Toda vez que analisamos criticamente uma obra que fala sobre questões ligadas à terra, à corrupção e ao abuso de poder por poderosos comerciantes e por latifundiários, chegamos ao questionamento de quanto custa ser um indivíduo justo num lugar onde a lei e a justiça só servem mesmo a quem tem muito dinheiro. O western spaghetti foi fortemente construído em cima disso, até mesmo nos quadrinhos. Quem, por exemplo, conhece a série História do Oeste, de Gino D’Antonio e Renzo Calegari, já viu muito esse tipo de situação. Já a série Tex Willer, que revisita a juventude do Águia da Noite antes de ele se tornar o ranger lendário, retorna a esse território em Os Traficantes de Coffin, arco que reconstrói o momento em que Tex se tornou um fora da lei. O autor faz isso utilizando a tragédia familiar como mote e cria uma história de formação moral e vingança, onde o peso de cada morte de um bandido parece colocar o protagonista cada vez mais em apuros, uma vez que o sistema favorece a corrupção e os corruptos.
A dupla temporalidade que Mauro Boselli monta ao longo dos cinco volumes é o principal instrumento formal do arco. Em Os Ladrões do Nueces e Acerto de Contas, o grande destaque vai para o flashback que explica tudo: a morte de Ken Willer, o pai; a separação dos irmãos; o encontro de Tex com Dinamite; e a vingança pela morte de Sam, que transforma o jovem pistoleiro em foragido. Em El Paso del Norte, Os Traficantes de Coffin e Texas Rangers, voltamos ao tempo presente do personagem, com Tex na perseguição a John Coffin, único cúmplice de Rebo ainda vivo e capaz de depor a seu favor. Boselli utiliza essa alternância para sustentar sua tese sobre o personagem: o Tex do passado e o Tex do presente são o mesmo homem, em termos ético-morais, e a bússola que o faz enfrentar uma cidade inteira armada para vingar Sam é a mesma que o faz entrar sozinho na toca do lobo atrás de Coffin. Sim, é uma reafirmação heroica, unidimensional, maniqueísta e até mesmo anacrônica para um roteiro dos anos 2020, mas convenhamos que a Sergio Bonelli Editore não vai alterar em nada a maneira como retrata Tex (e nem deveria!), portanto, essa nuance de paladino e o pouco de gradiente moral que vemos nos personagens à sua volta não deve gerar espanto em ninguém. É Tex sendo o Tex que sempre foi, desde O Totem Misterioso.

Em termos de planos e diálogos, porém, John Coffin é uma construção dramaticamente mais densa do que o vilão padrão dessa série, porque funciona como espelho de Tex sem ser seu igual: os dois são homens fora da lei, os dois se movem pelas margens do sistema, mas onde Tex tem um código humano, Coffin tem apenas o interesse insensível. A ironia é que o único homem que poderia inocentar Tex é o mesmo que prefere levar seu negócio de tráfico de armas para os revoltosos mexicanos, enquanto o rival recebe a culpa por tudo. Os rangers Dan Bannion e Buck Barry conseguem transmitir essa mesma tensão com suas personalidades bem definidas, um achando que Tex seria incapaz de cometer os horrendos crimes que lhe imputam, enquanto outro simplesmente ironiza a confiança do colega e quer colocar as mãos no procurado para levá-lo à forca. É a lei como instituição cega vs. a lei como instrumento de justiça que está em toda a mitologia maior do personagem (vimos isso de maneira quase neurótica em Na Terra dos Seminoles), transposta aqui para o início de tudo, e Bruno Brindisi sustenta isso com traços bem precisos: rostos em close nos instantes de confronto, gestos quase felinos de Tex e peso físico (meio coreografado, no sentido positivo do termo) nas cenas de tiroteio.
O desfecho, em Texas Rangers, resolve o problema clássico de todo arco de origem pela via mais honesta possível, através da testemunha justa. Dan Bannion conhece Tex o suficiente para saber que as acusações oficiais não fecham com o homem que está diante dele, e é essa percepção que abre caminhos para acordos “não tão bem vistos pela lei“, permitindo ao protagonista seguir adiante; livrando-se de algumas acusações e tentando limpar seu nome de outras. A breve aparição de Kit Carson, que cruza a história sem ainda se tornar o pard inseparável de Tex, é uma piscadela discreta para o que teremos nos arcos vindouros. Alguma justiça foi feita aqui, mas não pelos meios ideais, por isso a vitória soa amarga, assim como o desfecho da história. Tex cavalga para a próxima aventura ainda com a cabeça a prêmio, mas já com o código que carregará para sempre. Por um lado, é o bastante. Mas ainda há uma grande quantidade de encontros e eventos canônicos antes de sua consolidação como um homem inocente.
Tex Willer #24 a 28: Os Traficantes de Coffin (Itália, outubro de 2020 a fevereiro de 2021)
Contendo: Os ladrões do Nueces, Acerto de contas, El paso del Norte, Os traficantes de Coffin, Texas Rangers (I razziatori del Nueces, Resa dei conti al White Horse, El Paso del Norte, I trafficanti di Coffin, Texas Rangers).
Roteiro: Mauro Boselli
Arte: Bruno Brindisi
Capas originais: Maurizio Dotti
No Brasil: Editora Mythos, janeiro a maio de 2021
Tradução: Julio Schneider
330 páginas.