O Paquistão solicitou recentemente aos Estados Unidos acesso a um mecanismo de garantia cambial de até US$ 10 bilhões para reforçar sua capacidade de enfrentar choques nas reservas internacionais, apurou o “Nikkei Asia”.
Especialistas, porém, avaliam que, apesar dos esforços recentes de Islamabad para mediar o conflito entre Estados Unidos e Irã, o pedido deverá enfrentar um exame rigoroso de Washington, especialmente sobre a situação das finanças públicas do país e os pagamentos de sua dívida à China.
Segundo dois funcionários ouvidos pelo “Nikkei Asia” sob condição de anonimato, o pedido foi apresentado oficialmente em 21 de julho, durante reunião em Washington entre o ministro das Finanças do Paquistão, Muhammad Aurangzeb, e o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent.
O mecanismo solicitado é o Fundo de Estabilização Cambial (ESF, na sigla em inglês), instrumento do Tesouro americano utilizado para oferecer empréstimos e linhas de crédito temporárias a países que enfrentam instabilidade cambial e financeira. O recurso já foi concedido, por exemplo, a México e Argentina durante crises cambiais.
O governo paquistanês não anunciou oficialmente o pedido, e um assessor do ministro das Finanças se recusou a comentar o assunto.
Segundo Naafey Sardar, professor assistente de economia do St. Olaf College, nos Estados Unidos, uma linha de crédito desse porte fortaleceria as reservas internacionais do Paquistão, ajudaria a estabilizar a moeda e reduziria a necessidade de financiamento externo.
“Isso também poderia fortalecer a posição do Paquistão em sua relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI), ao reduzir a lacuna de financiamento”, afirmou.
O país está atualmente sob um programa de assistência do FMI de US$ 7 bilhões, com duração de 37 meses e validade até outubro de 2027, que exige a implementação de uma ampla agenda de reformas econômicas.
Ainda assim, analistas avaliam que, caso o financiamento americano seja aprovado, Washington deverá acompanhar de perto o destino dos recursos, sobretudo diante da elevada dívida paquistanesa com a China.
“Os EUA vão querer garantias de que esses recursos não serão usados para pagar dívidas ligadas à China, como costuma ocorrer com os empréstimos do FMI”, afirmou Aadil Nakhoda, professor do Instituto de Administração de Empresas, em Karachi.
Segundo o FMI, o Paquistão devia US$ 29 bilhões ao governo chinês e a bancos comerciais do país em junho de 2025, o equivalente a 27% de sua dívida externa pública.
O pedido foi feito depois de o Paquistão atuar na mediação do conflito entre Estados Unidos e Irã. A iniciativa foi liderada pelo comandante das Forças Armadas, marechal Asim Munir, e pelo primeiro-ministro Shehbaz Sharif, que contribuíram para um cessar-fogo de duas semanas em abril e mantiveram contatos diplomáticos entre Washington e Teerã.
Especialistas, contudo, avaliam que esse papel diplomático dificilmente será suficiente para garantir o apoio financeiro americano.
“Considerações estratégicas, por si só, provavelmente não determinarão a decisão dos EUA”, disse Sardar.
Asma Hyder, economista afiliada à Universidade Estadual de Norfolk, compartilha dessa avaliação. Para ela, a atuação diplomática do Paquistão pode favorecer o diálogo, mas a decisão dependerá principalmente da credibilidade econômica do país e do alinhamento com as prioridades estratégicas de Washington.
Ela ressalta ainda que, mesmo se o pedido for aprovado, isso não substituirá as reformas exigidas pelo FMI.
“Essa linha de crédito pode trazer benefícios, mas não é uma alternativa à agenda de reformas. Se o governo relaxar nesse processo, poderá comprometer sua credibilidade no futuro”, afirmou.
Sanjay Kathuria, pesquisador sênior visitante do Centre for Social and Economic Progress, em Nova Délhi, observou que o Paquistão já recorreu 25 vezes a programas do FMI sem promover mudanças estruturais suficientes nas áreas tributária, comercial, concorrencial e energética.
“Os juros consomem cerca de metade da arrecadação tributária federal do Paquistão”, disse. “Sem enfrentar esses problemas, uma ajuda financeira dos EUA pode aliviar a situação no curto prazo, mas também adiar as reformas necessárias para evitar a próxima crise.”