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“Nesse primeiro momento, não é uma boa notícia para o Flávio Bolsonaro, mas está muito longe de ser qualquer bala de prata [para o Lula]. A depender das consequências objetivas do tarifaço e a depender de como Flávio e Lula se colocam sobre o tema, pode mudar essa sensação”, resume o analista político Beto Vasques, professor da FESPSP que tem feito pesquisa com eleitores indecisos.
As tarifas passam a valer nesta quarta após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluir uma investigação em que acusou o Brasil de práticas “irrazoáveis” que “oneram ou restringem o comércio dos EUA” e com críticas ao Pix,
Do lado da campanha de Flávio Bolsonaro, o próprio pré-candidato sabe que o tema tende a prejudicar seu objetivo de chegar ao Palácio do Planalto.
Em uma carta enviada no início de julho ao USTR, o senador fez um alerta: caso o governo Trump confirmasse a nova taxa contra o Brasil, isso daria uma “vitória política” a Lula.
No documento, Flávio pedia o adiamento por 180 dias da aplicação. Ou seja, para depois das eleições. O senador ainda foi ao EUA participar de uma audiência pública antes da confirmação das tarifas.
Em um artigo publicado na segunda-feira (20/7), o economista americano Paul Krugman, ganhador do Nobel, ressaltou essa percepção ao dizer que as tarifas podem fortalecer Lula.
De fato, segundo o cientista político Sergio Simoni Junior, professor na Universidade de São Paulo (USP), ainda é Lula quem tem mais chance de usar as tarifas em seu benefício nas eleições, devido às contradições persistentes do discurso bolsonarista sobre as tarifas.
“É um discurso que tem ainda essa contradição: dizem ‘olha, nós estamos negociando [com os EUA], diferente do governo. Mas ainda assim defendendo a tarifa se eles não ganharem eleição”, avalia.
Mas essa contradição, dizem os analistas consultados, deve se somar a outros vários fatores contra os dois candidatos que vão decidir o voto dos indecisos.

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Diretor do Instituto Democracia em Xeque, Beto Vasques tem feito pesquisas qualitativas com eleitores indecisos para as eleições 2026 junto à cientista política Esther Solano.
São reunidos semanalmente dois grupos de eleitores, a quem são aplicados questionários baseados em estudos de pesquisas quantitativas (como Quaest ou Datafolha) e de monitoramento de redes sociais.
Os grupos são formados pelo chamado “eleitor pendular” de Estados como Minas Gerais, Bahia e São Paulo. São pessoas que em 2018 votaram em Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad, em 2022 votaram Lula contra Bolsonaro e agora estão indefinidas, sem rejeitar totalmente nem Lula nem Flávio.
“É um eleitor que a gente acha que é importante botar a lupa porque a gente acha que ele é o cara que está chamado a decidir a eleição”, diz Vasques.
Segundo o professor, são eleitores “ultrapragmáticos”, que se negam a se abster e prefeririam uma terceira via, mas sabem que precisam escolher entre os dois principais candidatos. O seu voto depende sobretudo da agenda factual e do comportamento dos dois até as eleições.
E é aí que entra o tarifaço.
Segundo Vasques, o tarifaço está começando a se transformar numa ameaça real para o bolso desses eleitores. Há um receio de o custo de vida subir ainda mais.
“Todos, inequivocamente, dizem que o responsável primeiro é o Trump, que faz o que quer”, explica.
“Mas eles criticam tanto o Flávio, que parece estar mais preocupado em usar proximidade com Trump para fazer o seu cálculo eleitoral do que aliviar a vida do brasileiro, quanto o Lula, que, enquanto presidente, deveria negociar mais, não jogar a toalha e ser mais sóbrio na negociação.”
“O espírito do eleitor pendular é de que a soberania tem que vir antes de submissão, mas só depois de negociação”, segue o professor.
“Ainda assim, esse eleitor não fecha totalmente a porta pro Flávio porque esse eleitor queria trocar, queria mudança”, diz Vasques.
Só que “o presidente Lula não termina de ganhar esse eleitor decisivo porque ele não segura a língua”, avalia Vasques, ressaltando que a forma como Lula fala de Trump e das tarifas em seus discursos é enxergada como “bravata”.
Na última sexta-feira (17/7), por exemplo, Lula comentou as tarifas em discurso e disse querer uma “guerra da narrativa” e “da verdade” com Trump. “Eu quero provar ao mundo quem está falando a verdade nessa guerra tarifária entre Brasil e EUA”, disse o presidente.
