“Quando um homem heterossexual faz sexo com outro homem, trata-se simplesmente de um desvio momentâneo ou insignificante na vida de um heterossexual ‘verdadeiro’, ou trata-se de uma evidência de que ele é, secretamente, um homem gay que não assumiu sua orientação sexual?” A partir dessa pergunta de E. Colin Ruggero, podemos pensar como heterossexualidade está para muito além de uma orientação sexual e pode ser entendida mais como um dispositivo social de sexualidade.
Talvez um episódio curioso – já que nem pode ser chamado de inédito – sobre o desejo secreto dos homens cis-heterossexuais tenha aparecido recentemente com a proliferação do termo “Neysexual”, como mostra o texto “‘Neysexual’: como se definem homens héteros que têm desejo por Neymar”, publicado no site da Veja, em 09 de julho de 2026. Após fotos do jogador Neymar Jr nas redes sociais treinando, em posições que mostravam as curvas de sua bunda, milhares de homens que se identificam como heterossexuais passaram a brincar que “abririam uma exceção” para o jogador.
A exposições de prints em que haviam esses comentários, e que logo viralizaram, expõe que seu discurso não está apenas na possibilidade do desejo por outro homem, mas justamente no fato de que esse desejo não exige a renúncia da “identidade heterossexual”. A exceção confirma a regra e, ao mesmo tempo, a protege. Em geral, comentários sobre as fotos do jogador, bem como sobre outros homens, veem acompanhadas de “Não sou gay, mas”, que é uma forma de se proteger da mira anti-homosexual.
Sobre isso, segundo Fabrício Oliveira, psicólogo e sexólogo, em entrevista no supracitado texto da Veja, diz que “esse tipo de frase é um recurso comum. Permite expressar admiração, desejo, sem assumir nada, protegendo a imagem de hétero de quem fala. Reforça a ideia de que só se pode elogiar outro homem na brincadeira, nunca é sério. E mostra a insegurança coletiva em relação a esse tema”. Embora Fabrício afirme também que nem sempre a conotação é sexual, cabe a desconfiança dessa ambivalência como estratégia própria do modo como homens pactuam entre si seus desejos.
O que esse contexto nos informa é que, em vez de colocar em crise a heterossexualidade, cria-se uma categoria que provisoriamente autoriza o desejo sexual desses homens, desde que ele permaneça circunscrito a um único corpo extraordinário e até inacessível. Talvez aí esteja uma das demonstrações mais sofisticadas de como opera a heterossexualidade compulsória: ela não precisa impedir completamente o desejo entre homens, basta produzir narrativas capazes de impedir que esse desejo seja reconhecido como tal.
A brotheragem leva essa lógica um passo adiante. Se o meme da “Neysexualidade” é a exceção pública que preserva a marcação “heterossexual”, a brotheragem é o pacto privado e silencioso que preserva seus privilégios.
Nesse sentido, podemos elaborar que no conjunto dos mecanismos e das dinâmicas que sustentam a masculinidade – frágil e ao mesmo tempo corrosiva – do homem cis-heterossexual, a Brotheragem entra como o verniz que cobre esses sujeitos, protegendo-os de tudo que tente ameaçar aquilo que Adriene Rich há mais de 40 anos já nomeava como “heterossexualidade compulsória”.
Assim, como veremos, se por um lado a “Brotheragem” é o ato de homens supostamente heterossexuais fazerem sexo com outros homens, por outro lado ela também funciona como um pacto silencioso que os mantém reféns uns dos outros, mas [e] por isso mesmo pertencentes às normalizações sociais.
Existe toda uma história das práticas sexuais que se associa e dá maior sustentação à noção de “Brotheragem”, e que pode ser pensada a partir do termo “down low” [sigilo/sigiloso], que em sua base envolve masculinidade cis-heterossexual e aspectos raciais.
