A Open USD, stablecoin lastreada em dólar desenvolvida por um grupo apoiado por grandes empresas do mercado financeiro e de tecnologia, pode ser a ameaça mais relevante até agora ao USDC, da Circle. A avaliação é da gestora de criptoativos CoinShares, que vê no projeto um risco direto ao modelo econômico que sustenta a segunda maior stablecoin do mercado.
O ponto central não é apenas a criação de mais uma moeda digital pareada ao dólar, mas a forma como a Open USD pretende distribuir a receita gerada pelas reservas. Enquanto emissores tradicionais de stablecoins ficam com os rendimentos obtidos sobre os ativos que lastreiam seus tokens, a Open USD planeja repassar parte desse rendimento às empresas participantes, ficando apenas com uma taxa de administração.
Na prática, esse modelo pode tornar a stablecoin mais atraente para empresas que usam esse tipo de ativo em pagamentos, liquidação e operações financeiras. Ao mesmo tempo, pode pressionar as margens da Circle, que depende justamente da receita gerada pelas reservas do USDC como uma das principais fontes de seu negócio.
“Se for bem-sucedida, a Open USD poderia levar as stablecoins ainda mais para os pagamentos tradicionais ao tornar a economia e a governança mais atraentes para as empresas que realmente as utilizam”, escreveu Luke Nolan, analista da CoinShares.
A Open USD está sendo desenvolvida pela Open Standard e tem foco institucional. O consórcio por trás do projeto reúne mais de 140 empresas, incluindo BlackRock, Coinbase, Mastercard, Stripe e Visa. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026, mas detalhes importantes, como a composição das reservas e o modelo de taxas, ainda não foram divulgados.
Modelo atinge ponto sensível da Circle
A ameaça à Circle vem em um momento delicado. A oferta em circulação do USDC caiu de quase US$ 80 bilhões em março para cerca de US$ 73 bilhões, reduzindo sua fatia em um mercado de stablecoins estimado em aproximadamente US$ 312 bilhões.
Além disso, a Open USD pode fortalecer a posição da Coinbase nas negociações com a Circle. A exchange tem um acordo de compartilhamento de receita pelo qual recebe aproximadamente metade dos rendimentos das reservas do USDC. Esse contrato deve ser renovado em 18 de agosto, e a existência de uma nova stablecoin com apoio de grandes empresas pode aumentar o poder de barganha da Coinbase.
As ações da Circle chegaram a cair mais de 17% no dia do anúncio da Open USD. Para a CoinShares, porém, parte da queda pode ter sido ampliada por fatores técnicos ligados à recomposição do índice Russell, e não apenas por uma mudança na percepção sobre os fundamentos da companhia.
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Ainda assim, o alerta é relevante. Segundo a gestora, a Open USD mira exatamente o ponto mais sensível da Circle: a captura de receita com reservas. Se empresas passarem a preferir uma stablecoin que compartilha parte desse rendimento com os participantes do ecossistema, a Circle pode ser obrigada a rever sua estratégia de distribuição e incentivos.
O banco japonês Mizuho também vê risco. A instituição rebaixou a recomendação para as ações da Circle de neutra para desempenho abaixo da média e reduziu o preço-alvo de US$ 85 para US$ 50, argumentando que o modelo da nova concorrente ameaça a economia de longo prazo da emissora do USDC.
USDC ainda tem vantagem, mas disputa ficou mais difícil
Apesar do risco, a CoinShares avalia que o mercado pode estar reagindo de forma exagerada. A Open USD ainda não foi lançada, não provou capacidade de adoção e ainda precisa esclarecer pontos centrais sobre funcionamento, reservas, governança e custos.
A Circle, por outro lado, mantém uma vantagem relevante. O USDC já tem liquidez profunda, ampla integração em exchanges, protocolos DeFi, carteiras digitais e soluções de pagamento. Essa rede de uso acumulada ao longo dos anos cria uma barreira importante contra novos concorrentes, mesmo quando eles chegam com apoio de grandes nomes.
A Open USD também não deve representar, ao menos por enquanto, uma ameaça direta ao Tether, emissor do USDT. Segundo a CoinShares, o USDT tem uma vantagem competitiva diferente, baseada em forte presença em mercados emergentes e na liquidez global offshore em dólar.
O caso da Circle é mais sensível porque o USDC está mais ligado ao mercado regulado dos Estados Unidos, a empresas institucionais e a integrações com plataformas financeiras tradicionais. É justamente nesse campo que a Open USD pretende competir.
Para investidores, a CoinShares afirma que os próximos pontos de atenção serão a reação da Circle em sua estratégia de distribuição e a capacidade da Open USD de transformar o apoio de empresas como BlackRock, Coinbase, Mastercard, Stripe e Visa em adoção real.
Até lá, a nova stablecoin deve ser vista como uma ameaça crível, mas ainda não comprovada. O anúncio mostra que a disputa pelas stablecoins deixou de ser apenas uma corrida por volume em circulação e passou a envolver uma questão mais profunda: quem captura a receita gerada pelos dólares que sustentam esses tokens.