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segunda-feira, julho 6, 2026

Além do petróleo e da Amazônia: cinco lições que aproximam Brasil e Noruega na transição climática

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A relação entre Brasil e Noruega atravessa um momento de fortalecimento. À espera da entrada em vigor do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), assinado em 2025 e ainda em processo de ratificação, os dois países ampliam a cooperação em áreas como energia, transporte marítimo, financiamento climático e conservação das florestas.

A Noruega é hoje um dos principais investidores estrangeiros no Brasil, com cerca de 300 empresas instaladas no país, entre elas Equinor, Statkraft, Yara e Hydro, enquanto novas oportunidades surgem em energias renováveis, combustíveis de baixo carbono e descarbonização da indústria.

Mas essa aproximação não começou agora. As relações comerciais entre os dois países remontam a 1842, quando o primeiro navio norueguês chegou ao Brasil carregado de bacalhau e retornou à Europa levando café. Quase dois séculos depois, a pauta bilateral se diversificou para setores como petróleo e gás, geração de energia, fertilizantes, mineração e transporte marítimo, ganhando uma nova dimensão com a agenda da transição climática.

Essa parceria se reflete em iniciativas concretas. Brasil e Noruega trabalham, ao lado da Holanda, para criar o primeiro corredor marítimo verde do Atlântico e mantêm um memorando de entendimento para desenvolver soluções de descarbonização do transporte marítimo. O país nórdico também é o principal doador do Fundo Amazônia e tornou-se o primeiro grande apoiador do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), proposto pelo Brasil durante a COP30.

Mais do que ampliar comércio e investimentos, a aproximação entre os dois países revela uma troca de experiências em políticas públicas. Enquanto a Noruega se tornou referência na gestão da riqueza do petróleo, na eletrificação da frota e na captura e armazenamento de carbono, o Brasil ganha protagonismo ao propor novos mecanismos de financiamento para a conservação das florestas tropicais, ampliar sua matriz elétrica renovável e consolidar a bioeconomia como estratégia de desenvolvimento.

O que a Noruega pode ensinar ao Brasil

1. Transformar a riqueza dos recursos naturais em patrimônio de longo prazo

O Government Pension Fund Global, abastecido principalmente pelas receitas do petróleo e do gás, encerrou 2025 com patrimônio de NOK 21,3 trilhões (cerca de R$ 11 trilhões) e retorno anual de 15,1%, segundo relatório da Norges Bank Investment Management. O fundo é frequentemente citado como referência internacional de gestão de riqueza intergeracional e oferece um paralelo para o debate brasileiro sobre o uso dos royalties do petróleo, especialmente do pré-sal, e sobre mecanismos permanentes de financiamento da transição climática, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).

2. Políticas estáveis para acelerar a eletrificação da frota

A Noruega alcançou um marco inédito em 2025: 95,9% dos automóveis novos vendidos foram elétricos, percentual que chegou a 98% em dezembro, segundo a Opplysningsrådet for Veitrafikken (OFV), entidade responsável pelas estatísticas do setor automotivo, em dados divulgados pela Reuters. Especialistas atribuem o resultado à combinação de incentivos para veículos elétricos e tributação mais elevada sobre automóveis movidos a combustíveis fósseis, política mantida de forma consistente ao longo de décadas.

3. Captura e armazenamento de carbono como infraestrutura pública

O projeto Longship, que inclui a infraestrutura Northern Lights, constitui a primeira cadeia integrada de captura, transporte e armazenamento geológico de carbono em escala comercial da Europa. A operação começa com capacidade para armazenar 1,5 milhão de toneladas de CO₂ por ano, com potencial de expansão para 5 milhões de toneladas, segundo dados da Northern Lights e da Equinor. Cerca de 80% dos investimentos da primeira fase foram financiados pelo governo norueguês, ilustrando um modelo de compartilhamento de riscos entre Estado e iniciativa privada.

4. Precificação de carbono com horizonte de longo prazo

A Noruega adotou um imposto sobre carbono em 1991, décadas antes de instrumentos semelhantes se disseminarem internacionalmente. O plano nacional prevê que a alíquota chegue a NOK 2.000 por tonelada de CO2 (cerca de € 196) até 2030. A experiência é frequentemente citada pela OCDE e pelo Banco Mundial como exemplo da importância de sinais econômicos previsíveis para estimular investimentos de longo prazo em tecnologias de baixo carbono. Vale ressaltar, contudo, que a Noruega continua dependendo fortemente da produção e da expansão das exportações de petróleo e gás, um paradoxo norueguês. Estima-se que as emissões decorrentes do uso desses produtos (emissões downstream) sejam mais de dez vezes superiores às emissões internas do país e não estejam contempladas em suas metas climáticas.

5. Financiamento climático baseado em resultados

Desde 2008, a Noruega é a principal financiadora do Fundo Amazônia. Entre 2009 e 2025, o país respondeu por R$ 3,8 bilhões dos R$ 4,9 bilhões destinados ao fundo, segundo dados do BNDES e da Agência Brasil. O mecanismo remunera resultados comprovados na redução do desmatamento, tornando-se uma das principais referências mundiais em pagamentos por desempenho ambiental.

O que a Noruega pode aprender com o Brasil

1. Novos modelos de financiamento para conservar florestas tropicais

Lançado pelo governo brasileiro durante a COP30, em novembro passado em Belém, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) propõe um modelo diferente do financiamento climático tradicional baseado em doações. A iniciativa busca captar US$ 25 bilhões em recursos públicos para alavancar até US$ 125 bilhões em investimentos privados, remunerando países pela conservação de florestas tropicais. A Noruega anunciou intenção de contribuir com US$ 3 bilhões, segundo a Agência Brasil, tornando-se um dos primeiros apoiadores da proposta.

2. Diversificação da matriz elétrica renovável em escala continental

O Brasil encerrou 2025 com 88,2% da geração elétrica proveniente de fontes renováveis e mais de 215 mil MW de capacidade instalada, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e o Balanço Energético Nacional, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Além da forte participação das hidrelétricas, o país expandiu rapidamente a geração eólica, solar e de biomassa, construindo uma matriz diversificada em escala continental.

3. Bioeconomia aliada à inclusão produtiva

Programas voltados aos Sistemas Agroflorestais vêm sendo apresentados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar como instrumentos para ampliar renda, recuperar áreas degradadas e manter a floresta em pé. A experiência brasileira busca integrar desenvolvimento econômico, agricultura familiar e conservação ambiental, aproximando a agenda climática das políticas sociais.

4. Diplomacia climática voltada à construção de consensos

Ao transformar a COP30 em plataforma para promover o TFFF, o Brasil mobilizou o apoio de 66 países à proposta e passou a negociar a adesão de novos parceiros, incluindo a China, segundo a Agência Brasil. A iniciativa reforça o protagonismo brasileiro na construção de mecanismos multilaterais voltados ao financiamento da conservação das florestas tropicais.

5. Governança e transparência em financiamento ambiental

Administrado pelo BNDES, o Fundo Amazônia financiou mais de 650 projetos desde sua criação e é frequentemente apontado pelo banco como um dos mecanismos de financiamento ambiental mais auditados do mundo. A experiência demonstra que países em desenvolvimento também podem estruturar instrumentos robustos de governança, monitoramento e prestação de contas para investimentos climáticos.

[Fonte Original]

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