Embora frequentemente utilizados como sinônimos, “down low” e “brotheragem” não designam exatamente o mesmo fenômeno. Do inglês, a expressão “down low” ganhou notoriedade nos Estados Unidos no início dos anos 2000, sobretudo em meio às discussões públicas sobre HIV/AIDS e práticas homoafetivas. Essa pauta ganha popularidade a partir sobretudo da publicação dos livros “Nobody Is Supposed to Know: Black Sexuality on the Down Low” [em tradução livre: Ninguém Deve Saber: A Sexualidade Negra no Sigilo] (2014), de C. Riley Snorton, e “Not Gay: Sex Between Straight White Men” [em tradução livre: Não é gay: sexo entre homens brancos heterossexuais] (2015), de Jane Ward.
Partindo da leitura comparativa realizada por E. Colin Ruggero (autor da pergunta que abre esse texto), em seu artigo “When Straight Men Have Sex With Men” [em tradução livre: Quando homens heterossexuais fazem sexo com homens] (2016), Snorton e Ward recusam a pergunta tradicional sobre a “verdadeira” orientação sexual de homens que fazem sexo com outros homens, deslocando a análise para os dispositivos sociais que regulam essas práticas. Entretanto, elas chegam a conclusões distintas, uma vez que investigam sujeitos que participam de diferentes e desproporcionais relações de poder.
De um lado, C. Riley Snorton demonstra que o “down low” emerge, no início dos anos 2000, como uma narrativa racializada (que eu chamaria de racista) sobre homens negros, produzindo-os como corpos suspeitos, hipervisíveis (no que ela chamaria de fenômeno “glass closet”) e associados ao “segredo”, ao HIV/AIDS e ao risco moral e de contaminação. Jane Ward, por sua vez, evidencia o movimento distinto: homens brancos heterossexuais conseguem realizar práticas homoeróticas sem que isso comprometa profundamente sua identidade heterossexual, justamente porque a branquitude e a masculinidade funcionam recursos que lhes permitem atribuir significados heterossexuais a essas experiências.
Assim, segundo o olhar comparativo de Ruggero, se os sujeitos negros analizados por Snorton permanecem confinados a um “glass closet” (esse “armário de vidro” que os torna constantemente vigiável), os homens brancos estudados por Ward desfrutam de uma mobilidade simbólica muito maior, podendo atravessar fronteiras sexuais sem perder todos os privilégios da heterossexualidade.
É nesse cenário múltiplo que proponho situar a noção de brotheragem. Assim, sem ignorar as marcações raciais que institucionalizam o “down low”, a brotheragem pode ser uma ferramenta de análise para nomear o pacto cis-masculino que transforma o sigilo sexual – ou segredo dos homens – em tecnologia de preservação dos privilégios cis-heteronormativos, evidenciando como determinados homens conseguem viver práticas homoeróticas enquanto mantêm o reconhecimento social e a segurança moral de sua suposta heterossexualidade.
No sentido da palavra, “brotheragem” é um termo que pode ser entendido como o “aportuguesamento” da palavra “brother”, que em tradução livre do inglês significa “irmão”. “Brothers”, todavia, seriam aqueles homens que costumam fazer tudo juntos, “pau” para toda obra, parceiros inseparáveis, confidentes sobretudo acerca de seus desejos sexuais. Nesse contexto, “brother” deixa de ser um substantivo que designa um grau de parentesco familiar e, aplicado no contexto da parceria confessional e sigilosa, passa a ser verbo, ou uma prática.
Por fim, no contexto contemporâneo e popular, a brotheragem diz sobre homens que se identificam socialmente como “homens heterossexuais” – que convencionalmente são homens que, em tese, se atraem sexualmente apenas por mulheres – têm relações sexuais entre si, e que necessariamente envolve o sigilo. E isso é muito importante aqui! Homens bissexuais e homens homossexuais, por exemplo, podem ter relações sexuais entre si e podem preferir não demonstrar isso publicamente por uma série de questões de represálias sociais, ou por outros motivos; no entanto, o diferencial do homem supostamente heterossexual é que eles precisam primeiramente sustentar a imagem de homem hétero e, segundo, precisam garantir o sigilo absoluto do ato. Não há brotheragem sem sigilo!
