A produção de quadrinhos de Rick Remender pode não ser na quantidade avassaladora e quase impossível de conceber de Jeff Lemire, mas, com seu selo Giant Generator, criado em 2017 e que assinou contrato de exclusividade com a Image Comics em 2023, em seguida arregimentando uma pequena tropa de mentes criativas também em regime exclusivo, ele parece ter chegado a um outro patamar em sua vida profissional tanto na criação de novas obras, como Os Sacrificados, quanto no reempacotamento e relançamento de trabalhos mais antigos, como Fear Agent. Sua mais recente publicação mensal, Escape, é uma parceria com o desenhista espanhol Daniel Acuña, que tem sólida passagem pela Marvel Comics e que se inspira na vida de seu avô Melvin W. Remender que ele descobriu há relativamente pouco tempo, depois do falecimento de seu pai, que havia se distanciado desse lado da família em razão de abusos causados pelo trauma da guerra.
Vovô Remender, que Rick nunca conheceu, fora piloto de exibições aéreas (que eram normalmente conhecidos como barnstormers nos EUA) nos anos 30 e, depois, de missões durante a Segunda Guerra Mundial tanto no teatro europeu quanto no do norte da África e ele acabou dando forma a Milton Shaw, o urso antropomórfico – em um mundo de animais antropomórficos – que é o carismático protagonista da HQ. Shaw é o comandante de um bombardeiro em sua 28ª missão, oito a mais do que é exigido dos pilotos da Força Aérea, com o objetivo de destruir um gigantesco canhão das forças inimigas, o que pode contribuir para a guerra acabar mais cedo. Apesar de a ação ser ininterrupta nesse arco inicial de seis edições, o que Remender tenta e consegue fazer muito bem é colocar em discussão um tema muito em voga atualmente, ou seja, o quanto o mal perpetrado por governos é reflexo ou reflete a população que em tese eles representam. Trazendo para o mundo real, a população alemã é ou não culpada – por comissão ou omissão – pelos atos abomináveis do governo nazista? Ou, mais a tempo presente, a população israelense deve ser culpabilizada pelos atos de seus mandantes na Palestina ou os árabes em geral devem ser condenados pelo terrorismo de grupos organizados em tudo equivalentes a governos?
O roteiro introduz o assunto por meio de diálogos entre Milton, seu melhor amigo e copiloto e os demais tripulantes do bombardeiro em pleno voo e a poucos minutos do alvo, com uma pegada que talvez peque um pouco pelo didatismo, mas que acaba funcionando para fincar o dilema na mente do leitor. Afinal, o que acontece a seguir é justamente a materialização dessa conversa, com Milton, mesmo avisado de que o canhão está localizado em meio à população civil, ordena o lançamento das bombas que dizima a cidade e mata milhares de pessoas, mas erra o alvo principal, com seu avião sendo em seguida derrubado e com ele, tendo sobrevivido, fazendo de tudo para completar em terra a missão em meio aos escombros que ele mesmo criara pouco tempo antes e caçado impiedosamente pelo exército inimigo formado por morcegos antropomorfizados, uma inteligentíssima escolha de animal que subverte a proposta de Art Spiegelman, em Maus. Entremeada por flashbacks contextualizadores focados em Milton que ajudam a dar o significado inesperado ao título (Fuga, em tradução direta), a história tem passo firme e urgente com abordagem violenta que emula a linguagem dos melhores filmes modernos sobre guerras, com a construção do protagonista funcionando muito bem do começo ao fim, sem que a narrativa perca o foco da pergunta que ela faz incessantemente e que tem o condão de deixar o leitor contemplando o dilema muito tempo depois de virar a última página.

