Os ETFs à vista de Bitcoin se consolidaram como uma das principais forças de demanda do mercado desde sua aprovação nos Estados Unidos. Com cerca de US$ 77 bilhões sob gestão, a movimentação desses fundos passou a exercer influência relevante entre o equilíbrio entre oferta e demanda.
O ponto de maior pressão ocorreu em junho de 2026, quando os fundos registraram aproximadamente US$ 4,51 bilhões em saídas líquidas, o maior volume mensal de resgates desde o lançamento dos ETFs spot. O movimento ampliou a oferta em um período de forte aversão ao risco e contribuiu para pressionar o Bitcoin.
Desde então, porém, a dinâmica começou a mudar. Julho encerrou com cerca de US$ 172 milhões em entradas líquidas e, em agosto, até o momento, as entradas já superam US$ 713 milhões.
Ainda é cedo para falar em retomada definitiva da demanda institucional, mas a mudança é relevante. Depois de quase US$ 7 bilhões em saídas entre maio e junho, os ETFs voltaram ao campo positivo.
Enquanto parte dos investidores reduzia exposição por meio dos ETFs, outro grupo seguia na direção oposta.
Baleias acumulam na contramão do mercado
Ao longo de 2026, enquanto parte dos investidores reduziu exposição, as grandes carteiras de Bitcoin continuaram aumentando suas posições.
As chamadas baleias — investidores com mais de 1.000 BTC, excluindo exchanges e pools de mineração — concentram atualmente cerca de 3,04 milhões de BTC, um dos maiores saldos do ano e muito próximo das máximas de 2026.
No início de janeiro, esse grupo detinha aproximadamente 2,92 milhões de BTC. Desde então, foram adicionados cerca de 120 mil BTC às suas posições, volume que, aos preços atuais próximos de US$ 64 mil, equivale a aproximadamente US$ 7,7 bilhões em Bitcoin.
O mais interessante é justamente o momento em que essa acumulação aconteceu. Enquanto os ETFs registravam bilhões de dólares em saídas, principalmente entre maio e junho, as baleias continuavam aumentando exposição.
Em outras palavras, parte do Bitcoin colocado à venda por investidores mais sensíveis às quedas parece ter sido absorvida por participantes de maior porte e com horizonte mais longo.
Esse contraste entre ETFs vendendo e baleias acumulando ajuda a explicar uma dinâmica típica dos períodos mais extremos do mercado.
Capitulação: quando o Bitcoin muda de mãos
A combinação entre fortes resgates nos ETFs e aumento simultâneo do saldo das baleias sugere que o mercado pode estar passando por uma importante troca de mãos.
Parte relevante das posições construídas via ETFs veio de investidores que tiveram acesso ao Bitcoin de maneira mais simples, mas que nem sempre possuem a mesma familiaridade com sua volatilidade e seus ciclos históricos.
E a mesma facilidade que permite comprar exposição ao Bitcoin por meio de um ETF também torna simples encerrar a posição diante de uma sequência de quedas, deterioração do sentimento ou aumento das incertezas macroeconômicas.
Foi justamente isso que ganhou força entre maio e junho. Investidores reduziram exposição, enquanto grandes detentores seguiram acumulando. Esse comportamento é característico de períodos de capitulação.
O capital mais sensível à volatilidade abandona suas posições, enquanto investidores com maior convicção aproveitam preços deprimidos para aumentar exposição.
Na prática, o Bitcoin passa das mãos de quem já não tolera mais a queda para aqueles que enxergam valor justamente quando o pessimismo domina o mercado. E é essa combinação que torna o momento atual particularmente interessante.
Uma configuração que aparece poucas vezes
Capitulação não significa necessariamente que o fundo definitivo já tenha sido atingido. Novas quedas continuam sendo possíveis.
Ainda assim, o mercado começa a reunir uma combinação pouco frequente dentro dos grandes ciclos do Bitcoin. O ativo voltou a negociar próximo aos níveis observados em fevereiro, enquanto sua volatilidade permanece historicamente comprimida.
Ao mesmo tempo, a pressão vendedora dos ETFs diminui, os fluxos voltam ao campo positivo e as baleias seguem acumulando próximas das máximas de 2026.
Tudo isso acontece em um ativo cuja oferta máxima é limitada a 21 milhões de unidades e com mais de 95% de todos os bitcoins que existirão já minerados.
Ou seja, temos simultaneamente preços deprimidos, menor volatilidade, redução da pressão vendedora e aumento da concentração de Bitcoin nas mãos de investidores mais convictos.
Esse tipo de configuração não aparece todos os anos.
Historicamente, períodos de forte pessimismo, compressão de volatilidade após grandes correções e transferência de moedas para investidores de longo prazo costumam surgir nos momentos mais importantes de transição dos grandes ciclos.
Isso não significa que uma recuperação seja imediata. Mas sugere que a relação entre risco e retorno começa novamente a se tornar mais interessante.
Se os ETFs continuarem retomando compras ao mesmo tempo em que as baleias mantêm o ritmo de acumulação, poderemos assistir a uma mudança importante na dinâmica de oferta e demanda.
E, em um ativo estruturalmente escasso como o Bitcoin, basta que a demanda volte a crescer enquanto a oferta disponível diminui para que o equilíbrio do mercado mude rapidamente.
Talvez estejamos diante de uma daquelas oportunidades que aparecem poucas vezes — e que normalmente só parecem óbvias quando já ficaram para trás.
Sobre o autor
Felipe Martorano é analista CNPI, Head de Análise Cripto da Levante Investimentos e investidor em criptoativos desde 2017.