Uma sociedade sexista condenará o comportamento homossexual, e se armará de estratégias variadas para vigiar a sexualidade de sua população. Habitar essa sociedade e transitar por suas proibitividades e estratégias de controle exige mobilizações comportamentais que possam dar conta dos desejos circulantes.
Se um homem hétero – que seria socialmente condenado por ter comportamentos homossexuais – encontra outro homem hétero sujeito à mesma ameaça, o pacto entra em ação. Eles ficam juntos, praticam sexo, realizam seus desejos homossexuais proibidos e sigilosos e, como numa aliança social no mínimo bilateral para manter o perfil social hétero dos envolvidos e seguirem aceitos nos grupos em que frequentam, eles pactuam que nenhum contará sobre o outro. Todos têm algo a perder: seus privilégios heteronormativos; logo, é tudo no sigilo! O sigilo é a moeda de troca da brotheragem. A grosso modo, funciona assim: “se eu te revelo, eu revelo a mim mesmo; se me entregas, a ti se condena”.
Homens heterossexuais aprendem desde cedo a defender com toda força e violência a sua heterossexualidade como se ela estivesse acima de tudo, inclusive acima daquilo que eles são e/ou poderiam ser. Eles fazem questão de expor suas marcas de “homens que gostam de mulher”, e exigem ser tratados como pessoas avessas ao prazer afetivo-sexual que envolva dois corpos cis-masculinos.
Ou seja, tudo que represente algum grau de aversão ao “feminino” será eleito como marca dessa masculinidade cis-heteronormativa. Homens cisgêneros, em geral, aprendem a ter nojo do “feminino” na mesma medida que esse feminino é aquilo que, se tomado como referência de seu desejo os tornará mais homens. Homens heterossexuais e homens gays são ensinados a performar e verbalizar nojo por genitais como vulva, que no binarismo cissexista de gênero é associado a esse tal “feminino”.
Dito de outro jeito, pensando nos homens que se nomeiam como heterossexuais, não te parece curioso que para ser “homem de verdade”deve-se amar mulheres ao mesmo tempo que também é preciso odiar o que é socialmente consagrado como “feminino”? Na nossa sociedade, Homens aprendem a odiar as mulheres, ainda que as utilize como marca de sua masculinidade. [Poderíamos até dizer que em uma sociedade sexista todas as pessoas aprendem, de um jeito ou de outro, a amar Homens-cis e a odiar mulheres, mas isso seria outra conversa]. No quesito “Homens que precisam odiar o feminino mas devem utilizá-lo como símbolo de machulência” é onde justamente está a armadilha em que eles mesmos criam e habitam seus paradoxos e se condenam ao cativeiro de si. Infelizmente mulheres-cis também são ensinadas a rejeitar homens caso eles não entreguem a performance cis-masculina esperada. Ou seja, na cis-heteronormatividade, o “ser homem” sustenta o “ser mulher”, e vice-versa.
Seres da espécie “Homo sigilosus” dizem gostar tanto de mulheres, mas são os mesmos que as objetificam, que não as reconhecem como pessoas dotadas nem dignas de autonomia, de intelectualidade e de direitos. Em contrapartida, veneram tudo que é nomeado como cis-masculino: adoram o pênis – adoram sobretudo exibi-los como objeto de poder, veneram ambientes e espaços homocentrados (futebol masculino, encontro somente entre homens, cultuam atores, cantores, escritores, todos masculinos e com uma performance masculina dentro do mais esperado para o homem viril, vulgo homem “macho”, etc), tudo como maneira de se afirmarem homem e héteros; e, mesmo assim e talvez por isso?, ainda buscam pelo sexo homossexual.
