Por décadas, quando a medicina falava sobre saúde sexual, a pergunta principal era: “o que está errado”? A preocupação era mais ou menos a mesma de sempre: prevenir ou tratar aquilo que adoecia, ou seja, as infecções sexualmente transmissíveis, a infertilidade, as disfunções, os problemas relacionados à reprodução.
Essas questões são fundamentais, mas a ciência ampliou essa visão ao reconhecer que existe algo para além da ausência de doenças. Isso aconteceu também com a saúde mental, que passou a incluir o bem-estar e a qualidade de vida. Agora acontece algo semelhante com a saúde sexual. Nos últimos anos, pesquisadores passaram a defender que, além de prevenir doenças e tratar disfunções, é preciso olhar para outra dimensão até então pouco explorada: o bem-estar sexual.
Bem-estar sexual não é algo que se mede por padrão de desempenho. Ele envolve sentir-se confortável com o próprio corpo, ter autonomia para escolher quem se quer como parceiro ou parceira, viver uma relação baseada em respeito e segurança e, principalmente, experimentar a intimidade e o prazer de forma saudável. Isso muda o foco de quantas relações se tem por mês para como essas relações são vividas. Tem gente que tem uma frequência alta de relações, mas as vive de forma mecânica e esvaziada. E há quem transe pouco, mas estabeleça uma relação significativa de conexão e satisfação.
Vale, inclusive, para quem não tem vida sexual ativa. Uma pessoa que está sem parceiro no momento ou que está vivendo um período sem sexo também se relaciona com o próprio corpo, com a própria história e com o que espera do futuro.
A sexualidade não existe separada do resto do organismo. Ela é influenciada pelos mesmos fatores que envolvem a nossa saúde física e mental, ou seja, os níveis de estresse, o uso de remédios, a qualidade do sono, a atividade física, a autoestima e a qualidade dos vínculos. Quem dorme mal, por exemplo, tende a ter mais dificuldade na vida sexual. O mesmo costuma acontecer com quem vive estressado ou atravessa um período de grande desgaste emocional.
O que percebo no consultório é que a vida moderna tem afetado enormemente o bem-estar sexual justamente porque estamos mais vulneráveis à ansiedade, à depressão e à baixa autoestima, e isso repercute na maneira como uma pessoa se relaciona com seu corpo e com o outro. O mesmo acontece com o estresse e o uso de certos medicamentos, que podem reduzir o desejo e prejudicar a resposta do corpo ao estímulo sexual.
Claro que sexo não é um remédio para problemas emocionais. Ele pode, inclusive, até virar fuga, como o álcool ou qualquer coisa. Entretanto, a conexão verdadeira, a intimidade e o afeto são fatores importantes para o bem-estar psicológico e mental.
Vale ainda uma reflexão do que nos tem sido “vendido” quando se fala de bem-estar sexual. O mercado, quando fala disso, quase sempre promete desempenho; já a ciência aponta o contrário disso: menos performance e mais qualidade da experiência.
Vivemos, além disso, uma era em que a ideia de esticar a juventude tem marcado de forma significativa comportamentos. Juventude virou sinônimo de aparência e performance. Com isso, muitas pessoas passaram a viver a própria intimidade sob a lógica da cobrança, e o prazer dificilmente desabrocha em ambientes dominados pela comparação e pela ansiedade.
Por isso, acredito que, em vez de perseguir a ideia de que mais sexo é melhor, deveríamos cuidar das condições que nos permitem ter uma relação saudável conosco mesmos e com o outro.
Penso que o melhor indicador de uma vida sexual saudável não é a frequência das relações, mas a liberdade para vivê-las ou para não vivê-las de forma coerente com quem somos. Sexo, afinal, não se mede em números.