Uma das grandes covardias dos quadrinhos de super-heróis (e que a gente não nomeia sempre porque sabemos fazer parte da dinâmica “eterna” desse tipo de produção) é vender como vitória a continuação de uma guerra sem fim, com o vilão derrotado só para abrir vaga ao vilão da próxima edição, seguindo com um circuito de pancadaria que se retroalimenta e, raramente, entrega algo definitivo (ou, se pensarmos a longo prazo, nunca entrega). Neste capítulo de encerramento da minissérie Monstro do Pântano 1989, a publicação daquilo que deveria ter sido o final da passagem de Rick Veitch pelo Pantanoso, no final dos anos 80, vemos encerrar-se a engrenagem de “decisões provisórias para os personagens” com o autor propondo que a superação do trauma pessoal de Abby ao horror cósmico que ronda sua criança-avatar recém-nascida não viria aniquilando o agressor (seu tio abusador em forma demoníaca), mas recusando o convite para o ódio permanente. Sustentada pelo panteísmo ecológico que Veitch explorou ao longo de todo o arco (reforçando a vertente de que humano e natureza dividem a mesma substância), a minissérie fecha seu ciclo sugerindo que anos de tragédia acumulada culminem numa subversão pacífica do clímax, trazendo, na mesma medida, um grande acerto e um grande tropeço narrativo com isso.
Com o Verdão renascido do fragmento que Abigail preservara no icônico âmbar que vimos se tornar relevante na Era Veitch (não sem alguma confusão no encadeamento da história, apesar do esforço de Tom Mandrake em fazer uma arte relativamente didática), as coisas se resolvem com uma rapidez insatisfatória, mas, contraditoriamente, compreensível. Veitch nega o embate deliberadamente: Alec declara o ódio como algo ultrapassado, recusa-se a entrar no jogo de ressentimento do demônio e Arcane, privado da energia emocional de que depende para se manter de pé, acaba derrotado. A fala que sustenta isso tudo, “O ódio exige ódio para completar seu circuito feio”, resume a moral da obra, trazendo a percepção de que o ciclo perpétuo da violência (nos quadrinhos e fora deles) só existe enquanto ambas as partes aceitam suas regras. O problema é que essa recusa, tão coerente no plano do discurso, esvazia a única tensão que a minissérie havia construído, porque (o absurdamente chato) Anton Arcane é o mal sem nuance, desenhado justamente para que derrotá-lo pela iluminação fosse a coisa certa a se fazer, só que com um antagonista de papelão, como este, a edição perde seu principal conflito e segue com um ajuste de contas que cairia bem melhor numa outra revista.
Para preencher o epílogo, Veitch traz Metron à cena, alertando que Darkseid cobiça o poder do bebê-avatar, redirecionando um drama íntimo de parto e trauma para um problema cósmico que precisa se resolver às pressas (ou melhor: não se resolver, já que esta é a deixa para o problema vindouro da saga). Em vez de enfrentar Darkseid, Corrigan rasga o tecido do espaço-tempo e deposita a família formada por Pantanoso, Abigail e o bebê J.C. numa Terra alternativa e pacífica. Sendo muito generoso, esse abandono do campo de batalha em nome da paz existencial — pelo menos até o crescimento e educação inicial de J.C. — teve sua necessidade no contexto do arco e fez total sentido para a tese de fechamento do ciclo de violência, mas sendo bastante honesto, tal desfecho depende inteiramente de um deus ex machina, com a intervenção do Espectro fabricando o atalho até a tal tranquilidade.
Um ponto bem azeitado aqui é o tratamento dado a Abigail, promovida de donzela em perigo a centro de atenção narrativa, curando ativamente o monstro que a protege ao guardar sua essência no âmbar e devolvê-lo à vida no instante decisivo. Lida por essa faceta, a ressurreição incessante de Arcane parece o recalque patológico do abuso que fez à sobrinha, e a única postura capaz de esvaziar esse fantasma familiar é a indiferença amorosa que Alec encarna, quebrando a neurose de um “amor” dominador. Essa ideia aparece até quando o roteiro cambaleia entre a filosofia e o sentimentalismo mais óbvio, trajetória vista nos diálogos místicos herdados de Alan Moore e esticados além do que o tom aqui comporta; ou na carga messiânica despejada sobre o bebê batizado de J.C. É ela também que sustenta o encerramento que salva a revista de si mesma. Depois de um roteiro que balança entre a grandiloquência e a breguice (eu realmente me irritei com o desenvolvimento dessa história, apesar de ver valor nas ideias propostas pelo autor), as últimas páginas trazem o alívio que esses personagens vinham adiando por anos: a família a salvo numa natureza imaculada, num “e assim viveram” que pula a melancolia dos contos de fadas, reforça a essência do Verde no bebê avatar e não ignora as possibilidades de lutas no futuro. O final é superior a quase tudo que o antecede, ao menos nesta e na edição anterior, dando-nos a sensação de arco encerrado com felicidade, um manifesto pacifista que fecha a fase inteira de um artista e mostra que, nem sempre, uma ideia que gerou uma injustiça era, de todo, uma boa ideia.