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Das reflexões propostas por Chabouté em suas obras, as que trazem novos filtros e possibilidades para interpretar a vida e ressignificar a existência são as que mais tocam os leitores, não sendo diferente nesta incrível Muito Além Daqui, lançada originalmente na França, em 2025. No centro da trama, Alexandre, um vigia noturno de um estacionamento subterrâneo, que mal vê o Sol e não tem mais a energia de ver e sentir aquilo que o cerca. E o personagem sabe disso. Em poucos diálogos e sem narração, o autor localiza o leitor num espaço claustrofóbico e escuro, entregando, a seguir, as chaves da mudança que virá. Alexandre é crítico de si mesmo e da vida robótica e cinza que vive. Ele não quer viver assim, mas por força do hábito ou necessidade, continua no mesmo trabalho e consome o calendário dormindo durante o dia e ficando acordado durante a noite. Até que, depois de muitos desenhos e sonhos de mudança — o que mais me pega aqui é isso: ele sabe que vive em uma prisão e sonha em sair dela — o personagem programa uma viagem para o Alasca.
Diante da rudeza amigável de um colega de trabalho, Alexandre não se abala: “O que você vai fazer lá? Pendurar uma rede entre dois iglus? […] Você é um sonhador, Alexandre! Não um caçador. Os ursos… até os castores vão te comer vivo!”. Quieto, calado, mas determinado, o personagem sabe o que quer e o que deve fazer. Ele traçou um merecido caminho de mudança de ares para si e vai segui-lo, mas uma adversidade vem para colocar um empecilho a mais nesse processo de libertação. Aqui, é possível pegar o enredo e aplicar a qualquer tentativa de mudança prática que alguém tenta fazer na vida, de modo que a história, além da reflexão filosófica, emocional e existencial que traz, pode abrir boas portas de investigação sobre a resistência humana diante do imprevisto e sobre o preço emocional de manter uma promessa feita a si mesmo diante de circunstâncias que escapam a qualquer planejamento. Vale tomar cuidado para não transformar a história num nicho de autoajuda simplista ou ações irresponsáveis diante daquilo que nos causa qualquer incômodo no dia a dia, mas a mensagem e o projeto de libertação pessoal que o autor cria aqui, se encarados sem os cacoetes gratiluz e a forçação de barra de nossos tempos, só trarão coisas boas.

Chabouté pensou nas situações mais relacionáveis possíveis para movimentar o olhar e o comportamento do personagem, e é justamente essa escala doméstica do infortúnio que vemos guiar o argumento do livro. As prisões da vida adulta, sugere o autor, tomam a forma de pequenas burocracias, falência de empresas, voos cancelados, formulários de reembolso, escadas traiçoeiras e quedas perigosas que ninguém percebe até ter de lidar com elas. Com isso, o texto foge do sentimentalismo fácil e mantém Alexandre no mesmo regime de pequenas derrotas que já definia sua rotina no estacionamento, só que agora do lado de fora, seguindo o sonho de liberdade onde ele mais precisava ser livre: no lar e em seu entorno. A resposta do personagem, recusando-se a ficar em casa e alugando um quarto num hotel de frente para o próprio prédio, é a peça central da reflexão sobre presença (ter a noção de si e dos outros no espaço) e atenção (procurar ver novidade na rotina) para as coisas simples e constantes, dando coerência à trama sem depender de fatos mirabolantes para se justificar.
O uso de cores em algumas cenas é preciso e marca com perfeição a beleza retornando para os olhos do protagonista, que, no processo, não modifica apenas a si, mas também à dona do hotel. Este é um processo que poderia facilmente cair no sentimentalismo barato, mas o rigor do desenho e da diagramação, o ritmo, a maneira de alternar cenas mudas (a maior parte da HQ) com poucos diálogos e a fuga de qualquer discurso explicativo impedem a obra de cair no lugar comum. Chabouté já havia testado esse mesmo caminho reflexivo de silêncio diante das coisas cotidianas (até mesmo em torno de um banco público!) na soberba Um Pedaço de Madeira e Aço, mas aqui o risco é maior, porque o protagonista está isolado, frustrado, em busca de algo para curar o desalento de um plano que não deu certo, e o argumento depende inteiramente da arte de comunicar uma mudança interna sem um interlocutor para compartilhar e avaliar esse processo o tempo todo. É um dos projetos mais difíceis de se levar a cabo, porque valer-se quase exclusivamente da arte exige uma excelência de construção narrativa ímpar, assim como uma grande sensibilidade. Para a nossa sorte, nada disso é um problema para Chabouté, que já tinha mostrado o quanto poderia fazer com essas condições formais e, aqui, reforça que está cada vez mais criterioso e eficente em seu ofício.
Muito Além Daqui (Plus loin qu’ailleurs) — França, 2025
Roteiro: Christophe Chabouté
Arte: Christophe Chabouté
Editora original: Vents d’Ouest / Glénat
No Brasil: Pipoca & Nanquim, 2026
156 páginas