O dólar à vista encerrou a sessão de hoje em alta frente ao real. O preço do câmbio foi em parte conduzido pelo cenário externo menos favorável, com a moeda americana mais forte na maioria dos mercados mais líquidos, em sessão marcada pelo temor com a alta das taxas de longo prazo nos países desenvolvidos.
Outra parte da dinâmica do real se justificou pelo maior risco embutido nos ativos locais por conta de notícias sobre o avanço da PEC 6×1 no Senado. Isso teria levado o dólar às máximas do dia na parte da tarde. A medida é vista pelos agentes como um fator que pode beneficiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa eleitoral neste ano. A eventual reeleição de Lula eleva o prêmio de risco dos ativos por conta do temor com a questão fiscal.
Encerradas as negociações desta terça-feira, o dólar à vista fechou em alta de 0,40%, cotado a R$ 5,2216, depois de ter encostado na mínima de R$ 5,1902 e batido na máxima de R$ 5,2221. Já o euro comercial apreciou 0,36%, a R$ 6,0435. Perto das 17h15, no exterior, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, seguia estável (+0,03%), aos 99,667 pontos.
O dólar à vista abriu a sessão de hoje em alta, chegou a reverter o sinal no fim da manhã, mas depois voltou a avançar contra o real. Em boa parte da sessão, a dinâmica esteve alinhada com o exterior. Mais perto do fim do pregão, houve uma piora mais concentrada no real, o que gestores e traders viram como um possível aumento no risco por conta do avanço da PEC 6×1 no Senado. “Para ser honesto, a meu ver o mercado está até calmo com tudo o que temos visto”, diz um gestor. “Mas o avanço da PEC deve ter ajudado a piorar os ativos locais.”
Em nota a clientes, o Citi aponta que, embora a casa tenha observado algumas saídas de recursos do Brasil na semana passada, houve pouca movimentação entre os investidores alavancados, que continuam mantendo posições compradas relevantes em real.
“O cenário político mudou materialmente na última semana, com pesquisas recentes apontando para uma disputa presidencial mais acirrada entre Lula e Flavio, embora Lula ainda mantenha a dianteira. Embora atribuamos o desempenho inferior do real na semana passada a saídas temporárias do mercado de ações, reconhecemos que oscilações maiores na volatilidade do real podem se tornar a norma nos próximos meses, particularmente na preparação para o primeiro turno das eleições presidenciais.”
Também de olho no período eleitoral, o estrategista-chefe de moedas do BMO, Mark McCormick, diz em nota que o prêmio de risco eleitoral ainda não está totalmente precificado no câmbio brasileiro. “Alertamos sobre a persistência do risco eleitoral no Brasil algumas semanas atrás, e conversas recentes com clientes sugerem que os investidores estão cada vez mais questionando se esse prêmio de risco já está precificado. Nossos sinais indicam que não.”
Para o banco, um movimento do dólar em direção a R$ 5,50 parece plausível caso o carry seja desmontado ao mesmo tempo em que o prêmio de risco eleitoral atinja o real. “A moeda brasileira e a América Latina também estão entre os mercados com maior beta ao nosso fator de crescimento da China, o que adiciona risco de queda caso a China continue perdendo dinamismo.”