Esta penúltima edição de Monstro do Pântano 1989 aposta tudo numa pergunta que Rick Veitch vinha fazendo desde que herdou o Pantanoso de Alan Moore, ou seja, se a onisciência vale mais que a dor do amor e da mortalidade. Aqui, o protagonista precisa escolher entre se fundir à eternidade ou voltar ao espaço-tempo e encarnar mais algumas muitas vezes. Na frente da enorme Mão Flamejante, antes do Big Bang, o Monstro do Pântano conversa quase que de igual pra igual, sendo tratado com muito respeito e fazendo a devida reverência à entidade que tem à sua frente. Ele pensa com cuidado na proposta divina, e quando decide não se unir à Fonte para voltar como uma semente que pode se tornar uma “árvore consciente” e morrer queimada já na pré-história, a principal ideia do autor fica clara: o amor que o avatar do Verde sente por Abby pode ser visto como fraqueza, por alguns, mas, na verdade, é a força que dá sentido a todo o universo (sim, é tudo muito bonitinho, mas mal amarrado). O problema é que o reencontro com a própria história parece ter deixado o texto tão confuso que esqueceu do leitor que precisa entendê-lo.
Por um lado, Veitch consegue elencar a equipe de antagonistas que conecta suas ideias, daí a presença de Darkseid. Em Apokolips, ele diz a Metron que não conseguiu clonar o Pantanoso, porque os clones não sentem as emoções necessárias para entender a Equação Anti-Vida. A ciência fascista do planeta não funciona porque não consegue entender o que é o amor. Isso faz com que a recusa do Verdão em relação à Fonte tenha um significado que ultrapassa o campo simbólico. Tom Mandrake reforça o mesmo raciocínio pelo desenho, nas páginas da reencarnação, onde os painéis estreitos, retangulares e verticais empurram o olhar de cima para baixo e fazem o leitor sentir o peso prático da decisão de Alec, que termina em uma tragédia anunciada. A ironia se completa com a busca do Monstro do Pântano pelo amor puro em oposição à busca de Anton Arcane pelo ódio destilado, após suplicar a Nergal e mergulhar na piscina de almas condenadas para ter os poderes de vingança na Terra — o que não deixa de ser, também, uma escolha de encarnação.

Essa interessante dualidade, porém, não sobrevive ao excesso de núcleos que Veitch enfia num capítulo só. A meu ver, a viagem temporal do elemental, com a Fonte de um lado e a tragédia do clã de Anthro do outro, já bastava para prender qualquer leitor minimamente ligado à saga em andamento. Essa insistência em costurar ao mesmo tempo o laboratório de Apokolips, o pacto de Constantine com Corrigan num pub londrino, uma passagem rápida por um certo castelo romeno e a estadia de Arcane no Inferno transforma uma história simples, mas muito interessante, numa coleção de ruídos dramáticos desnecessariamente complexos (e chatos) vindos de cinco linhas diferentes. A colocação de Anton Arcane, para mim, estraga a narrativa. Primeiro, porque ele não tinha nada que ter espaço para vingança aqui. O caso de Matt Cable já está completamente fechado; por que reviver isso? Depois, porque esse caminho textual meio Martin Pasko para o Pantanoso não me agrada muito, especialmente porque seu propósito é quase risível.
Veitch inverte a jornada do herói quando o Monstro do Pântano deixa de agir e passa a suportar a vida. Nada nesta edição se resolve pela força, e o elemental aceita o sofrimento passivo dos séculos, preso ao penhasco. A descida dele e sua “purificação pelo fogo” se aproximam menos do heroísmo de combate e mais da renúncia budista ao ciclo da dor, a escolha de encarnar a finitude em vez de escapar dela pela porta cósmica que a Fonte abriu para ele lá no começo da edição. O tempo, nessa história, é uma espécie de adversário do protagonista e percorre uma realidade desde antes do Big Bang até o trabalho de parto de Abby, numa cabana da Louisiana. Sinceramente? Não gosto de como o autor pensou o encerramento dessa fase do Pantanoso e a chegada de seu bebê com Abby (lembrando que estas quatro edições seriam o fechamento do arco, se Veitch tivesse permanecido na editora). Minha antipatia por Arcane — ou por essa forma barroca de trabalhá-lo — também não ajuda a uma boa recepção das escolhas narrativas aqui. Agora fico menos animado pelo final da minissérie, sabendo quais as forças que vão se enfrentar. É bem aquele ditado: “Cuidado com o que deseja“.
Monstro do Pântano 1989 #3: Source and Sorcery (EUA, 24 de junho de 2026)
Roteiro: Rick Veitch
Arte: Tom Mandrake
Cores: Patricia Mulvihill
Letras: Todd Klein
Editoria: Alex Galer, Chris Conroy
25 páginas