No entanto, eles temem serem reconhecidos e descobertos em suas profundas e secretas vontades. Temem ser descobertos inclusive por si mesmos. Certamente porque existe uma norma que os encarcera no título de “Homens Heterossexuais”; represando desde muito cedo em suas socializações a vivência mais íntima de seus afetos e desejos sexuais como uma experiência possível – mesmo que sejam criações doutrinárias que aprisionam um potencial de afetos e ignora todas as possibilidades de um indivíduo. Para além disso, o binarismo de gênero e a ferramenta social que tem construído rigidamente a noção de “homem “ e “mulher”, e que nessa dicotomia sexual e excludente produz ferramentas de uma heterossexualidade compulsória, que deve ser sustentada acima da vida dessas pessoas.
Em muitos casos, esses homens são comprometidos em relações afetivo-sexuais com mulheres (já percebemos essa necessidade, mas falarei melhor abaixo). Não bastasse esse detalhe, deve-se acrescentar o fato de que essas companheiras não sabem [formalmente] de seus comportamentos homoafetivos; ou seja, para além de qualquer perspectiva muito moralista, existe mesmo assim a quebra de pactos estabelecidos entre os pares, já que eles também, em sua maioria, são monogâmicos, ou, no mínimo, não informam suas companheiras de seus atos – haja a vista, novamente, a necessidade primordial de ser tudo no sigilo. Ou seja, para esses sujeitos vale a máxima “Heterossexualidade acima de tudo, sigilo acima de todos!”.
Como parte de um pacto extremamente tóxico, mas que ocorre de modo silencioso no subterrâneo da subjetividade de uma masculinidade cis-heterossexual, estes homens apresentam técnicas que os auxiliam na hora de se camuflarem na sociedade. Existe todo um perfil do que popularmente se conhece como “heterotop”: aqueles homens que super valorizam um corpo “bem definido” em sua musculatura, mas que não é o fisiculturista, talvez o perfil “homem de academia”, “marombeiro”; estes homens adoram aglomerações masculinas onde os abraços, os tapinhas na bunda e nas costas não são um problema, afinal, estarão entre “brothers”.
Em um tom mais específico, e talvez estereotipado, são homens que cultivam um certo tipo de barba bem desenhada com uma altura de rasa a média (embora não seja bem a regra, vale ficar atento a esse estereótipo), com postura de sentar e de andar que imitam o Johnny Bravo, no caso daqueles que performam uma masculinidade de padrão midiático.
Mas também existem os chavosos, que usam das marcas de masculinidade de seu grupo social – que bastante são distintas dos “Farialimers”, do centro de São Paulo – para afastarem as suspeitas do desejo “afeminado” (principalmente para se afastarem da performance da “gay POC”.
Poderíamos falar de homens evangélicos, que asseguram em si todas as doutrinas de suas igrejas e que publicamente demonstram sempre suas supostas aversões à qualquer ideia de homossexualidade. Mas que em qualquer oportunidade se reúnem com outros “varões” para realizarem seus rituais entre amigos. E, fazendo uma especulação ainda maior aqui, eu diria que os chamados “Red Pills” são os que mais representam os adeptos da brotheragem. Eles reúnem todos os signos de homens masculinistas que amam homens e odeiam mulheres, mas que se abrigam na marcação privilegiada de uma heterosexualidade.
