28.5 C
Brasília
sábado, agosto 15, 2026

O Tempo Que Escapa À Medida

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Quando decidi abrir a galeria do Rio de Janeiro, em 2014, a galeria de São Paulo já completava 25 anos. Não pensava no novo espaço como uma réplica do primeiro. Queria que ele encontrasse sua própria relação com a cidade, construísse sua identidade.

Inauguramos a galeria com duas instalações do carioca Marcos Chaves. Uma foi “Academia”, que partia de um elemento profundamente carioca: as academias ao ar livre. Era uma homenagem à cidade e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre convivência e compartilhamento do espaço público. Na abertura, performers ocuparam a instalação, fazendo exercícios em suas estruturas.

icente de MelloExposição “Academia”, de Marcos Chaves

A outra foi a série inédita de fotografias “Sugar Loafer”, uma espécie de crônica concebida a partir de situações tipicamente cariocas, sempre com um ‘personagem’ em comum: o Pão de Açúcar.

Essa abertura marcou o tom que eu imaginava para aquele espaço. Mais do que uma expansão da primeira, a galeria do Rio começava a escrever sua própria história, estabelecendo uma relação mais direta com seu entorno. Em Ipanema, as pessoas caminham pela rua e podem ver, no nosso jardim, uma escultura — que trocamos de tempos em tempos.

DivulgaçãoObra da série “Sugar Loafer”, de Marcos Chaves

Mais de uma década depois, gosto de perceber como aquela intenção inicial foi se confirmando. Há coisas que só acontecem porque temos o mar à nossa porta, como “Vela/Tela – Tela/Vela”, de Daniel Buren, uma regata-performance com onze veleiros que apresentamos em janeiro deste ano na Baía de Guanabara e cujas velas ficaram expostas depois no MAM Rio. Concebido originalmente em Berlim, em 1975, o projeto já foi apresentado em algumas cidades pelo mundo, como Genebra e Miami, sempre em diálogo direto com a paisagem e o contexto locais.

Fred Hoffmann“VelaTela – TelaVela”, de Daniel Buren, na Baía de Guanabara

E agora a galeria apresenta a terceira exposição do ciclo que celebra meus 50 anos como galerista: “As formas do tempo”. Meu pedido ao Bernardo Mosqueira, curador carioca hoje radicado em Nova York e fundador do Solar dos Abacaxis, foi que a mostra celebrasse minha relação com o território do Rio de Janeiro. Ele partiu da dimensão reflexiva dos aniversários para explorar diferentes maneiras de pensar o tempo, a memória e a existência por meio da arte.

As obras se relacionam a partir de diferentes concepções de temporalidade e percorrem temas como ancestralidade, memória política, transformação ecológica e o ciclo inevitável da vida. Algumas estabelecem uma ponte física que chega até o nosso tempo, como a obra de Carlito Carvalhosa feita com cera, na qual permanecem gravadas as marcas de seus próprios dedos. O artista já não está aqui, mas o gesto permanece. E é claro que não podia faltar “Já estava assim quando eu cheguei”, sua escultura do Pão de Açúcar invertido, apresentada pela primeira vez no MAM e depois em produzida em menor escala.

Erika MayumiObra “Já estava assim quando eu cheguei”, de Carlito Carvalhosa

De Maria Klabin, duas pinturas retratam vasos de flores em diferentes momentos do dia, fazendo da própria luz uma medida da passagem do tempo. É uma artista sobre a qual nos debruçamos especialmente este ano: lançamos, pela Nara Roesler Books, o primeiro livro dedicado à sua obra, reunindo mais de 120 trabalhos.

DivulgaçãoPinturas de Maria Klabin na exposição de Bernardo Mosqueira

Camadas e tempo também estão presentes no trabalho de Daniel Senise, que nesta mostra apresenta imagens que investigam o contraste entre a solidez das colunas de um mosteiro em ruínas e a decadência do espaço abandonado. Senise também está com uma grande exposição individual – “Os dois lados da janela” – em cartaz no Paço Imperial.

DivulgaçãoExposição “Os dois lados da janela”, de Daniel Senise, no Paço Imperial, Rio de Janeiro

No Rio a natureza é ao mesmo tempo cenário e protagonista. A imensa pintura de Cristina Canale, “Queda”, retrata uma queda d’água, nos lembrando de que a primeira grande professora do movimento é a própria natureza. A obra é de 1990, quando a artista, que mora há mais de 30 anos na Alemanha, vivia no Rio. A natureza também é muito presente nas obras de Ângelo Venosa, cuja icônica escultura “Baleia”, instalada na praia do Leme, será restaurada este ano.

DivulgaçãoObra “Baleia”, de Angelo Venosa, na praia do Leme

Além de reunir obras de artistas representados pela galeria, de épocas e gerações distintas, que nasceram no Rio de Janeiro ou escolheram a cidade para viver – como Abraham Palatnik, que nasceu em Natal e construiu uma relação de moradia e trabalho com o Rio – Bernardo convidou cinco jovens artistas sem representação comercial para participarem da mostra. Em uma exposição sobre o tempo, abrir espaço para quem está começando também é lembrar que toda trajetória começa como um vislumbre de futuro.

Assim, obras de artistas consagrados convivem com trabalhos de jovens ainda pouco conhecidos, em um emaranhado que revela a capacidade da arte de nos ensinar sobre o tempo que escapa à lógica cronológica.
No texto da exposição Bernardo escreveu: “Há algo do tempo que não se entrega à medida”. Esse é meu sentimento nesse ano de comemoração. Essas datas nos chamam a atenção para tudo o que a passagem do tempo representa: história, memória, presença, construção, movimento, espiralidade. É menos sobre contar anos e mais sobre reconhecer permanências e transformações.

*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img