Do lado das pesquisas quantitativas, os primeiros sinais são positivos a Lula. A pesquisa Quaest divulgada no dia 16 de julho mostrou que a maioria dos eleitores atribui mais a Flávio Bolsonaro a responsabilidade pelas tarifas.
As entrevistas, encomendadas pela Genial Investimentos, foram realizadas entre os dias 10 e 14 de julho, portanto antes da confirmação da tarifa, no dia 15 de julho. Mas, desde junho, os EUA já haviam concluído a investigação.
Na pesquisa, foi feita a seguinte pergunta: “Lula acusa Flávio Bolsonaro de ter pedido o tarifaço contra o Brasil. Flávio nega e diz que pediu a Trump para não taxar o país. Com quem você concorda mais?”
51% dos entrevistados concordaram com a versão de Lula (eram 47% em junho); Já os que compartilhavam a opinião de Flávio Bolsonaro foram 30%, contra 35% em junho.
Um dia antes, a Quaest divulgou que Lula aparece com um saldo de aprovação positivo pela primeira vez desde dezembro de 2024. Isso é, numericamente, a aprovação do governo, de 48%, superou a desaprovação, de 47%.
Na pergunta espontânea de intenção de voto, 54% continuam indecisos; 26% dizem que vão votar em Lula (+3%) e 14% em Flávio (-3%).
Em um eventual cenário de segundo turno, Lula tem 45% contra 37% de Flávio, ampliando em dois pontos a vantagem.
Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, o fator mais importante para a queda atual de Flávio foi o conflito com Michelle Bolsonaro, não as tarifas.
“Os vídeos divulgados parecem ter provocado algum dano dentro da base potencial do Flávio, já que 35% da direita e 20% do bolsonarismo acham que Michelle acertou ao divulgar o vídeo”, analisou Nunes em postagem no X. “Toda essa confusão dentro da família acabou provocando uma reação que parece afastar o potencial eleitor independente do Flávio.”
Segundo Vasques, essa pesquisa, somada às entrevistas que faz, também mostram que o eleitor pêndulo, que estava querendo uma mudança no governo, começa “a ter maior benevolência com as políticas do Lula” a partir do momento que Flávio decepciona.
“Como a possibilidade de mudança não tá sendo bem encarnada, eles fazem um processo de dissonância cognitiva para justificar porque, mesmo tendo dito que eu queria mudar [o governo], eu vou continuar”, analisa.
Um impacto diferente ao de 2025
No primeiro tarifaço, em 2025, a família Bolsonaro se colocou frontalmente a favor, com Eduardo postando até um agradecimento a Trump. Na época, o presidente americano relacionou a taxa ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Esse cenário muda um pouco agora, já que Flávio tem tentado publicamente se colocar contra a tarifa — ao menos, por enquanto. E o argumento utilizado pelos EUA para a última rodada tarifária vem de uma investigação comercial formal.
“Estão surfando nessa ambiguidade, então não foi colada na testa deles a culpa [por esse tarifaço]”, diz Beto Vasques.
O cientista político Sergio Simoni Junior também ressalta que o tarifaço de agora vem num contexto de idas e vindas na relação entre Lula e Trump.
Mas, em maio deste ano, o governo Trump azedou a relação ao decidir classificar as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, uma demanda dos bolsonaristas.
Para Simoni, é um assunto que faz a relação de Lula com os EUA se tornar mais espinhosa para a repercussão interna no Brasil. Ou seja, nessa disputa com os americanos, não são apenas mais as tarifas que estão em jogo.
“Isso tornou esse cenário de agora mais complicado, porque o governo não pode simplesmente fazer uma defesa dessas organizações criminosas. Então, fica numa sinuca de bico aí”, diz o analista.
Em entrevista à BBC News Brasil na época do primeiro tarifaço, o professor da USP avaliou que as tarifas traziam uma oportunidade “inesperada” a Lula, a de levantar a bandeira do nacionalismo.
As pesquisas que vieram em seguida confirmaram uma maré positiva. A Quaest seguinte mostrou, por exemplo, a melhoria na avaliação de Lula entre os eleitores que dizem que não têm posicionamento. Na época, Felipe Nunes, diretor do instituto, disse ao G1 que o tarifaço empurrava o eleitor de centro para “colo de Lula”.
Se essa vai ser uma verdade agora, vai depender mais desse conjunto de fatores e do impacto econômico das tarifas nos três meses que faltam para o segundo turno das eleições, concluem os analistas.