Remender explica o porquê de criar um universo de animais antropomorfizados, mesmo que em momento algum ele tente esconder que o que ele escreve é sua própria versão de uma história passada na Segunda Guerra Mundial. Para ele, era necessário não só afastar um pouco as ideias pré-concebidas dos leitores sobre bem e mal, como amplificar a empatia, algo que ele consegue justamente colocando animais como personagens. Sou o primeiro a admitir que, mesmo não tendo amado a ideia de primeira, quando ouvi falar do lançamento da HQ, não tive nenhum problema no mergulho imediato nesse universo que ele cria, o que talvez seja a prova de que Remender estava mais do que certo. Chegou a ser absolutamente natural ver ursos, cachorros e gatos lutando do lado dos Aliados e morcegos do lado nazista, mesmo que os nomes de cada lado sejam outros e que a tecnologia de armamentos seja levemente diferente da real. Até mesmo o maniqueísmo inevitavelmente embutido no conceito de “animais bonitos” versus “animais feios” acaba sendo absorvido com relativamente facilidade, diante da racionalização das escolhas de Milton e das consequências brutais de seus atos.
No entanto, o que realmente faz a premissa de Remender funcionar como um motor muito bem lubrificado é a magnífica arte de Acuña, talvez em seu melhor trabalho até agora. Para começo de conversa, o visual é cinematográfico, capaz de tragar o leitor por completo para dentro desse mundo em ruínas que é ao mesmo tempo muito familiar e muito estranho, arrebatador e assustador. Os detalhes da destruição e morte ao redor de Milton, o uso generoso de sombras e os enquadramentos perfeitos contribuem para um conjunto harmônico que, mesmo quando somos arremessados para flashbacks com atmosfera bem diferente, ele permanece profundamente gravado em nossa mente. E é interessante notar que o desenhista e colorista não faz uso de expedientes visuais clássicos, como é o uso de splash pages ou páginas duplas para cria impacto no que coloca nas páginas. Ao contrário até, ele mantém uma estrutura de quadros divididos por sarjetas que até pode ser visto como tradicional, mesmo que seus traços sejam a mescla do clássico com o moderno, como um literal filme de guerra produzido com as sensibilidades estéticas modernas (imaginem, por exemplo, O Resgate do Soldado Ryan ou Bastardos Inglórios).
E o mesmo vale para os personagens. O ursino Milton Shaw, apesar de sua posição radical que admite todo e qualquer efeito colateral desde que o objetivo da missão seja alcançado, é uma daquelas criações visuais que se iguala a John Blacksad ou ao Leão da Montanha, em Saída pela Esquerda: As Crônicas do Leão da Montanha, em termos da capacidade de convencer qualquer um, de imediato, que aquilo que vemos é real e não animais parecidos com humanos. Sua tripulação, apesar de aparecer muito pouco, cria instantânea conexão, assim como o exército de morcegos cria instantânea repugnância, mas somente até o momento em que Acuña passa a individualizá-los, o que traz outra dimensão à narrativa e coloca tudo em xeque, para o mal ou para o bem. E a movimentação dentro dos quadros e entre quadros e, claro, de página a página, é uma lição de ritmo na Nona Arte, mas um ritmo em que a elegância dá espaço para a brutalidade e a humanidade à raiva, dor e preconceito. Cada página exala trauma sofrido e infligido e ninguém consegue sair incólume.
Rick Remender e Daniel Acuña têm em Escape uma HQ mensal vencedora para aqueles que estiverem dispostos a encarar os seus próprios demônios. Ler quadrinhos pode até ser visto como um ato de fuga da realidade, mas Escape, ironicamente, não é fuga, mas sim um mergulho profundo no pior – mas também no melhor – que a humanidade tem a oferecer. E o que mais machuca é a percepção do quão atual e urgente é a indagação que essa obra faz a nós e o quanto ela torna difícil uma resposta inequívoca.
Escape – Vol. 1 (Idem – EUA, 2026)
Roteirista: Rick Remender
Arte: Daniel Acuña
Cores: Daniel Acuña
Letras: Rus Wooton
Editoria: Gabe Dinger, Ivan Brandon
Editora: Image Comics (Giant Generator)
Datas originais de publicação: 20 de agosto, 24 de setembro, 04 de novembro, 26 de novembro e 31de dezembro de 2025 e 25 de fevereiro de 2026; encadernado lançado em 23 de junho de 2026
Páginas: 168