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quarta-feira, julho 8, 2026

Crítica | Absolute Caçador de Marte – Vol. 2: A Agência – Plano Crítico

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Se o Universo Absolute não tivesse nada que prestasse, o que não é o caso, a empreitada já teria valido o esforço somente pela maxissérie em 12 edições sobre o Caçador de Marte que Deniz Camp escreveu e Javier Rodriguez desenhou e cuja segunda parte – edições #7 a 12 – é objeto da presente crítica que manterei sem spoilers. Trata-se de uma HQ tecnicamente mainstream de uma das duas grandes editoras dos EUA, mas que em nada, absolutamente nada se parece com uma HQ mainstream, muito mais remontando à época já bem distante em que a DC Comics e a Marvel Comics consistentemente investiam em obras do mais alto gabarito, algumas delas tendo mudado e moldado a indústria de quadrinhos de lá, ou a obras de editoras que assumem grandes riscos todos os meses dando voz e espaço às mais variadas mentes criativas, sem a imposição de freios.

O segundo e, pelo menos por enquanto, último arco de Absolute Caçador de Marte que, vale frisar, efetivamente encerra a história que Camp e Rodriguez queriam contar, começa alguns meses depois do final explosivo de Visão Marciana envolvendo o Marciano Branco e o agente do FBI John Jones “habitado” por uma entidade conhecida apenas como “Marciano”. Quando a história começa, Jones está retornando ao trabalho depois de um sabático recuperativo, mas que, na prática, nada mudou em sua vida. Ele ainda continua distante da esposa que o considera insano em razão do “amigo imaginário” que ele tem e também de seu filho Tyler, cada vez mais fechado em si mesmo e, agora, hospedeiro do Marciano Branco. O roteiro de Camp não tem pressa e emprega as duas primeiras edições a uma lenta tentativa de readaptação a uma vida regrada que, porém, se torna impossível não só pela existência do Marciano em sua consciência, mas também pela chegada de três agentes de uma misteriosa “Agência” que o caçam e, também, a versão Absolute do vilão Despero, que aqui ganha o nome Despair-the-Zero e se torna algo como um outro lado da consciência de Jones, ao também passar a habitá-lo assim que o Marciano lhe dá um dia de paz.

A abordagem lisérgica continua firme e forte, com Rodriguez continuando a experimentar com visuais arrebatadores que parecem materializar profundas discussões sobre o conflito entre determinimos e livre-arbítrio, sobre identidade e, talvez, sobretudo sobre saúde mental, algo que obviamente é uma constante para Jones, mas que, nesse segundo arco, passa a abarcar também seu filho Tyler. A explosão de cores de Rodriguez, temperada com a pegada mais sombria que o sempre violentamente franco Despair-the-Zero traz para a história continua fascinante, com os agentes humanos que caçam o Marciano sendo materializados como estranhas versões de personagens arquetípicos, como a femme fatale que faz vivisseção de biquíni e jaleco transparente, o típico “agente federal” durão e sem rosto e o hippie nacionalista violento e furioso que atira antes de fazer perguntas. O letreiramento de Hassan Otsmane-Elhaou merece igual destaque por ele ser parte integral da viagem visual que Rodriguez impõe, com palavras sendo formadas a partir de fumaça e outros elementos que acabam tornando o mergulho na leitura ainda mais profundo.

O arco anterior manteve-se quase que totalmente separado do restante do Universo Absolute, com apenas uma visão de Darkseid servindo de lembrete do lugar onde a história se passa. Como na prática fazer algo completamente solto, nesse cenário, era impraticável, ver uma conexão maior nesse segundo arco não espanta. Claro que eu preferiria a independência, mas isso é uma ilusão e ver uma conexão maior ainda com Darseid e a Equação Anti-Vida, além dos três principais super-heróis desse universo, era esperada e ela acontece aqui, mas sem que isso interfira de verdade na história sendo contada, parecendo mais lembretes para o leitor distraído do que algo realmente costurado à narrativa. Mas, claro, é “estranho” ver Batman, Mulher-Maravilha e Superman em meio a algo tão diferente e inusitado, especialmente porque Rodriguez faz questão de retratá-los como eles são em suas respectivas HQs, ou seja, sem efetivamente absorvê-los para seu estilo fantasticamente enlouquecedor.

Ao longo de suas 12 edições, Absolute Caçador de Marte explodiu mentes e esgarçou os limites do que uma HQ pode fazer por um personagem clássico desses. Camp e Rodriguez reviraram tudo de cabeça para baixo, sacolejaram o conteúdo e colocaram nas páginas algo que não só é desafiador, como incrivelmente original e que, por incrível que pareça, ainda consegue manter a essência do Caçador de Marte que conhecemos. Não sei se a dupla voltará a lidar o herói no futuro, mas quaisquer outras mentes criativas que abordarem a versão Absolute desse personagem terão que cortar um dobrado para arranhar a superfície do qe foi feito aqui.

Absolute Caçador de Marte – Vol. 2: A Agência (Absolute Martian Manhunter – Vol. 2: The Agency – EUA, 2025/26)
Contendo: Absolute Martian Manhunter #7 a 12
Roteiro: Deniz Camp
Arte: Javier Rodriguez
Letras: Hassan Otsmane-Elhaou
Editoria: Sabrina Futch, Katie Kubert
Editora: DC Comics
Datas originais de publicação: 24 de dezembro de 2025; 28 de janeiro, 25 de fevereiro, 25 de março, 13 de maio e 1º de julho de 2026
Páginas: 160



[Fonte Original]

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