Por mais que eu mencione esses exemplos, a título de ilustração, sempre há o risco exagerado de rotular a heterossexualidade pela estética. E, apesar de proporcionar observações engraçadas, do tanto que elas se sobrepõem, isso pode, sim, falhar. Melhor mesmo é situar que qualquer homem socializado sob esse regime pode recorrer à brotheragem. Quando não fazem isso no sigilo de seus atos, não é raro atribuírem à bebida ou a outras drogas o efeito de “perder o filtro” sobre seus desejos e comportamentos; isso quando não atribuem ao Diabo a culpa de possuir seus corpos e fazê-los pecar, ou como no caso do Bispo que disse estar fazendo “investigações” e saia de calcinha nas madrugadas. Seja como for, é notório como a heterossexualidade é uma forma socialmente instituída de controlar comportamentos a partir de privilégios, já que heterossexuais, ao contrário de homossexuais, não morrem apenas por conta de sua “orientação sexual”, e ainda podem lançar mão de artifícios para realizar seus desejos.
Ainda assim, são homens que precisam de alguma maneira demonstrar seus desejos sexuais [por vezes exagerados e compulsórios, de tão artificiais] por mulheres, quase que numa performance em que se exibe suas companheira como se elas fossem a simbologia de um “certificado” que tem por objetivo dizer “Olha aqui como eu sou homem, eu gosto mesmo é de mulher!”. Reforçam isso, curiosamente, no excesso de músicas que destacam a mulher como objeto sexual, e fazem questão de aumentar o som e de repetir a faixa se for preciso; tudo para não dar muitas margens às dúvidas.
Para completar [ou complementar] o perfil – que se mistura com o dos “heterotops” específicos de cada contexto sociocultural –, eles precisam lançar mão de outros artefatos simbólicos que os inclua cada vez mais no grupo dos “homens de verdade”, funcionando como uma tentativa contínua de se distanciarem cada vez mais do grupo dos “menos-homens”, dos “gays“, “viados” e qualquer outro termo ofensivo que designe aqueles homens fora da heteronormatividade tóxica. Essa aversão – também compulsória – cumpre o papel de construção de um muro simbólico, dotado de elementos que dificultem que alguém lhes veja como não heterossexual.
Numa sociedade que venera o cis-masculino acima de tudo e que constrói e fomenta uma imagem rígida do que é “ser homem”, tais elementos performativos ainda servem de técnicas de subjetivação. Técnicas essas que atuam sobremaneira na produção de masculinidades frágeis, tóxicas e que afetam não apenas estes homens cis-héteros, mas todas as pessoas que com eles se relacionam ou que passam por seus caminhos.
Além do sigilo, que é fundamental na brotheragem, e das performatividades citadas acima, os “brothers” têm códigos que lhes permitem detectar uns aos outros. É comum em grupos heterossexuais existir a “zombaria” e a “depreciação” acerca de comportamentos homossexuais, a humilhação “jocosa” e seletiva. Caso você frequente espaços com homens supostamente heterossexuais, observe suas conversas; é raríssimo que não haja em algum momento uma fala de cunho falocêntrico e homossexual. Essa expressões e palavreados estão inseridas na liguagem heterossexual ao ponto de orientar suas táticas inclusive de identificar um possível “brother”. Como forma simultânea de ataque e rastreio, a maioria usa expressões do tipo:
“Ah! vai dar o cú!”,
ou “Cê é louco! Se eu perder o jogo/a aposta te dou meu cú!”
“Se você perder o jogo/a aposta vai ter de dar o cu!”;
“O que foi? Está legalzinho assim comigo, por quê? Quer dar pra mim?”.
São expressões que podem ser diferentes entre si, mas que sempre culminam em práticas atribuídas a homossexuais, logo, práticas indesejadas na normatividade e da normalidade heterossexual. No entanto, quando isso acontece entre dois homens que, embora se considerando heterossexual (sobretudo na performance social visível publicamente), desejam a relação homossexual, eles agarram o sinal e cobram pelo cumprimento das expressões.
