Bancos centrais de mercados emergentes e de outras economias aumentaram as compras de ouro à medida que os preços do metal recuam, em forte contraste com investidores institucionais, que vêm reduzindo suas posições diante da alta dos juros nos Estados Unidos.
As reservas de ouro da China cresceram 15 toneladas em junho em relação ao mês anterior, informou o Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) em balanço divulgado na terça-feira (7). Foi o maior aumento mensal desde outubro de 2023, quando as reservas avançaram 23 toneladas.
O PBoC elevou suas reservas de ouro pelo 20º mês consecutivo, a sequência mais longa já registrada desde o início da série histórica, em dezembro de 1999. O ciclo supera a anterior série de 18 meses, encerrada em abril de 2024.
O ritmo das compras acelerou desde fevereiro, quando o banco central adquiriu cerca de uma tonelada. Em 2026, as aquisições acumuladas já superam 40 toneladas, bem acima das aproximadamente 26 toneladas compradas ao longo de todo o ano de 2025.
“Esperava que a China continuasse compradora líquida em junho, mas a magnitude surpreendeu”, disse Koichiro Kamei, do Market Strategy Institute. “Eles claramente aproveitaram a queda dos preços para comprar.”
Geullim Yum, diretor de vendas de câmbio e commodities para o Japão do banco ANZ, destacou o fortalecimento da moeda chinesa.
“A valorização do yuan frente ao dólar também facilita o aumento das compras de ouro por compradores chineses, incluindo o banco central”, afirmou.
Embora o dólar tenha se valorizado neste ano frente a diversas moedas importantes, como o euro e o iene, perdeu quase 3% em relação ao yuan. No fim de junho, o preço à vista do ouro em Londres acumulava queda de 7% em dólares, mas de cerca de 10% quando convertido para yuan, tornando o metal ainda mais atrativo para compradores chineses.
“Faz sentido que a China compre ouro como reserva de valor enquanto sua moeda se fortalece graças ao superávit comercial”, afirmou Kumiko Ishikawa, analista sênior do Sony Financial Group. “Isso é ainda mais relevante diante do risco de futuros confrontos com os Estados Unidos e a Europa, além da desaceleração da própria economia chinesa.”
O ouro à vista em Londres atingiu uma máxima histórica na faixa de US$ 5.500 por onça-troy em janeiro, mas o preço de referência internacional havia recuado cerca de 30%, para US$ 3.942, em 30 de junho.
No mundo, os bancos centrais compraram, em termos líquidos, 41 toneladas de ouro em maio, segundo o World Gold Council. Foi o maior volume mensal desde novembro. A Polônia liderou as aquisições, com 18 toneladas, seguida por China (10 toneladas) e Uzbequistão (9 toneladas). Já Rússia e Turquia venderam, em termos líquidos, 6 e 3 toneladas, respectivamente.
“A diversificação das reservas, o uso do ouro como proteção para carteiras e contra a inflação, além da busca por proteção geopolítica, continuam sendo fatores centrais para manter o apetite dos bancos centrais — especialmente dos mercados emergentes — pela acumulação de ouro”, afirmou Marissa Salim, líder sênior de pesquisa do World Gold Council.
O movimento contrasta com o comportamento dos investidores institucionais, que vêm reduzindo sua exposição ao ouro diante da alta dos juros nos Estados Unidos.
A recente queda dos preços do metal foi impulsionada, em parte, pela venda de ouro por fundos multimercados e outros investidores, que redirecionaram recursos para ativos com melhor desempenho, como as ações. Fundos negociados em bolsa (ETFs) lastreados em ouro físico também registraram saídas contínuas de recursos. Como o ouro não gera rendimento, sua atratividade tende a diminuir quando as taxas de juros sobem.
Já os bancos centrais são motivados por razões estruturais, como a diversificação das reservas internacionais, e não por movimentos de curto prazo dos juros. Sob essa perspectiva, a queda dos preços representa uma oportunidade para ampliar as reservas a custos menores.
“Em comparação com investidores de curto prazo, os bancos centrais compram ouro físico de forma contínua ao longo de muitos anos”, disse Yuichi Ikemizu, diretor-geral da Japan Bullion Market Association. “Sua influência sobre os preços do ouro no longo prazo é muito maior.”