Doze anos após a sua estreia literária com “Tudo é Rio”, Carla Madeira lança nesta sexta-feira (14) seu quarto romance, “Quando”.
Hoje, a escritora mineira é um dos maiores fenômenos do mercado editorial nacional, com mais de 1,2 milhão de exemplares vendidos. “Existe uma ideia mercadológica de sucesso, que é o livro vender. Mas tem um outro tipo de sucesso de muito mais interesse para mim agora: o sentimento de amadurecer como autora”, diz em entrevista à Forbes Brasil.
Até outubro de 2025, Carla equilibrava a rotina literária com o cargo de diretora na agência de comunicação Lápis Raro, que cofundou há quase 40 anos. Decidiu vender a empresa para o grupo Partners e continuar apenas como conselheira para focar na escrita em tempo integral.
A autora vivia um hiato de publicações desde “Véspera”, de 2021. Entre um romance e outro, ela enfrentou um período turbulento, com perdas pessoais ao seu redor. A arte, então, serviu como âncora durante a travessia. “Escrever é um jeito meu de estar no mundo, de lidar com o real também. Embora seja ficção, é uma coisa que me sustenta.”
O resultado do processo de criação é uma narrativa polifônica e complexa. “Quando” acompanha a odisseia de uma mãe doente à espera do retorno do filho que ela mesma denunciou duas décadas antes.
Durante a Flip, Carla recebeu o feedback do escritor Valter Hugo Mãe de que era o seu melhor trabalho até ali. Mas ela ainda aguarda para saber a reação do público. “A literatura é sempre um certo fracasso do autor em entregar toda a sua intenção. E é nesse fracasso que mora a subjetividade.”
Hoje, suas obras estão prestes a chegar às telas: “Véspera”, já gravada no formato de série com Bruna Marquezine e Gabriel Leone no elenco, aguarda uma data de estreia oficial na HBO Max; “Tudo é Rio” está em processo de roteiro para o cinema; e “A Natureza da Mordida” teve seus direitos comprados para adaptação.
A romancista festeja as sementes plantadas lá atrás. “Trabalhava 12 horas por dia e, de repente, escrevi um livro. Agradeço àquela figura aos 50 anos que não escapou da linguagem como recurso na loucura vivida na época.”
A seguir, Carla Madeira detalha os bastidores do novo título, a mudança de rumos na carreira e o atual cenário editorial para as mulheres no Brasil.
Forbes: O que os leitores podem esperar de diferente em “Quando”?
Carla Madeira: É um romance que trabalha com o contexto familiar, algo constante nos meus livros, mas ele é uma polifonia. Existe um narrador, mas os personagens tomam a palavra.
Em “Tudo é Rio”, fiz isso de maneira tímida; o narrador se contagiava com a perspectiva da personagem e a voz vazava sem traço gráfico. Agora, eu radicalizei. O narrador conta a história e os personagens pegam a voz dele. Você lê, acha que é o narrador, e percebe que já é o personagem. Isso permite que a história seja contada do ângulo de maior interesse na cena.
Qual é a importância do protagonismo feminino nas suas histórias?
É natural, não é racional. Como tenho uma curiosidade e uma questão minha muito ligada à maternidade, essas mulheres protagonistas sempre acontecem no livro. Mas, neste novo romance, tenho também uma figura masculina muito importante, desde a fase criança até a de adolescente.
A sua rotina de escrita para este livro durou cerca de quatro anos. Como foi esse processo, desde a primeira ideia até fechar a história?
Foi bem caótico. Eu atravessei uma sequência de lutos e, em um dado momento, precisei escrever, porque é um jeito meu de estar no mundo, de lidar com o real. No início, foi muito desordenado. Eu atravessava um momento de muitos desafios na agência [Lápis Raro], onde eu trabalhava de 10 a 12 horas por dia, com a minha sócia doente — uma das pessoas que perdi. Chegava em casa e escrevia num momento em que aquilo pesava muito para mim.
E como esse caos inicial se transformou na história final?
Enquanto escrevia, não sabia o que tinha acontecido, mas sabia da separação entre uma mãe e um filho, e que ela nutria a expectativa de sua volta. Essa mãe denunciou o filho e eles ficaram 20 anos sem se ver. É uma odisseia: ela está doente, na iminência da morte, à espera sem saber se ele vai vir.
Durante toda a escrita, eu não sabia o porquê da denúncia ou o que aconteceu antes e depois. O grande trabalho desse livro foi a carpintaria no texto, na estrutura e nas vozes. Deixar esse caos vir e depois organizar tudo me sustentou muito, porque me colocou dentro do livro e fora de toda aquela dor. Tive uma primeira versão escrita em setembro do ano passado e precisei de um ano para refinar, mudar nomes e me separar dele emocionalmente.
