A inteligência artificial (IA) não é uma moda passageira — e boa parte do mercado erra ao tratar o setor como se a expansão estivesse perto do fim. É nessa leitura, na contramão do consenso, que o gestor Marcio Appel, sócio-fundador e presidente da Adam Capital, que tem R$ 3 bilhões sob gestão, montou sua principal aposta.
A tese nasceu em 2022. Appel conta que um primo ligado ao setor de softwares o alertou sobre o avanço da tecnologia e lhe mostrou o DALL-E, uma inteligência artificial da OpenAI criada em 2021 para gerar imagens a partir de descrições em texto. Em vez de desenhar manualmente, o usuário escrevia um comando (prompt) e o sistema executava.
A conversa foi ao ar no programa Stock Pickers, comandado por Lucas Collazo. Foi ali que o gestor relatou ter comprado ações da NVIDIA (NVDC34) ainda no fim daquele ano. O papel ficou parado por seis meses, até o lançamento do ChatGPT virar o jogo. “A gente foi comprando ao longo do tempo”, afirmou.
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Para Appel, há contradições na própria conta do setor. A NVIDIA é negociada a cerca de 15 vezes o lucro previsto para 2027, como se o ciclo fosse curto — enquanto empresas de energia para centros de dados são avaliadas como se a demanda nunca fosse acabar.
Por que a China não assusta
Em relação à liderança global, o gestor descarta a China como ameaça real à posição americana, mesmo no segmento de tecnologia. Para ele, o problema não é falta de talento, mas o peso do Estado, que considera um mau administrador desse tipo de projeto.
Como exemplo, cita o setor espacial: a SpaceX (SPCX34), empresa privada, controla cerca de 90% do mercado de lançamentos, enquanto a China só há pouco conseguiu pousar o propulsor de um foguete.
Sobre a DeepSeek, que estuda abrir capital, Appel minimiza o risco para os Estados Unidos. Modelos abertos e gratuitos podem custar 90% menos e, na prática, isso tende a favorecer a venda de equipamentos, como os da NVIDIA.
A raiz da vantagem americana, resume, está na Constituição do país, feita para limitar o Estado. “Enquanto uma boa parte do mundo espera ajuda do governo, nos Estados Unidos eles querem distância do governo”, afirmou.
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Dólar forte, real fraco
Do avanço da IA, o gestor extrai uma consequência para as moedas: o dólar tende a se fortalecer. Ele lembra que, na segunda metade dos anos 1990, a valorização da bolsa americana veio junto com um dólar mais forte.
Para bancar os investimentos bilionários no setor, avalia, os Estados Unidos terão de emitir dívida e atrair capital do mundo todo. Esse fluxo, diz, será difícil de conter e deve pressionar o dólar para cima.
No caso do real, a visão é mais dura. Segundo o gestor, a moeda se sustenta basicamente pelos juros altos e deveria estar bem mais desvalorizada, diante de contas externas já deficitárias.
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Ele projeta que o câmbio pode se ajustar em torno de 50% e trata o movimento como permanente. Sem cortes relevantes de gastos públicos — politicamente difíceis —, o acerto tende a vir pela inflação.