Por exemplo, na expressão “O que foi? Está legalzinho assim comigo, por quê? Quer dar pra mim?”, dita por um sujeito A, se o receptor da frase (sujeito B) responde com um “Por quê? Vai querer comer?”, existem duas possibilidades: (I) a o sujeito A responde positivamente, e ambos fecham o pacto (isso caso ambos estejam sintonizados no desejo – ou, como diz uma amiga minha, se ambos estiverem “trabalhados na vontade”); (II) num outro caminho de ação, o sujeito B responde negativamente e de modo repreensivo, algo como “Que isso, meu, tá me estranhando? Sou homem!”; e nesse caso, para fugir de ser descoberto o sujeito A lhe responde em tom de brincadeira, desfazendo aquela situação, e certamente que ele lançará mão de algum discurso machista para se blindar de potenciais interpretações. Outras combinações são possíveis, obviamente. E aposto que você já pensou em várias enquanto leu esse caso hipotético.
Apesar disso, caso o código (por exemplo, as expressões) sejam enviados e ninguém as capture no ar, a vida segue e o brother segue na sua jornada de busca, valendo sobremaneira o ditado de “jogar um verde para colher maduro”. Isto é o que torna a brotheragem uma prática ativa entre um sistema de vigilâncias e de disciplinas: códigos que são percebidos por indivíduos treinados para percebê-los, mas que podem ser emitidos em grupos quaisquer. No fenômeno da brotheragem, como em qualquer outro, para que haja sua movimentação e sua atividade é essencial uma linguagem que comunique aos seus partícipes a mensagem de base.
Seria muito sugestivo e pertinente o questionamento de como que eu – Andreone Medrado, uma travesti – posso mencionar essas características todas, perguntando-me, inclusive, de que local tiro essas fontes e percepções. Mas para além das minhas experiências pessoais, a prática está aí, revelando estes homens a cada passada de perfil no Tinder, no Grindr, e em qualquer outro aplicativo de relacionamento, mas também nas conversas atentas entre homens héteros – você nunca reparou? Eles sempre se apresentam como “Homens de verdade”, que “gostam de mulheres”, mas que “só querem se divertir”, desde que seja no sigilo.
Caso você queira ver relatos, descrições de perfis e até as fotos que esses perfis apresentam em aplicativos de relacionamento, confira o artigo“‘Curto uma pegação no sigilo’: o Grindr como território de subjetivações”, de Will Paranhos e Cláudia Maria Inácio Costa.
Homens praticantes da brotheragem, os já mencionados brothers, são sujeitos que não se permitem o conhecimento de quem são, uma vez que assumir seus desejos sexuais ao ponto comportar-se na esfera pública assumindo suas vontades resultaria sofrer a repressão historicamente instituída para que a heterossexualidade se configura um regime de poder e controle dos corpos. O poço de suas inseguranças e de seus medos é profundo o bastante para nele se afogarem a cada movimento. Demonizam a bissexualidade e a pansexualidade; não aceitam romper a casca da cis-heteronormatividade; não aceitam se questionar nem ser questionados. São seres profundamente fechados em suas carências e obsessões másculas.
Partindo do pressuposto de que nenhuma sociedade, por mais repressora que seja, é capaz de conter e “imobilizar” o desejo de seus participantes por muito tempo, estes homens supostamente heterossexuais constroem armários nos quais realizam suas vontades. A brotheragem revela, entre outras coisas, o peso que a socialização cis-masculina exerce sobre a própria sexualidade dos sujeitos a partir da violência de contenção, do sienciamento de suas emoções e da paranoia que constitui seus desejos: deve-se vigiar constantemente sua masculinidade, e nessa vigilância elege-se um inimigo que em tese atormenta a segurança do seu posto de “heterossexual”. A “feminilidade” é um desses inimigos eleitos, que passa a assumir um potencial de contaminação sobre a machulência dos sujeitos heterossexuais. E, nessa lógica cis-heteronormativa, desejar homens é uma atribuição estritamente feminina. Lógica essa que sustenta a homofobia há décadas
Ao se reconhecerem dentro de uma caixa chamada “Homem” eles se fecham para qualquer experiência que fuja do que socialmente é considerado “ser homem”. O que muitos não levam em conta, mas que poderiam fazê-lo, é que um sujeito não é menos homem porque é homossexual, bissexual pansexual ou assexual; essas particularidade não dizem respeito à masculinidade, mas à atratividade afetivo-sexual que pertence aos indivíduos de modo geral.