Você publicou seu primeiro livro aos 50 anos, à época em que mantinha uma rotina corporativa intensa. Como avalia aquele momento hoje?
Eu diria: “Que bom que você fez”. Trabalhava doze horas por dia e, de repente, escrevi um livro sem prazo, sem ninguém cobrar. Sempre achei que a minha via criativa era a música, pelo canto e pela composição. Fico muito grata por descobrir a escrita. É menos aconselhar e mais agradecer àquela figura aos 50 anos que não escapou da linguagem como recurso na loucura vivida na época.
Com essa trajetória, o significado de sucesso mudou para você?
Existe uma ideia mercadológica de sucesso, que é o livro vender, o que é maravilhoso. Mas tem um outro tipo de sucesso de muito mais interesse para mim agora: o sentimento de amadurecer como autora.
Fiz uma mesa com o Valter Hugo Mãe na Flip, ele leu os originais impressos de “Quando”, me entregou tudo riscado com comentários e disse: “É o seu melhor livro”. Foi muito bom ouvir isso de alguém que avalia questões que hoje eu também observo, já que agora leio não apenas como leitora, mas como escritora.
Hoje, os seus livros viraram palco para discussões de temas complexos. Como você enxerga essa ressonância com o público?
O livro não tem o objetivo de mandar um recado social ou pautar nada, é uma viagem introspectiva. Mas quando isso acontece, é muito legal, vira uma ocasião de conversar sobre coisas importantes para o tempo atual.
Acho que as pessoas se identificam porque essas questões já fervem dentro delas. É a sincronicidade da literatura. Nos agradecimentos de ‘Quando’, cito um poema de Borges e agradeço por essa sincronicidade, de um poema chegar para mim na hora em que estou pronta para ler. Se a pessoa não tem preparo, passa batido.
Como você avalia a entrada de novas escritoras no mercado editorial brasileiro?
Há um movimento forte de mulheres maravilhosas que chegam juntas para encorpar o cenário, e o mercado editorial abre espaço, porque quer mulheres na escrita. Isso é um acontecimento muito importante para a literatura brasileira. O leitor se abre de uma maneira regional e para as mulheres, autoras de obras incríveis hoje.
Seus livros vão ganhar adaptações para o audiovisual. Sempre foi um desejo ver suas histórias nas telas?
Fiquei muito feliz quando essa perspectiva se desenhou concretamente. “Véspera” é uma série já gravada, pronta, só à espera da HBO dizer quando vai para o ar. “Tudo é Rio” está na etapa de teste de elenco para virar filme, já em processo de roteiro. “A Natureza da Mordida” também já tem os direitos comprados.
Estou feliz que o audiovisual reconte essas histórias com os recortes necessários para uma adaptação. O leitor não precisa comparar, simplesmente deve aproveitar a nova experiência. E é também um jeito de atrair novos leitores.
Como fica a sua rotina agora, neste período de lançamento?
Começa uma fase bem intensa de conversas, entrevistas e sessões de autógrafos. Já tenho lançamentos marcados no Rio, em São Paulo e vou para Portugal também, com o lançamento simultâneo lá.
Fico um pouco fora das redes sociais, só tenho o Instagram para divulgar a agenda e manter uma breve interlocução, mas não acompanho muito. Então acho muito bom ir para os eventos, porque é a vida real, é uma maneira de sentir as pessoas de perto.
Para além do trabalho, quais são as suas paixões hoje?
Sou muito caseira. Tenho uma casa num lugar mais no campo, na mata, e gosto muito de ir para lá ler, ouvir música, cozinhar e ficar na mesa em conversas. Gosto também de caminhadas. Hoje faço meditação todos os dias para dar uma silenciada nessa vida interior muito intensa de vozes e frases.
O que leu recentemente?
Terminei uma leitura coletiva da Odisseia; li Só Depois Entenderemos, do Alexandre Vidal Porto; e me impactou muito Os Imortais, da Pauline Torte.
Você já pensa nas próximas histórias que quer contar?
Não quero criar nenhuma expectativa agora. Preciso de umas férias mais longas. Quero retomar algumas atividades: gosto muito de pintar e queria voltar a estudar música. Ainda não experimentei esse tempo livre desde a venda da agência, então preciso lidar com coisas de rotina mesmo, como organizar a minha casa e meus armários. Só depois vou começar a pensar no que quero escrever.