- Há spoilers. Leiam, aqui, todas as críticas do Universo Energon.
Demorou até bem mais do que imaginei que demoraria, mas a convergência efetiva das linhas narrativas das publicações mensais dos Transformers e dos Joes finalmente é materializada no quarto encadernado de G.I. Joe, contendo as edições #19 a 24. Mesmo que Rivais Cósmicos ainda permaneça separada, o que eu espero que continue por um bom tempo, a forma como Joshua Williamson torna isso possível é inteligente e cautelosa, aproximando, mas ao mesmo tempo mantendo a necessária distância para que os dois títulos preservem um bom grau de independência. E o melhor é que ele, nessa mesma toada e sem perder o ritmo, usa esse quarto arco (na verdade, são tecnicamente dois arcos em um pacote só) para integrar ao título a história de Scarlett, Storm Shadow, Jinx e do Clã Arashikage que vimos na já longínqua minissérie Scarlett, de 2024, lidar com mais detalhes de MASK, nova propriedade da Hasbro que passou a fazer parte do Universo Energon e que até ganhou título próprio que começou a ser publicado em junho de 2026 e plantar as sementes para um futuro movimentado.
No entanto, é preciso que algo fique claro de uma vez: a essa altura do campeonato, por mais que haja esforços de Williamson para explicar eventos passados para não deixar perdidos os leitores que embarcaram agora na história sem ler o que veio antes, é de se esperar alguma confusão e algumas dúvidas. Em termos comparativos, Transformers ainda é um título mensal mais autocontido, mesmo que bem integrado a esse universo compartilhado, enquanto que G.I. Joe parece carregar mais fortemente o ônus de servir como o deságue mais forte de todas as linhas narrativas, exigindo um pouco mais do leitor, mesmo que o arco anterior, A Guerra Dreadnok, tenha sido pura pancadaria independente. Não vai demorar muito mais para que aquele efeito de “peso de legado” comece a tornar difícil a compreensão total de tudo o que está acontecendo, ainda que as editoras americanas de quadrinhos sejam craques em criar pontos de entrada de tempos em tempos, algo que nem sempre é bom, mas que reputo inevitável.
Bem, mas vamos à vaca fria.
A primeiras edição de A Busca por Energon (#19) decorre imediatamente dos eventos anteriores, servindo como preparatória de todas as demais, com Duke lutando para compreender o que encara como traição de Clutch, que escondera que seu jipe era, na verdade, o Autobot Hound, o que leva ao encarceramento do cybetroniano que aceita tudo na paz justamente para mostrar que ele está do lado dos Joes. O restante da equipe acha que vai ter um tempo para descansar depois de missões seguidas, somente para que o Coronel Hawk que, como sabemos, é Zartan disfarçado, ordene que eles se dividam em equipes, mandando Baronesa, Stalker e Risk para procurar Energon no Badhiquistão e Cover Girl para encontrar-se com Snow Job e extrair Scarlett de sua infiltração no Clã Arashikage. Há até tempo para que Matt Trakker do MASK seja reapresentado como alguém em fuga e única pessoa capaz de consertar o transponder de Hound que permita que o Autobot seja localizado por seus pares. Em outras palavras, o que Wiliamson faz é reger uma orquestra de instrumentos bem diferentes em poucas páginas que, porém, acaba pavimentando todo o caminho seguinte de maneira até muito clara para que, lógico, vem acompanhando as histórias desse universo.

Infelizmente, porém, a edição seguinte (#20), que leva ao tão aguardado encontro de Duke com Optimus Prime (Optimus somente, depois dos eventos do volume 5 de Transformers), decepciona um pouco. Não que eu esperasse um momento daqueles de pura pancadaria, pois seria covardia colocar um humano – mesmo armado até os dentes – contra o ex-líder dos Autobots, mas achei que Williamson, ao escolher uma abordagem mais… digamos… filosóficas, com a notícia de que Starscream, o Decepticon responsável pela morte do amigo de Duke, também morrera (por enquanto, claro), ele acabou esfriando um encontro que poderia ter sido épico. É interessante como ele até mesmo afasta Duke e Optimus de Clutch e Hound para abrir espaço para uma conversa séria, mas a conclusão na linha de uma aliança hesitante em que os lados prometem cooperar, mas cada um lidando com seus problemas imediatos, o que serve para manter a independência dos títulos, me pareceu algo fácil demais, simplista demais e isso contando que Hound permanece com os Joes e que Duke decide manter segredo sobre Optimus em relação a Hawk.