Assim, quando um homem acredita que precisa manter o sigilo absoluto de seus atos homossexuais, valendo inclusive enganar suas parceiras ao realizarem o comportamento sexual com outros homens, de modo escondido, isso pode ter possíveis interpretações. Uma delas é a já comentada anteriormente; ou seja, o medo da represália social proveniente da homofobia. Nesse caso, sujeitos que tem em si a percepção e o desejo de vivenciarem sua sexualidade acabam por não demonstrar publicamente seus afetos homossexuais porque sabem da estrutura social que rejeita o não-hétero.
Por outro lado, quando se fala de brotheragem, o mecanismo pode até ter uma aparência semelhante – que seria evitar repressões e retaliações sociais –, no entanto não deve ser confundida a essência, ou a motivação central do comportamento: na brotheragem o que se tenta proteger é a imagem heterossexual defendida por seus praticantes.
Ritch C. Savin-Williams demonstra em seu livro “Mostly Straight: Sexual Fluidity among Men” (em tradução livre: Predominantemente Heterossexuais: Fluidez Sexual entre Homens] (2017), pessoas heterossexuais que praticam sexo com outros homens nem por isso deixarão de ser heterossexuais. Mas os “brothers” negam a todo custo que esse desejo deva ser explicitado entre seus semelhantes héteros. Ao mesmo tempo que eles rejeitam a ideia de serem confundidos com não-héteros, eles se atraem a partir de micro pactos que, no oculto das ações, contém a homossexualidade; mas na estrutura macro, ou seja, no vivenciado socialmente eles seguem preservando características que lhes confere o privilégio heteronormativo.
O sujeito está envolto no tecido social que exerce sobre ele pressões diversas. Uma delas é a pressão de uma masculinidade normativa – que sequestra suas presas a partir de suas garras de privilégios que, de um jeito ou de outro, ainda confere algum privilégio por ser um “homem hétero”. Logo, a brotheragem informa mais sobre um pacto silencioso de homens que buscam sustentar a heterossexualidade que os rotula e os protege. Essa ação pactual, por sua vez, reforça todos os estigmas contra pessoas não heterossexuais. É necessário, para seu funcionamento, que haja todo uma gama de “comportamentos sujos” (não heterossexuais) para que o comportamento heterossexual seja tomado como puro, higienizado, desejável e, portanto, ideal; é assim que o cissexismo opera.
Entre outros, o produto que emerge desse caldo de negações e repressões (externas e internas) é, de um lado, o conjunto de homens que não se permitem conhecer seus corpos e seus desejos com mais intensidade; não conseguem sentir seus prazeres com mais leveza; são criaturas reprimidas no plano público em várias dimensões. De outro lado, estão os efeitos gerados sobre todas as pessoas que se relacionam com esses homens. Suas companheiras não são necessariamente desejadas pelo que são enquanto mulheres e pessoas; e que seja repetido aqui: muitas vezes seus papéis enquanto companheiras são restritos (ou primordialmente alocados) ao posto de dispositivos sexuais/afirmativos de uma heterossexualidade estética.
Dito de outro modo, suas companheiras são acionadas quase que exclusivamente para afirmar que aquele homem [o brother] gosta de mulheres. O problema disso é, entre muitos outros, que mais uma vez essas mulheres não são valorizadas; não são lidas por homens, não são ouvidas nem consideradas em sua totalidade que não a erótico-sexual. Não é descabido pontuar que isso contribui para o feminicídio, em decorrência da misoginia, e para os casos de violência de gênero: se um corpo na sociedade não é reconhecido como um corpo digno, ele logo passa a se autorizado pélo próprio cistema como corpo matável – essa é a lógica operante colonialista que tem construído Estados genocidas.
