O voluntariado ganhou espaço entre os brasileiros nas últimas décadas, mas as empresas ainda têm participação limitada nesse movimento. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha mostra que 35% da população com 16 anos ou mais realiza atualmente algum tipo de trabalho voluntário, o equivalente a cerca de 60 milhões de pessoas. Desse grupo, apenas 9% atuam por meio de uma empresa.
O levantamento, realizado em março de 2026 com 2.004 pessoas em 137 municípios de todas as regiões do país, faz parte da Pesquisa Voluntariado no Brasil, que acompanha a evolução do tema desde 2001. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
A proporção de brasileiros que fazem ou já fizeram algum trabalho voluntário também cresceu. Segundo o estudo, 60% afirmam ter realizado alguma atividade voluntária ao longo da vida. Em 2001, eram 18%; em 2011, 25%; e, em 2021, 56%.
O avanço, no entanto, vem acompanhado de uma mudança na forma de participação. Entre os voluntários atuais, 24% realizam atividades sem frequência definida, enquanto 11% mantêm uma atuação regular. A dedicação média é de 3,6 horas por mês.
Espaço para o voluntariado empresarial
A pesquisa mostra que o chamado voluntariado empresarial ainda representa uma fatia pequena do universo. Apenas 9% dos voluntários ativos dizem realizar suas atividades por meio de uma empresa. O levantamento identifica, ao mesmo tempo, a necessidade de que as companhias repensem seus programas diante de um voluntário mais flexível e de diferentes gerações e expectativas.
O perfil dos voluntários também ajuda a dimensionar esse público. A idade média é de 45 anos, metade é formada por mulheres e metade por homens. Entre os voluntários ativos, 71% fazem parte da população economicamente ativa. Mais da metade (53%) tem renda familiar de até dois salários mínimos.
A pesquisa indica ainda que a participação não está concentrada exclusivamente entre pessoas de maior escolaridade ou renda. Entre os voluntários atuais, 36% têm ensino fundamental, 38% ensino médio e 30% ensino superior.
A principal motivação para o voluntariado é a solidariedade. Entre as pessoas que fazem ou já fizeram trabalho voluntário, 73% apontam “ser solidário e ajudar os outros” como razão para participar. Motivações religiosas aparecem em segundo lugar, com 9%, seguidas por “fazer a diferença e melhorar o mundo”, “melhorar minha autoestima” e “dever de cidadania”, todas com 5%.
Falta de tempo é principal barreira
Apesar do crescimento, 65% dos brasileiros com 16 anos ou mais não realizam atualmente nenhuma atividade voluntária. A principal barreira é a falta de tempo, apontada por 52% das pessoas que não fazem voluntariado atualmente ou nunca fizeram.
O segundo obstáculo mais citado é o desconhecimento sobre oportunidades: 12% dizem não conhecer organizações, projetos ou oportunidades de voluntariado. Outros 9% mencionam a falta de convite sobre como participar.
Os dados sugerem que o desafio não está apenas na disposição das pessoas. Entre aqueles que nunca participaram de uma atividade voluntária, 42% afirmam ter interesse em fazê-lo. A fome, a pobreza e a desigualdade são as causas que mais despertam interesse, citadas por 51%, seguidas por saúde, com 43%, e educação, com 32%.
Para organizações e empresas, esse contingente representa um público potencial que pode ser alcançado por iniciativas mais acessíveis e compatíveis com a disponibilidade dos trabalhadores.
Entre as pessoas que fazem ou já fizeram trabalho voluntário, fome, pobreza e desigualdade aparecem como a principal área de atuação: metade dos entrevistados já participou de iniciativas relacionadas ao tema. Saúde aparece em 24% das respostas e educação, em 22%.
Também aparecem entre as áreas de atuação bem-estar animal (17%), situações emergenciais, desastres naturais ou crises humanitárias (15%), cultura de paz e bem comum (14%), cidadania, inclusão e garantia de direitos (13%) e sustentabilidade ambiental e mudanças climáticas (8%). Cada entrevistado citou, em média, duas áreas de atuação.
A pesquisa aponta, assim, uma conexão entre as causas escolhidas pelos voluntários e temas presentes na agenda de desenvolvimento sustentável. O estudo destaca que combate à fome e à pobreza, saúde, educação, cidadania, igualdade de gênero e sustentabilidade dialogam diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030.
Voluntariado mais espontâneo
O levantamento identifica como uma das principais tendências o crescimento do protagonismo individual. A maioria dos voluntários ativos prefere organizar sua participação por conta própria, em vez de fazê-lo por intermédio de empresas, igrejas ou organizações.
Do total de voluntários ativos, 83% realizam as atividades por conta própria. Outros 4% atuam por meio de instituições religiosas e 2% por associações, instituições ou ONGs. Em 2021, a participação por iniciativa própria era de 76%.
Ao mesmo tempo, a participação eventual ganha espaço. Dos 35% que atualmente fazem trabalho voluntário, 24% atuam sem frequência definida, enquanto 11% mantêm uma rotina regular. Para os responsáveis por programas de voluntariado, o cenário coloca o desafio de criar oportunidades que acomodem uma participação menos rígida.
A pesquisa também aponta que o voluntariado brasileiro se tornou mais diverso e que organizações precisam se adaptar a diferentes formas de participação, gerações e expectativas. Entre os pontos colocados para discussão estão justamente a flexibilidade dos programas, o envolvimento dos jovens e o papel do voluntariado empresarial.
Na avaliação apresentada pelo estudo, o próximo desafio é transformar o interesse em participação efetiva. A pesquisa recomenda que estratégias de engajamento sejam mais inclusivas, acessíveis e acolhedoras e aponta os dados como uma possível base para decisões, políticas, programas e parcerias voltados ao fortalecimento do voluntariado no país.