Após cair 0,30% em junho, o Índice Geral de Preços-10 (IGP-10) da Fundação Getulio Vargas (FGV) aprofundou queda em julho, para 1,13% em julho, informou nesta sexta-feira a FGV. Foi a leitura mais baixa desde julho de 2025 (-1,65%). Para Matheus Dias, economista responsável pelo índice, a deflação no indicador não deve durar. Isso porque o cenário conta com vários fatores nos próximos meses que podem contribuir com redução de oferta e maior volatilidade de preços, como o acirramento da guerra no Oriente Médio, consequências do “tarifaço” na atividade produtiva e efeitos do fenômeno climático “El Niño” nas perspectivas de lavouras.
Ao detalhar evolução do IGP-10 de junho para julho, Dias destacou importância de influência dos preços do atacado. O segmento tem peso de 60% no cálculo do total do indicador. A queda no Índice de Preços ao Produtor Amplo -10 (IPA-10) passou de 0,71% para 1,76% de junho para julho. Contribuíram para tal movimento as quedas de preços principalmente em commodities ou itens relacionados, como minério de ferro (-5,02%), bovinos (-2,18%) e óleo diesel (-6,69%).
Dias lembrou que os conflitos no Oriente Médio tornaram preços de commodities muito erráticos desde começo de guerra entre Irã e Estados Unidos em fevereiro. A região do Oriente Médio, além de ser forte produtora de petróleo, é passagem de fluxo de commodities que abastecem o mundo todo. “Inclusive, produtos mais sensíveis à cadeia petroquímica, ou seja, que estão mais próximos do petróleo, eles têm [ficado mais voláteis] mais rápido, principalmente combustíveis”, comentou.
Além de commodities mais baratas, o IGP-10 também foi beneficiado por desacelerações de preços no varejo e na construção civil, respectivamente 30% e 10% do total do indicador. O Índice de Preços ao Consumidor -10 (IPC-10) passou de 0,56% para 0,23% de junho para julho. Já o Índice Nacional do Custo da Construção -10 (INCC-10) diminuiu de 0,92% para 0,65% no mesmo período.
Mas, segundo Dias, foram mais os preços do atacado em queda que nortearam recuo do IGP-10 no mês.
Entretanto, os recuos de preços nas commodities podem não durar, admitiu. Com acirramento da guerra no Oriente Médio esse mês, isso pode provocar novos aumentos a cotação de petróleo, com consequente aumento de preços nos derivados dessa commodity. Isso teria efeito quase imediato no IPA-10, disse. Ao mesmo tempo, ponderou, a notícia de que os EUA formalizaram taxa de entrada de 25% a alguns produtos brasileiros importados em solo americano confere maior volatilidade a preços de insumos, notou.
“E se tem projetado que o El Nino vai vir muito forte”, acrescentou. Esse é fenômeno climático natural caracterizado por aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele altera circulação dos ventos globais e modifica os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo. Na prática, quando muito intenso, afeta performance de safras e lavouras. “Ele [o agricultor] entende que se a expectativa de perdas [de produção] for grande, não compensa financeiramente você aumentar, por exemplo, a área plantada. E, assim, antes mesmo do evento climático de fato ocorrer, a área plantada reduz. Isso consequentemente acende alerta em expectativa de oferta. Os preços no presente aumentam mesmo que a gente ainda não tenha de fato a safra. Porque a safra começa a ser projetada em um volume menor do que o esperado”, explicou.
Assim, todos esses fatores reunidos fazem com que o economista da FGV estime que o IGP-10 não prossiga em queda nos próximos resultados.