O que me chama atenção é justamente o momento. As mesmas empresas que passaram anos empurrando a IA para dentro de tudo e prometendo reorganizar o trabalho de milhões agora aparecem dispostas a dividir o bolo com a sociedade. Num primeiro momento pode até parecer generoso, mas eu tenho uma série de perguntas e desconfianças.
O fato é que ninguém abre mão de uma fatia tão relevante assim sem um bom motivo. E por que logo agora?
Uma parte da resposta está em como a sociedade americana está enxergando a tecnologia. Já escrevi aqui sobre como a confiança na IA vem caindo nos Estados Unidos. Uma pesquisa da Edelman mostrou que apenas 32% dos americanos confiam na tecnologia, contra 87% dos chineses e 67% dos brasileiros.
A proposta também pode ser lida como uma resposta a esse cenário de desgaste. Desgaste tão relevante que pode virar tema nas eleições de meio de mandato e pressionar a agenda de IA dos aliados de Donald Trump. Depois de muitas promessas de uma revolução da IA, que prometia quase um apocalipse de empregos, é hora de reorganizar a rota.
E o curioso é que essa proposta de Altman até dialoga com a do senador democrata Bernie Sanders, embora os valores sejam bem diferentes. Em junho, o político apresentou um projeto que quer transferir metade das ações das grandes empresas de IA para um fundo soberano, com mil dólares por ano a cada cidadão. Apesar das diferenças enormes, as duas propostas partem de um diagnóstico parecido: convencer a sociedade que ela também ganhará alguma coisa com a IA.
E acabei lembrando de um episódio do podcast do Ezra Klein para o NY Times em que ele entrevista Ben Buchanan, conselheiro de IA para a Casa Branca durante a administração Biden. Tem uma parte em que ele destaca que, pela primeira vez, a tecnologia mais poderosa da época não está sendo desenvolvida pelos Estados, mas por empresas guiadas pelo capital privado. É como se fosse um alerta de que os governos deveriam participar mais perto desse desenho de futuro.