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sábado, agosto 15, 2026

45 Anos de MTV: Como Se Consumia Música nos Anos 80 e 90?

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Ladies and gentlemen, rock and roll“. Foi com essa frase que, há exatos 45 anos, a MTV estreava nos Estados Unidos, em 1º de agosto de 1981, à meia-noite e um. A presença inconfundível de John Lack, acompanhada por imagens do homem na Lua com a bandeira americana sendo substituída pelo logotipo da emissora, deu início a uma revolução na indústria da música e no entretenimento mundial.

Naquele dia, quem estivesse acordado assistiria a Video Killed the Radio Star, do duo britânico The Buggles, o primeiro clipe exibido no canal. Naquela época, os videoclipes eram, em sua maioria, apenas registros das bandas tocando. A ideia de superproduções era ainda pouco explorada, normalmente por grupos britânicos alternativos, como A Flock of Seagulls, Duran Duran, Thomas Dolby e Billy Idol. No caso dos Buggles, o investimento na produção do vídeo foi de cerca de US$ 50 mil, valor altíssimo para a época.

Com seu estilo visual moderno e programação inovadora, a MTV acabou por se transformar, ao lado do rádio, em uma autoridade para o acesso à música, porém mais voltada ao fenômeno mundial da cultura pop.

“A MTV foi importante porque transformou música em linguagem visual. Ela não entregava apenas canções; entregava estética, comportamento e referências culturais. Era uma emissora que ajudava a consolidar a imagem dos artistas, amplificar conceitos visuais e de moda, reforçando costumes que já surgiam nas ruas, dando escala, especialmente no mercado americano”, afirma Marcelo Braga, diretor-geral da Forbes Radio.

O maior exemplo talvez seja Michael Jackson. Com a entrada de Billie Jean em alta rotação na MTV americana, em 1983, a relação entre videoclipe e indústria fonográfica mudou definitivamente. A música deixou de competir apenas pelo ouvido e passou a disputar também a atenção dos olhos. Já não bastava mais fazer músicas boas, era preciso construir narrativa visual, identidade e um universo próprio para o artista.

“Os clipes passaram a ser peças visuais fundamentais para construir a imagem de um artista, ditar tendências de moda e comportamento, além de serem vitrines para as mensagens que os artistas queriam passar”, acrescenta Braga.

Durante quatro décadas, ícones marcaram diferentes gerações. Nos anos 80, destacaram-se Van Halen, Bon Jovi e The Police. Na década de 90, com a emissora já consolidada mundialmente, nomes como Prince, Michael Jackson e Madonna dividiram espaço com grunge de Nirvana e o hip-hop de Missy Elliott. A virada do milênio trouxe consigo explosão de Britney Spears e boy bands, como Backstreet Boys, seguida por nomes como Beyoncé, Lady Gaga e Taylor Swift nos anos 2010.

Inaugurada no Brasil em 20 de outubro de 1990, a MTV nacional já chegou tarde ao país, mas seu impacto foi avassalador. A emissora ajudou a moldar o gosto musical e cultural dos jovens dos anos 90 e 2000. “No Brasil, sua audiência sempre foi pequena quando comparada ao rádio ou à TV aberta, mas sua influência era maior do que seus números”, conta Braga.

O videoclipe deixou de ser um material meramente promocional na TV Globo, por exemplo, e passou a consolidar uma linguagem audiovisual própria, com impactos semelhantes aos registrados em outros países. “Uma transformação no consumo de música que ajudou a transformar grandes artistas em gigantes culturais”, explica Braga.

Os clipes passavam 24 horas por dia, sete dias na semana, em um modelo rotativo muito similar ao das emissoras de rádio, segundo Braga. Antes das redes sociais, poucas plataformas tinham essa capacidade de exposição contínua e repetida.

Os artistas passaram a influenciar roupas, cortes de cabelo, linguagem e atitudes não apenas pelo que cantavam, mas pela forma como apareciam na tela. O videoclipe virou uma plataforma musical e uma vitrine de estilo.

A mudança na forma de consumo e o fim da MTV

A MTV foi criada para a lógica de um mundo de escassez, em que era difícil acessar videoclipes e conhecer a imagem de artistas que antes só se ouvia. Isso ajudou a estabelecer uma relação mais profunda com o conteúdo artístico, juntando música, imagem, atitude e discurso, muitas vezes ao dia.

Hoje qualquer artista publica um clipe instantaneamente para o mundo inteiro no YouTube, com trechos no TikTok ou no Instagram. “O mérito da MTV foi responder brilhantemente a uma necessidade daquele momento histórico. A internet alterou essa necessidade, e criou uma outra forma de demanda e consumo cultural”, explica Braga.

O consumo musical digital também é bem menos intencional, porque não implica escolher, pesquisar, comprar e decidir colocar para ouvir, mas é construído por meio de um algoritmo que tenta “adivinhar” o seu gosto com base no que já ouviu antes. “Ganhamos acesso, diversidade e liberdade de escolha. Mas perdemos parte da experiência coletiva e da profundidade da relação entre artistas e público. A MTV gerava um compartilhamento de consumo, criação de memórias com amigos, por exemplo, que se perdeu. Hoje cada pessoa vive sua própria trilha sonora, tornando muito mais raro o surgimento de um big hit ou de um artista icônico”, explica Braga.

A MTV não conseguiu sobreviver à crise da TV por assinatura e às mudanças na forma de consumo. No início de 2026, a emissora encerrou os canais dedicados à exibição de videoclipes 24 horas no Brasil, Estados Unidos, Irlanda, França, Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria e Austrália.

A MTV Music optou por encerrar sua trajetória da mesma forma que começou: tocando “Video Killed the Radio Star”, do The Buggles, no dia 31 de dezembro de 2025, após 38 anos.

O poder da nostalgia

Hoje ninguém ocupa sozinho o papel que a MTV ocupou no final do século XX. A influência foi fragmentada entre plataformas como TikTok, YouTube, Spotify, rádio, shows, Instagram e criadores de conteúdo.

DivulgaçãoSpoify passou a reproduzir videoclipes

“A diferença é que antes existia um centro irradiador de tendências; hoje elas surgem simultaneamente em diversos lugares, só que com menor impacto e gerando um descarte muito mais rápido, afinal, amanhã temos mais milhares de músicas e artistas novos para consumir”, explica Braga.

Mas para aqueles que, por várias vezes, decretaram o fim do videoclipe, a resposta é que não poderiam estar mais enganados. Enquanto artistas gigantes da indústria musical continuam a investir milhões em superproduções, plataformas de streaming como Spotify adaptam seus formatos para reproduzirem vídeos também.

Segundo o estudo “Then is Now”, da Vevo, a Geração Z lidera uma “nostalgia emprestada” em ritmo superior ao de gerações anteriores. Cerca de dois terços desses jovens relatam apego emocional por décadas que sequer vivenciaram. Isso explica o interesse renovado pela estética dos anos 80 e 90. Esses consumidores, nativos digitais, buscam experiências compartilhadas semelhantes às que existiam antes do conteúdo sob demanda.

A música é o principal combustível da nostalgia (88%), sendo que videoclipes despertam mais nostalgia do que qualquer outro formato (68%). Segundo o estudo, o sentimento está intimamente ligado à música graças à capacidade que o som tem de eternizar momentos muito depois de eles terem passado. Os videoclipes potencializam ainda mais esse impacto porque combinam a experiência sonora com a memória visual.

[Fonte Original]

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