Depois de nos apresentar seus cativantes personagens antropomorfizados em um nordeste repleto de ilhas (a configuração de inundação profetizada por Antônio Conselheiro), Al Stefano nos presenteia com mais uma aventura nesse Universo, trazendo um personagem simpático e marcante chamado Biu Marrento, o mão-pelada mais liso dos mares nordestinos. O autor entendeu que esse mar enorme, se não for bem explorado e integrado aos gêneros pretendidos, vira apenas um cenário alternativo interessante, mas vazio, e por isso mesmo o texto dessas histórias deixa às claras as raízes do cangaço, que nasceu da violência do latifúndio e da ausência do Estado sobre os habitantes pobres do semiárido; um ponto perfeito para aliá-lo ao contexto da pirataria, vocês não acham? Nesta aventura, lançada em 2025, conhecemos Biu Marrento, um personagem genuinamente engraçado, o típico malandro com a maior banca de valente e bonzão que, na verdade, é um mentiroso, um anti-herói (ou quase isso) de que a gente acaba gostando imediatamente.
Assim como o autor tinha feito em Piratas do Cangaço (2022), permanecem aqui diversas narrativas que se cruzam e mostram eventos diferentes, com personagens guardando segredos e seguindo caminhos inesperados, algo que nos choca à medida que vamos descobrindo cada um deles. Essa estrutura que expõe diferentes vozes não aparece no texto como um capricho dramático, é ela, na verdade, que permite distribuir as questões históricas e sociais da obra sem transformar nenhum personagem em “pregador ideológico”, o que deixaria a aventura extremamente chata. O sistema em que o grande proprietário concentrava poder econômico e político com força de lei própria sobre os trabalhadores tem uma das melhores contextualizações aqui (embora já tivesse aparecido, como indicação de poder local, no volume anterior), e é por isso que gosto muitíssimo da reviravolta que o autor preparou no assalto ao latifúndio de um determinado coroné, de quem Biu queria se vingar: um golpe que o leitor sente de forma até mesmo emocional porque o autor construiu com paciência a lógica de dominação e soube o momento que quebrar as nossas expectativas ao revelar outras facetas dos personagens (aliás, palmas para Al Stefano por não seguir a linha maniqueísta tão comum em histórias com animais antropomorfizados).

Existem discussões muito boas levantadas pelo autor aqui, e todas elas recebem uma boa colocação na aventura, cada uma ligada a um grupo, personagem e tempo, sem atrapalhar o desenvolvimento de outro bloco narrativo. Também merecem destaque os desenhos, que são ricos em detalhes (gosto muito de ambientes construídos com riqueza, com personalidade, assim como o uso de muitas expressões diferentes para os personagens principais. Aqui, temos tudo isso!) e cativam a nossa atenção. Aliás, diferente do volume anterior da saga, vejo uma atribuição bem mais evidente dos comportamentos naturais dos bichos elencados na aventura, com destaque para a piadinha com o urubu e o comportamento e contexto em torno de Biu Marrento, que, como já disse no início da crítica, é um mão-pelada, um guaxinim-sulamericano (Procyon cancrivorus), cuja máscara natural ao redor dos olhos e as ações cheias de segundas intenções parecem a declaração mais honesta que um pirata-cangaceiro poderia carregar no rosto e na personalidade. Ao cabo, tive o mesmo problema em relação à outra HQ, embora em intensidade menor: a indicação de [possível] continuidade da história me pareceu aberta demais, mas não sei até que ponto isso é unicamente uma chatice minha com finais, ou outra coisa. O fato é que o leitor, ao final, já está esperando pelo próximo volume. É muito gostoso quando um quadrinho brasileiro mergulha em nosso imaginário e em nossa história para criar algo ao mesmo tempo crítico e divertido. Piratas do Cangaço é um baita exemplo de como isso se aplica até mesmo a uma profecia.
Piratas do Cangaço: A História de Biu Marrento (Brasil, 2025)
Roteiro: Al Stefano
Arte: Al Stefano
Editora: Zapata Edições
Editoria: Daniel Esteves, Al Stefano
48 páginas