Na década de 1980, sob a ditadura de Augusto Pinochet, o Chile vivia limitado por um toque de recolher e por violência civil de todos os tipos: repressão, censura, exílio de opositores políticos e milhares de desaparecidos e mortos pelo regime. “A música, a literatura, a arte e o cinema eram a resistência daquela época”, comenta o escritor chileno Alberto Fuguet, que retrata esse momento difícil no romance Certos garotos, recém-lançado pela Tusquets.
A obra se passa na capital Santiago, em 1986, e acompanha dois garotos em busca de ascensão. Tomás Mena entra na faculdade de Letras para se libertar da família tradicional – para abrir caminho e descobrir quem ainda não sabe que é. No outro lado da cidade, vive Clemente Fabres, estudante do último ano de Jornalismo, desejoso de voltar à Inglaterra e autor de um fanzine que circula entre livrarias e lojas de discos (alimentando de esperança aqueles que enxergam Santiago só como uma cidade cinzenta, entediante, apertada demais).
Quando se conhecem, à medida que o clima no país se torna mais pesado, eles buscam caminhos pela cultura para escapar do sufoco. “O romance é uma espécie de mistura de como o afeto entre homens é vivenciado hoje, já que se tornou normalizado, com o passado, quando era uma espécie de raridade, um mistério, algo que acontecia em segredo, em filmes ou entre membros de gangues em lugares distantes”, conta Fuguet, que traz um brilho à sua escrita ao criar situações comoventes de uma geração que sobrevive no underground.
Sobre o romance, o escritor de 63 anos respondeu por e-mail as seguintes perguntas:
Os anos 1980 na América Latina não são tão nostálgicos, pois muitos países viviam sob ditaduras. Seriam a música, a literatura, a arte e o cinema a “resistência” daquela época?
Sem dúvida. Além disso, acredito que foram uma força democrática e libertadora que as ditaduras não conseguiram enxergar. É estranho que as tenham aceitado, que não as tenham censurado. A ideia de que a música pop era descartável e sem importância é fascinante. Estavam alheias à realidade. Penso que isso fica muito claro no Brasil e nos dois filmes recentes que alcançaram aclamação internacional (Ainda estou aqui e Agente secreto): a música pop, inclusive em Hollywood, dialoga diretamente com o horror. A música pop foi uma forma de resistência, um “cavalo de Troia” para a diversidade, e uma maneira de traçar um rumo para o futuro.
O romance aborda temas como amizade masculina, homossexualidade e ambiguidade. Como foi o processo de explorar esses assuntos por meio dos dois protagonistas?
Este é um romance pessoal. Completei vinte anos em 1983. Ou seja, é um mundo que eu conhecia. Eu gostaria de ter sido um certo tipo de garoto – ou de ter tido um garoto para mim. Então, o romance é uma espécie de mistura de como o afeto entre homens é vivenciado hoje, já que se tornou normalizado, com o passado, quando era uma espécie de raridade, um mistério, algo que acontecia em segredo, em filmes ou entre membros de gangues em lugares distantes. Mas o romance se conecta com minhas sensibilidades, desejos e memórias. É uma autobiografia sobre o que eu gostaria de ter vivenciado.
Muito do que antes era considerado transgressor agora é visto como natural. Na sua opinião, como podemos conscientizar os jovens de hoje sobre questões que eram cruciais para os jovens do passado?
Nos anos 1980, em plena ditadura, poucos tinham coragem de ousar viver seus sentimentos e expressar sua verdadeira essência. Há muitos romances sobre ser vítima. Para alguns jovens, eu sinto, trata-se mais de ser herói – sem esperar que os tempos mudem.
Você está mais interessado em saber o quão diferente o passado é do presente, ou o quão semelhantes podem ser as diferentes épocas?
Em termos de diversidade, o progresso é notável. Quanto à cultura, às vezes me sinto sortudo por ter vivido uma grande era de ouro. Algumas crianças são atraídas pelo Britpop, pelo movimento new wave… Foi uma enorme explosão cultural que nem todos viram como tal, mas certamente foi. Era analógica, graças à tecnologia da época, como rádio, fitas cassete, filmes e TV. Por um lado, havia censura local, mas havia programas de videoclipes que trouxeram liberdade e outras maneiras de ver a vida. Dito isso, vejo o romance um pouco como uma história alternativa; ou seja, Clemente e Tomás talvez estejam à frente de seu tempo. Eles não se importam muito com o que os outros pensam, vivem sua homossexualidade naturalmente e estão mais focados em outras coisas, e certamente em se encontrar. Não sei se era possível ser tão livre naquela época.
Você acredita que os romancistas têm uma obrigação moral para com seus personagens e seus leitores?
Amá-los. Respeitá-los. Ser honesto. Cuidar deles. Deixar os personagens viverem e cometerem erros. É fundamental confiar no leitor e que o leitor confie em você. No fim das contas, existe uma espécie de sedução envolvida com o leitor.
O mal pode ser considerado um aliado da literatura?
O mal se infiltra e existe, e sem drama não há histórias, nada para contar. Na vida, tenta-se manter o mal afastado ou controlá-lo, mas a literatura certamente mergulha no mal, na escuridão. Mas também na luz. Acho que abraçar apenas o mal é uma armadilha e tem um quê de pose. O que é complicado, arriscado, transgressor, é abraçar a luz. Eu queria escrever um romance que não tivesse medo dos sentimentos, que fosse terno, que tivesse coração.