Uma consideração que merece outro texto tem a ver com a fetichização de travestis: na tentativa de buscar por um prazer com o pênis, muitos brothers são criados na ideia transfóbica de que travestis são homens vestidos de mulher, e tentam com isso realizar seus prazeres, novamente, a partir da objetificação de certos corpos. Isso também tem relação com o transfeminicídio, uma vez que não é raro ver casos em que travestis são mortas depois do sexo – seria para esconder as provas que condenariam a heterossexualidade do homem? Pense aí!
* * *
Assim, num sistema que opera em diferentes dimensões, um fenômeno social nunca atua sozinho, tampouco ele afeta apenas uma dimensão no tecido sociocultural. E o fenômeno da brotheragem é um desses que atua em diferentes níveis. Esse texto tem o objetivo de suscitar o debate acerca desse fenômeno, jamais de encerrá-lo.
Brotheragem poderia até ser pensada como o nome dado ao desejo dos homens de viver sua sexualidade, mas que para não perder o lugar no privilégio hétero submetem-se à mais profunda atitude degradante: negar quem podem ser e o que podem sentir. Mas podemos ir mais longe. Brotheragem não é o nome do sexo entre homens que se dizem heterossexuais, é o nome do mecanismo sócio-político que permite que esse fazer-sexual aconteça sem que a heterossexualidade perca seu estatuto de privilégio. É um pacto silencioso que protege, mais que a esses homens, a heterossexualidade que os acomoda.
Se a brotheragem nos ensina algo útil, talvez seja que a heterossexualidade nunca tenha sido apenas uma orientação sexual. Ela funciona como um regime político de reconhecimento que distribui legitimidades, produz privilégios e administra quais desejos podem existir à luz do dia e quais precisam sobreviver no subterrâneo do sigilo. É justamente por isso que a brotheragem não pode ser reduzida à curiosidade sobre homens que fazem sexo com outros homens. Ela revela um dos modus operandi pelos quais o Cistema organiza afetos, corportamentos e violências, transformando a masculinidade cis-heterossexual em patrimônio a ser permanentemente protegido.
E, como já apontavam as leituras de C. Riley e Jane Ward, esse regime nunca opera da mesma maneira para todos os corpos; ele é atravessado pela raça, pela classe, pela territorialidade e por outras relações de poder que mobilizam subjetividades e reconhecimento social.
Quiçá reste perguntar, então, quantos outros pactos silenciosos ainda sustentam a ficção da heterossexualidade compulsória e quantas outras formas de desejo permanecem invisíveis porque a nossa imaginação política continua aprisionada pelas categorias que o próprio cistema produziu. A brotheragem é apenas uma dessas fissuras.
Andreone Medrado é negra, travesti, monstra, neurodivergente, baiana, não monogâmica e não heterossexual. De formação é bióloga (UNIFIEO), psicóloga (USP), mestre em Fisiologia Humana (IB-USP) e doutora em Psicologia (IP-USP). Sua pesquisa investiga as relações entre nojo, desejos e afetividades, gênero e sexualidade, com foco nas dinâmicas de poder e nos marcadores sociais da diferença. Articula Psicologia Crítica, teorias anticolonialistas e estudos de gênero para analisar como o desejo e os afetos são regulados por discursos normativos. É co-autora de Não Monogamia: trânsitos entre raça, gênero & sexualidade (2023) e autora de Ensaios Sobre o Colonialismo: higienização, corpos, fé e subjetividades em disputa (2025), ambos pela editora Telha; e autora de Políticas Afetivas da Desobediência (2026), pela Editora Mandaçaia e O amor nunca vem só, pela editora Planeta. É docente, palestrante e escritora, e também fundadora do Podcast Devaneios Filosóficos.