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sábado, julho 4, 2026

Crítica | Na Terra dos Seminoles (Tex Willer #18 a 23) – Plano Crítico

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Talvez um dos arcos mais ambiciosos da série Tex Willer até o momento, Na Terra dos Seminoles (também conhecido como O Agente Federal) coloca o jovem (e então) fora-da-lei sendo caçado pelo Texas, embarcando num navio a vapor rumo à Flórida, alistando-se à força no Exército sob nome falso e depois desertando e lutando ao lado dos nativos que deveria combater… Mauro Boselli estava animado, aqui, tentando escrever uma trama complexa como uma espécie de homenagem ao amigo Gianluigi Bonelli, que admirava muitíssimo os Seminoles. Do árido sudoeste dos Estados Unidos para os pântanos da Flórida, a história coloca Tex num aperto gigantesco, fugindo de um policial casca-grossa e excelente caçador, ao mesmo tempo que tem que sobreviver num território que ele não domina e num cenário para lá de hostil, em mais de uma frente. A ambientação aqui é a Terceira Guerra Seminole (1855 – 1858), o último embate armado dos povos indígenas a leste do Mississippi, deflagrado quando engenheiros e agrimensores do Exército estadunidense invadiram as terras de Holata Micco, o líder que os brancos apelidaram de “Billy Bowlegs”, e destruíram plantações de forma deliberada para forçar uma reação que justificasse a remoção da tribo. Boselli usa esse evento histórico para mostrar uma das fases mais intensas do Tex jovem em fuga e, no meio do caminho, aproveita para falar sobre como a lei de um Estado pode virar instrumento de barbárie se a obediência cega às ordens superiores for a única coisa de valor em cena.

O roteiro quebra o mito da “cavalaria salvadora” do faroeste tradicional, e para isso, utiliza a figura do tenente Fairfax como exemplo: um jovem ambicioso que veste a farda do Exército dos Estados Unidos, mas carrega doses cavalares de racismo institucional e mediocridade profissional, pensando que vai conseguir muita coisa massacrando uma aldeia indefesa, esperando, com isso, conquistar glória militar. De forma bastante irônica, o contraponto dessa faceta é justamente o jovem Tex, acusado de crimes de furto e assassinato e caçado de maneira neurótica pelo agente federal Brian Carswell. Alistando-se sob o nome falso de Ben Walker, o texano despista temporariamente seu incansável perseguidor, mas acaba caindo numa espécie de armadilha do destino, porque agora está no meio de uma guerra tripla: contra os Seminoles, contra Carswell e contra Fairfax  e Lou, dois canalhas que, apesar de o roteiro tratar de maneira unidimensional, acabam carregando de maneira aceitável o posto de vilões. Essa trilha de obstinação legalista encarnada por Carswell lembra muito o Javert de Os Miseráveis, porque o agente percorre a mesma estrada de implacabilidade até perceber que prender o homem que perseguia seria cometer a maior das injustiças.

Colocar os cimarrones aqui foi uma ótima ideia do autor, porque essa presença expande o arco dramático e coloca Tex em contato com um contexto étnico-cultural ainda maior, já que esses escravizados africanos (e/ou afro-americanos) foragidos que se integraram aos seminoles criaram uma cultura de aliança e sobrevivência comum que dialoga perfeitamente com muitas ideias de Tex. Boselli explora a união desses dois grupos explorados pela máquina expansionista branca e cria uma aventura com cara de crônica antropológica. A guerra seminole aparece como guerra de exaustão e de famílias encurraladas, bem distante do estereótipo do indígena belicoso por natureza (o “selvagem sem coração“) que tanto contaminou o gênero, mostrando-os como refugiados dentro de sua própria terra. A região pantanosa subtropical do sul da Flórida (Everglades) é uma personagem também (e daquelas bem importantes!); uma julgadora silenciosa, um espaço onde a lama, os insetos, as serpentes e os jacarés punem a arrogância dita civilizada da farda azul e protegem quem respeita a paisagem em vez de tentar subjugá-la. A arte de Michele Rubini mostra com grande beleza todo esse claustrofóbico espaço geográfico, com suas raízes retorcidas, cobertura vegetal com diferentes densidades, ambientes urbanos fervilhando de movimento e vestimentas indígenas seminoles historicamente bem realistas.

Boselli e Rubini criaram, aqui, uma saga que, infelizmente, tem momentos bem cansativos, mas que consegue, na maior parte do tempo, engajar o leitor e reforçar, de maneira crítica, o abismo que separa a “lei” da “justiça“. A hipocrisia das instituições dos Estados Unidos, o tipo racista básico que dominava a nação e o falso moralismo do Destino Manifesto são temas que ficam claros para qualquer leitor que prestar atenção no roteiro, e tudo isso numa aventura de fuga e guerra que, mesmo se sustentando sob uma premissa um tanto preguiçosa de flashback, tem um baita resultado positivo. É uma jornada e tanto para Tex, que atravessa o país porque está sendo caçado e, em cada cidade por onde passa e mora um tempo, ajuda pessoas, faz amigos, amantes e, como era de se esperar, cria confusões e forja inimigos, mesmo que não propositalmente (a maravilhosa cena de briga no saloon neste arco é um belo exemplo disso). O final chega até a emocionar e deixa o leitor com um misto de simpatia e ranço pela visão engessada do agente federal que caçava Tex, mesmo ele tendo feito a coisa certa — a contragosto do dever para com o Estado, mas a gosto de sua própria consciência.

Tex Willer #18 a 23: Na Terra dos Seminoles (Itália, abril a setembro de 2020)
Contendo: O agente federal, Fuga no mar, Na terra dos Seminoles, Os voluntários da Flórida, Guerrilha no pântano e Nas mãos da lei (L’agente federale, Fuga sul mare, Nella terra dei seminoles, I volontari della Florida, Guerriglia nella palude, Nelle mani della legge).
Roteiro: Mauro Boselli
Arte: Michele Rubini
Capas originais: Maurizio Dotti
Capa da coletânea do arco: Massimo Carnevale
No Brasil: Editora Mythos, julho a dezembro de 2020
384 páginas



[Fonte Original]

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