole, uma sopa de milho, em sua festa de aniversário. Câmeras de segurança o mostraram empurrando a moto até um posto de gasolina. Registros de celular depois localizaram o aparelho a poucos quarteirões de um shopping de alto padrão em Zapopan.

Com a ajuda de outros pais e da comissão oficial de buscas de Jalisco, Villalobos colou cartazes perto do shopping e em uma avenida próxima de casa. Nos anúncios, ela descreve o filho como um homem atlético, de 1,78 metro, com sardas no nariz e uma tatuagem verde no pescoço com a frase “só Deus pode me julgar”. Mas diz não ter recebido nenhuma notícia e culpa as autoridades por negligenciarem o caso.

“Eu liguei para ele de novo e de novo, e só caía na caixa postal”, disse. “Os dias passam, as horas passam, mas eu não acredito que meu filho esteja morto.”

Associações de base fizeram questão de manter os cartazes dos desaparecidos visíveis até em pontos turísticos, incluindo os arredores de uma catedral do século XVII e barreiras em uma rotatória central com a estátua de uma deusa romana, onde torcedores mexicanos costumam comemorar. Um pedido de parlamentares locais para retirar os cartazes não foi atendido.

No México, a última grande mobilização de segurança ocorreu em 2025, após o assassinato de um prefeito em outro estado. Naquele ano, a associação da qual Villalobos agora faz parte, Guerreros Buscadores de Jalisco, provocou um escândalo nacional ao encontrar mochilas, sapatos e fragmentos de ossos em um rancho nos arredores da cidade, sinais de recrutamento forçado e assassinatos.

Desde então, o grupo encontrou outros locais de valas coletivas, alguns deles, segundo seus integrantes, a cerca de 15 quilômetros do estádio.

Enquanto isso, autoridades e empresários aguardam o retorno financeiro da Copa. O prefeito de Zapopan, Juan José Frangie Saade, empresário e ex-presidente do Chivas, tradicional clube que costuma mandar seus jogos no estádio local, acredita que o torneio trará ao estado cerca de 30 bilhões de pesos, o equivalente a US$ 1,7 bilhão.

As obras de infraestrutura foram aceleradas, segundo ele. A operadora aeroportuária Grupo Aeroportuario del Pacífico, por exemplo, prometeu investir 1,5 bilhão de dólares nos aeroportos de Guadalajara e Puerto Vallarta até 2029. Multidões são esperadas em festivais com atrações como a banda pop-rock Maná e o cantor Alejandro Fernández, o que deve fazer o dinheiro circular também entre pequenos negócios.

“O futebol é um esporte que nos une”, disse Frangie. “Dizemos que Jalisco é o lugar mais mexicano porque, pelo que somos conhecidos no mundo? Tequila, mariachi, folclore, charrería e gastronomia.”

Mas os jogos também devem beneficiar organizações criminosas. O cartel Jalisco Nueva Generación tem incentivo econômico para atender turistas, afirmou Victor Manuel Sánchez Valdés, pesquisador da Universidade Autônoma de Coahuila.

“Há um medo de que possa haver ações violentas na Copa do Mundo, e, embora não possamos ignorar completamente esse cenário, o incentivo econômico é maior do que o desejo de gerar violência”, disse Sánchez. “O crime organizado quer uma fatia do benefício econômico que vai chegar à economia legal. As áreas turísticas têm os consumidores de alto gasto.”

Fernando García de Llano Valenzuela, incorporador que abriu em dezembro um hotel de nove andares com vista panorâmica na região de Guadalajara, teve apenas um hóspede durante dias depois da morte do chefe do cartel no início do ano. Seu hotel boutique de alto padrão em Puerto Vallarta também ficou vazio em março. Em abril, ele começou a ver sinais de recuperação.

“Há uma percepção de que pode haver perigo, mas nada vai acontecer nesta cidade”, disse ele em abril, sentado no bar da cobertura de seu hotel em Zapopan. “É como em qualquer outro lugar do mundo. Há partes da cidade que são perigosas, mas você teria que ir até elas — e um turista não tem motivo para isso.”

Se a Copa ocorrer sem problemas, García de Llano imagina Guadalajara despontando como um dos principais destinos turísticos do mundo, em uma transformação semelhante à vivida por Barcelona após os Jogos Olímpicos de 1992.

“A paixão das pessoas pelo futebol é enorme. Eu gostaria de pensar que quem estava com medo em fevereiro ou março já não estava em abril”, disse, acrescentando que, à medida que os jogos se aproximavam, as pessoas buscavam uma forma de chegar à cidade.

[Fonte Original]

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