Nos corredores da Unisanta, em Santos, uma história chamou a atenção de uma jovem recém-chegada à cidade nos anos 2000. Perto de completar 15 anos e com a vida transferida para o litoral paulista por conta do esporte, Ana Marcela Cunha ouviu relatos sobre Renata Agondi. A nadadora brasileira da mesma instituição perdeu a vida na tentativa de cruzar o Canal da Mancha em 1988. “Comecei a escutar muito sobre a história e, com mais ou menos um ano de casa, falei: quero fazer essa travessia”, lembra a atleta à Forbes.
Aos 34 anos, a campeã olímpica e dona de 17 medalhas em Mundiais concluiu o percurso de 42,9 quilômetros entre a Inglaterra e a França em 8h25min29s. A marca estabelece o novo recorde sul-americano na rota entre homens e mulheres. “Era muito mais um sonho pessoal do que profissional”, conta. “Profissionalmente, eu tinha o Pan-Americano, a Olimpíada, as coisas aconteceram, eu cheguei lá. Mas atravessar o Canal era um sonho que eu queria muito realizar, independente de ter chegado ou não aonde cheguei no esporte.”
O momento certo
A espera de 20 anos esbarra na fisiologia. O Canal da Mancha exige adaptações no corpo da competidora. “Treinar para o canal exige tolerar água fria, ganhar um pouco de peso, ter um corpo mais voltado para essa prova e não para performar em 10 quilômetros”, explica Ana Marcela. “Sei que agora o meu pós-prova vai ser difícil, porque vou precisar perder tudo o que ganhei.”
A janela ideal apareceu sem competições mundiais em 2024 e com o plano de despedida para Los Angeles 2028. “Não quero me aposentar para só depois ter que fazer. Acho que ou você faz muito novo, quando não entende sobre o mar e só cai na água, ou precisa de fato ter experiência e maturidade para chegar no momento correto.”
A preparação para o recorde
O teste para as braçadas na Europa aconteceu em São Paulo, nas águas da Represa Billings. Sob o frio do inverno, a nadadora encarou um treino de 12 horas. “Nadei dez horas e meia no escuro”, conta. “Para mim, o tempo não passava, porque você não vê o sol se mover, não vê as coisas acontecerem.”
A temperatura da água bateu na casa dos 13 graus na represa. No dia oficial no Canal da Mancha, o clima externo de 24 graus serviu de alento. O recorde, no entanto, ficou de fora dos planos desde o primeiro minuto.
“Não me importava o tempo, não me importava recorde. Quando você pensa no recorde de sete horas e se frustra em uma prova tão longa, que pode chegar a 12, seria mentalmente muito cansativo. O meu maior objetivo sempre foi completar”, afirma.
O dia do mergulho no Canal da Mancha
A rotina no dia da travessia começou às 3h15. “Já tinha feito até meu café, estava tudo pronto na geladeira. Foi acordar, comer, ir ao banheiro, escovar os dentes, mochila pronta. Às 3h45 todo mundo já estava no hotel, e às 4 horas a gente pegou o táxi”, conta. No píer da costa inglesa, a equipe dividiu os equipamentos, câmeras e garrafas de hidratação, enquanto a nadadora procurou um canto tranquilo no barco de apoio.
Antes do mergulho, a preparação da pele pediu uma receita particular. “Tem uma pessoa que passa aquele creme branco, uma mistura de vaselina, protetor solar e lanolina, que é como se fosse uma gordura da ovelha. Ajuda com o frio, mas serve muito mais para criar uma camada de proteção na pele, porque a gente tem encontros com águas-vivas.”
A aplicação poupa os antebraços e as panturrilhas, áreas onde a atleta precisa manter a sensibilidade para o controle do nado. Ao saltar do barco, Ana encontrou uma bola perdida na pequena praia de largada, chutou o objeto, ouviu a buzina da equipe e iniciou o trajeto.
Na reta final, a mente testou os limites da atleta. “Parecia que eu nunca chegava no farolzinho”, lembra. “Vi o farol duas horas antes. O pessoal falava ‘calma, ainda falta um pouco’. E aí você fica com aquela ansiedade de acabar, de completar e de realizar”.
Ao tocar a rocha do outro lado, já no litoral da França, a primeira reação foi questionar se estava no local certo, para a travessia ter validade. “Demorei para tirar os óculos, porque pensei: será que eu posso tirar? Vai que eu tiro no meio da prova e isso invalida tudo.”
O alívio e a celebração não demoraram a seguir. Com o feito validado e de volta ao barco, a presença da esposa e dos pais marcou o encerramento da jornada. “São pessoas que sempre me apoiam em qualquer decisão. Nunca pensaram duas vezes com um não”, diz. Na memória, ela carregou também a lembrança da avó, falecida há três meses. “Queria muito que ela pudesse ter visto. Mas acho que minha maior vitória na vida foi a Olimpíada, e essa ela conseguiu acompanhar.”

A comemoração em Londres marcou também uma pausa inédita em quase duas décadas de dedicação às águas. “Desde os meus 16 anos, estou sempre no alto rendimento, uma vida que a gente não tem fora do esporte. Estou nas minhas primeiras férias gigantes, nadando uma vez por dia”, afirma. “A gente está sempre no nosso limite. Então, ter esse momento agora para mim, com a minha esposa e meus pais conhecendo Londres, é uma grande satisfação.”
No campo profissional, a rede de apoio atende pelo nome de Speedo, patrocinadora de Ana Marcela há 16 anos. “É a marca que mais confiou no meu processo todo, desde a minha primeira medalha em campeonato mundial, em 2010. Quando você tem uma relação muito mais de família do que só de patrocinador, é algo natural”, afirma. “A forma como eles acreditaram não só nos resultados, mas em mim como pessoa, mostra o valor dessa parceria.”
O legado de Ana Marcela Cunha
Apesar das conquistas, Ana Marcela rejeita o posto de molde para a próxima geração. “Nenhuma dessas meninas vai ter o mesmo passado ou a mesma história que eu tive”, diz. “Me inspiro no Ayrton Senna, na Marta, na Hortência. Não quis ser uma nova Hortência, quis sempre chegar aonde esses outros atletas também chegaram.”
A mensagem da campeã abrange a vida fora da água. “Hoje sou muito mais aberta até para falar sobre as minhas escolhas, sobre uma bandeira que eu levanto e que não é só sobre mim. É sobre a sexualidade, sobre quem você ama, sobre quem você quer ser”, afirma. “Todas nós mulheres podemos ser quem a gente quiser ser.”
Essa proximidade com o público é algo que a nadadora tenta cultivar para desmistificar a figura do atleta inatingível. “A gente parece muito distante por ver na tela. Mas, às vezes, tenho a oportunidade de ir a um SESC, por exemplo, onde encontro pessoas e elas olham pra mim e falam: ‘você é de verdade?’”, relembra. “Queria poder mostrar que nós somos de carne e osso, mesmo passando por tudo o que se pode imaginar de dificuldades.”
Ana Marcela deixa um conselho para as meninas com vontade de seguir no esporte: “O caminho tem dificuldades. Você vai começar com muito mais derrotas do que vitórias, mas não deixe de acreditar nos seus sonhos. Caminhar sem companhia é difícil. Caminhar sempre com alguém junto e ter uma rede de apoio faz muita diferença. Façam a própria história.”