O dólar encerrou o pregão desta segunda-feira em alta e voltou ao patamar de R$ 5,13, devolvendo parte do alívio acumulado na segunda metade da semana passada. A taxa de câmbio doméstica operou pressionada hoje junto com praticamente todas as moedas de países emergentes em um dia de amplo fortalecimento do dólar, puxado pela aversão a risco por conta da escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e por comentários de teor conservador de Christopher Waller, um dos diretores mais influentes do Federal Reserve (Fed).
Encerrados os negócios no mercado à vista, o dólar comercial anotou alta de 0,45%, a R$ 5,1315, após tocar a máxima de R$ 5,1398 e a mínima de R$ 5,1083. Já o euro comercial teve avanço modesto de 0,16%, a R$ 5,8413.
O índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas fortes, subia 0,32% no fim da tarde, a 101,273 pontos. Entre pares do real, a divisa americana tinha alta de 0,12% ante o peso mexicano e se valorizava 0,57% contra o rand sul-africano.
Tomados por um ambiente de aversão a risco, os mercados globais favoreceram a segurança e a liquidez do dólar nesta sessão. O gatilho inicial para a piora do sentimento dos investidores veio do Oriente Médio, onde Estados Unidos e Irã voltaram a trocar agressões no fim de semana, levando a um novo fechamento do Estreito de Ormuz. Como consequência, os preços do petróleo saltaram 9% hoje, o que ampliou ainda mais a volatilidade dos ativos.
Nem mesmo a perspectiva de que termos de troca mais favoráveis ao real com o encarecimento da commodity – uma vez que o Brasil é exportador líquido de petróleo – impediu uma desvalorização relevante da moeda brasileira. No entanto, o avanço mais intenso do dólar comercial nesta sessão só foi se firmar após comentários de Christopher Waller em evento no começo da tarde.
O diretor do Fed novamente se mostrou mais conservador e apontou a necessidade de elevar os juros básicos dos Estados Unidos caso os dados de inflação que sairão amanhã de manhã mostrarem uma alta de preços mais resistente. “Se obtivermos mais uma leitura forte do núcleo da inflação nesta semana, o Fed precisará considerar um aperto da política monetária no curto prazo”, disse Waller.
Os comentários do banqueiro central ampliaram a força do dólar em nível global, o que foi refletido na taxa de câmbio doméstica, que chegou perto de encostar no patamar de R$ 5,14. Ainda assim, vale destacar que o real se comportou melhor que a maioria de suas moedas pares na semana passada, e o dólar comercial acumulou um recuo de 1,15% no período. Assim, a alta de hoje apenas devolve parte dessa queda enquanto o real segue sustentado pelo elevado nível dos juros brasileiros e pelo fato de o país ser um exportador líquido de petróleo, o que ameniza o estresse vindo do avanço dos preços da commodity.
“O USD/BRL (dólar contra o real) tem subido ligeiramente nos últimos dois meses, acompanhando a alta global do dólar, mas parece se manter firme abaixo da faixa de R$ 5,20. A menos que haja um aumento acentuado nos preços do petróleo ou uma forte correção no mercado de ações — o que elevaria a volatilidade —, os próximos meses devem favorecer o real diante de juros implícitos na casa de 13% (no Brasil)”, avalia Chris Turner, chefe global de mercados do banco ING.
Segundo ele, a baixa volatilidade recente do mercado de câmbio tem favorecido operações de carry trade, que consistem em tomar dinheiro emprestado a juros baixos e aplicá-lo em outra região com juros elevados, a fim de lucrar com a diferença entre as taxas. Essa estratégia tem favorecido o real há bastante tempo, dada a política monetária bastante contracionista do BC, que mantém a Selic na casa dos dois dígitos (10% ou mais) desde fevereiro de 2022.
Para Turner, a “história doméstica” também parece construtiva para o real, uma vez que a economia brasileira segue crescendo e o Copom não deve reduzir a Selic muito além do nível de 14%. Nesse contexto, o ING se diz “moderadamente otimista” em relação ao real.