Para compensar e como não poderia deixar de ser, a edição #21 da nova série dos Joes espelha a memorável edição #21 do título clássico, Interlúdio Silencioso, que, em uma história de ninjas sem balões de fala, Storm Shadow foi introduzido, em 1984. E o espelhamento se dá não só com o artifício da ausência quase completa de falas (há apenas mensagens escritas de contexto para leitores esquecidos na primeira página), como também com toda a temática ninja, com Scarlett e Storm Shadow em destaque, e Jinx no lugar de Snake Eyes, esse último o único Joe clássico que ainda não deu as caras na empreitada da Skybound/Image. O resultado, que conta com a arte de Tom Reilly, é excelente do começo ao fim, com um ataque Cobra ao templo do Clã Arashikage para o Comandante Cobra recuperar uma espada de Energon e a chegada de Snow Job para retirar Scarlett de lá à força. A homenagem é feita não só por ela ser possível, mas também dentro de uma história que se integra à história macro com grande facilidade.
As três edições seguintes referem-se à concretização da missão que Hawk/Zartan dá à equipe formada pela Baronesa, Stalker e Risk que vão ao citado país fictício da Ásia Central para localizar Energon, deparando-se por lá com a trinca vilanesca formada por Destro, Mercer e Camaleoa e com uma força misteriosa que gera monstruosidades e explica o porquê de o vilarejo estar completamente vazio. A atmosfera de horror criada visualmente por Andrea Milana é ótima e palpável nas edições #22 e 23, mas perde força em sua conclusão, na edição #24, provavelmente em razão do uso extensivo do vilão responsável pelas assombrações, o descartável – e famosamente odiado por fãs – Bola de Cristal e sua tecnologia que extrai e materializa os medos amplificada por Energon. No entanto, antes que o referido personagem apareça de verdade para estragar tudo, Williamson usa a oportunidade para abrir uma boa janela para o passado tumultuado de Risk e para criar uma conexão improvável de respeito entre ele e Mercer, além de, pela primeira vez aproximar Destro da Baronesa, indicando de leve uma relação futura semelhante à da história original. Infelizmente, porém, Stalker e Camaeloa são completamente escanteados e não passam de extras de luxo nessas edições.
Encerrando o arco com uma revelação que promete sacudir o status quo dos Joes (e que, sendo bem cínico, explica o porquê da escolha de Bola de Cristal como o grande vilão das três últimas edições), A Busca por Energon cumpre bem a missão de congregar linhas narrativas díspares em uma história suficientemente coesa, ainda que com problemas aqui e ali, mais notadamente na forma canhestra como o encontro de Duke com Optimus ocorre. Será interessante acompanhar o desenvolvimento desse título depois de toda essa convergência e com a estrada de MASK (e, mais recentemente, ROM) para ver até quando G.I. Joe conseguirá ter identidade própria sem robozões, carros turbinados e vingadores galácticos, isso se não inventarem de enfiar ainda mais brinquedos nessa já bastante volumosa brinquedoteca em quadrinhos!
G.I. Joe – Vol. 4: A Busca por Energon (G.I. Joe – Vol. 4: The Hunt for Energon – EUA, 2026)
Contendo: G.I. Joe (2024) #19 a 24
Roteiro: Joshua Williamson
Arte: Andrea Milana (#19 e 20 e 22 a 24), Tom Reilly (#21)
Cores: Lee Loughridge
Letras: Rus Wooton
Editoria: Ben Abernathy
Editora: Skybound (Image Comics)
Datas originais de publicação: 18 de fevereiro, 18 de março, 15 de abril, 29 de maio, 19 de junho e 15 de julho de 2026
Páginas: 128