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sexta-feira, agosto 7, 2026

Para executivos, ritmo acelerado de mudanças globais exige nova forma de gestão

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A velocidade das transformações globais tem mudado a forma como as empresas tomam decisões. Com a reorganização das cadeias produtivas após a pandemia, o aumento das tensões geopolíticas e a intensificação dos eventos climáticos extremos, companhias brasileiras passaram a rever modelos tradicionais de planejamento, governança e competitividade. O diagnóstico foi apresentado durante o painel “Resiliência e Competitividade da Base Produtiva Brasileira”, realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em parceria com a Rio Innovation Week.

“Se pensarmos dez anos atrás, em 2016, o Brasil estava em recessão, a China começava a mudar seu modelo de crescimento e o preço das commodities entrava em queda. Depois veio um período de relativa estabilidade, até a Covid mudar completamente o cenário”, disse Ricardo Simonsen, diretor de Qualidade em Pesquisa Aplicada da FGV.

Juros mais altos, guerra na Ucrânia, conflito no Oriente Médio, tarifaço americano, trabalho híbrido, e-commerce turbinado, avanço da inteligência artificial e a crise climática, enumerou, vêm transformando o ambiente de negócios. Mais do que a mudança em si, o que preocupa as empresas é a velocidade com que ela ocorre. “Um ciclo que antes se estendia por cinco anos hoje se completa em três, e tende a encurtar ainda mais”, acrescenta. Como navegar num cenário de mudanças relevantes cada vez mais constantes?

Para Fernando Queiroz, CEO da Águas Azuis (Sociedade de Propósito Específico responsável pela construção das fragatas da Classe Tamandaré para a Marinha do Brasil) e ex-vice-presidente da Embraer, um fator chave para as empresas desenvolverem capacidade permanente de adaptação é “simplicidade”. A ideia vem da chamada filosofia “Lean”, adotada há mais de duas décadas na linha de produção da Embraer e que, aos poucos, migrou para processos administrativos.

“Precisamos combater a complexidade do mundo com simplicidade”, afirmou Queiroz, ressaltando que mudança constante exige presença ativa na gestão do negócio, não apenas replicação de modelos importados.

O CEO da Prumo Logística, Rogério Zampronha, foi além: para ele, as transformações atuais corroem as próprias bases institucionais que sustentavam o comércio global. Sua fala fez menção à erosão das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), ao tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos e à proposta da Trump Media, controladora da Truth Social, de cobrar investidores por acesso antecipado a publicações de Donald Trump na rede social. “É a institucionalização do inside trading”, ironizou.

Na leitura do executivo, empresas que antes competiam por preço hoje precisam garantir disponibilidade de insumos críticos, como combustível, energia e commodities, mesmo que isso signifique pagar mais caro por eles. Essa lógica, argumentou, exige repensar não só onde produzir, mas quem decide. Para Zampronha, o modelo de decisão concentrado no topo da hierarquia já não responde à velocidade exigida pelas crises geopolíticas.

“Para reagir com velocidade às mudanças que são críticas aos negócios, é preciso transferir o poder de decisão para a ponta da operação. Descentralizar da alta administração. Quem está lá na ponta, falando com o cliente, falando com o fornecedor, brigando no dia a dia, essa pessoa tem muito mais informação e precisa de autonomia”, afirmou Zampronha.

Vice-presidente do Grupo Mac Laren, Alexandre Kloh trouxe o setor naval brasileiro como exemplo de uma indústria que depende de planejamento de longo prazo para recuperar competitividade. Segundo ele, a construção naval passou por um período de retração de mais de uma década e agora volta a ganhar espaço com novos projetos ligados à Petrobras. Para o executivo, o desafio não é apenas retomar a produção, mas criar condições para que empresas invistam novamente em um setor de ciclos longos.

“Considerando a mutação que a gente vem sofrendo hoje, a velocidade das coisas, a falta de previsibilidade, a gente não consegue planejar os próximos cinco anos. Onde eu estou hoje? Onde eu vou estar daqui a cinco anos? Como vai estar o cenário? Esse é um desafio muito grande”, afirmou.

Na avaliação de Kloh, a retomada da indústria naval depende de uma estratégia que dê segurança para investimentos e formação de capacidade produtiva.

“O grande desafio é mostrar a oportunidade e a força que esse setor tem de alavancagem e fazer disso uma longevidade. Tornar de novo a nossa indústria produtiva, competitiva, como nós já fomos lá atrás”, disse Kloh.

Na Klabin, maior produtora e exportadora de papéis para embalagem do país, olhar para o futuro e prazos significa pensar em termos de anos de crescimento florestal — sete para o eucalipto, quatorze para o pinus, contou Darlon Orlamunder de Souza, diretor de Sustentabilidade, P&D+I e Estratégia & Mercado da companhia. É isso, segundo ele, que torna qualquer decisão estratégica um exercício de planejamento de longuíssimo prazo, especialmente diante da crise climática.

Orlamunder descreveu programas de melhoramento genético que testam materiais em regiões de menor pluviosidade, antecipando cenários climáticos mais severos. “A gente está nos últimos dez anos com temperaturas mais elevadas e menos chuvas do que tínhamos no histórico”, disse, ao explicar por que a flexibilidade de portfólio, entre celulose, papel e embalagens, tornou-se peça central na estratégia de resiliência da empresa.

Mas a adaptação a um ambiente global mais instável não depende apenas das decisões internas das companhias. À medida que riscos climáticos e geopolíticos passam a afetar cadeias produtivas inteiras, cresce também o papel de instituições capazes de financiar investimentos em resiliência e acelerar respostas a crises.

Representando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o superintendente de Desenvolvimento Produtivo e Inovação, João Pieroni, destacou como o banco reformulou sua própria governança diante da multiplicação de eventos climáticos extremos, caso das enchentes no Rio Grande do Sul.

“Instauramos, por exemplo, um comitê de crise para que a gente já tenha desenhados produtos que possam fazer um ‘plug and play’ e apoiar mais rapidamente empresas”, explicou, lembrando que a instituição destinou cerca de R$ 20 bilhões à recuperação do Rio Grande do Sul naquele momento.

Pieroni citou ainda o programa Brasil Soberano, voltado a empresas afetadas por tarifas e conflitos geopolíticos. “Ele vem justamente apoiar aquelas empresas que foram impactadas pelas tarifas e, ao mesmo tempo, numa estratégia de médio e longo prazo, fortalecer essas cadeias mais resilientes no Brasil”, disse.

O executivo também falou sobre a parceria com a Embrapa, dentro do Fundo Clima, para desenvolver variedades agrícolas mais resistentes ao aquecimento. Segundo ele, estão em andamento pesquisas para desenvolvimento de culturas-chave no Brasil, como soja, milho, arroz e feijão, que sejam mais resilientes frente a cenários climáticos cada vez mais severos.

[Fonte Original]

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