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sexta-feira, agosto 28, 2026

Brasileiros assumem papel de destaque no desenvolvimento open source do Bitcoin

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Menos de um ano depois de entrar em um programa de formação em São Paulo, o desenvolvedor Erick Cestari estava em Berlim, apresentando sua pesquisa de segurança em uma das principais conferências internacionais da rede Lightning. No mesmo período, passou quatro meses como estagiário de engenharia de segurança na Lightning Labs, uma das empresas mais importantes do ecossistema Bitcoin no mundo.

A trajetória não é exceção. O relatório de quarto ano da Vinteum, organização sem fins lucrativos que financia o desenvolvimento open source de Bitcoin no Brasil e na América Latina, publicado hoje, mostra que a primeira turma do seu programa de formação, o Bitcoin Dev Launchpad, produziu resultados concretos: ex-participantes conquistaram grants independentes de organizações internacionais como OpenSats e BDK Foundation, foram contratados por empresas globais do setor, Boltz, Second e Lightning Labs — e dois deles se tornaram grantees da própria Vinteum.

A Vinteum também apoiou a participação de contribuidores em conferências, workshops, residências e encontros de colaboração no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Essas experiências permitem que desenvolvedores brasileiros trabalhem diretamente com mantenedores, pesquisadores e outros contribuidores, construindo as relações e a confiança necessárias para uma participação duradoura em projetos globais.

Hoje, 36 membros da comunidade Vinteum trabalham ativamente em desenvolvimento open source de Bitcoin, o software de código aberto que sustenta a rede globalmente. Desses, 8 são desenvolvedores financiados diretamente por grants da organização e 13 são fellows em formação em tempo integral.

O desafio de formar desenvolvedores na era da IA

O achado mais inesperado do relatório está na segunda turma do programa, que precisou ser reformulada por causa da inteligência artificial. Ferramentas de IA hoje produzem código plausível mesmo quando quem as usa não entende de fato o problema — o que tornou insuficiente avaliar candidatos apenas pelo que entregam.

A resposta da Vinteum foi mudar o que se mede: discussões individuais, revisão iterativa e a capacidade de explicar, defender e melhorar as próprias decisões passaram a pesar mais que o volume de código produzido.

Antes de enviar contribuições aos projetos oficiais, oparticipantes passaram a trabalhar em cópias supervisionadas, revisadas internamente por desenvolvedores experientes — e mantenedores de projetos internacionais comentaram positivamente a maturidade das contribuições que passaram por esse filtro.

“Nosso objetivo não é maximizar o número de pessoas entrando no programa ou a quantidade de pull requests produzidos”, afirma Lucas Ferreira, cofundador e diretor-executivo da Vinteum. “Queremos ajudar mais pessoas a se tornarem contribuidores independentes, confiáveis e capazes de assumir responsabilidades de longo prazo em projetos open source de Bitcoin.”

Esse modelo é, por desenho, intensivo e personalizado: cada desenvolvedor recebe mentoria próxima e acompanhamento individual, com discussões sustentadas sobre suas decisões técnicas — o que significa que o programa cresce de forma deliberadamente seletiva, priorizando profundidade em vez de volume.

A seleção da segunda turma reflete esse rigor: mais de 300 inscritos, 133 selecionados para iniciar, 23 convidados para a residência presencial e, ao final, 12 fellowships e 2 grants diretos para os que demonstraram maior preparo para o trabalho de longo prazo.

“Minha jornada no open source começou com o Bitcoin Dev Launchpad da Vinteum, que se tornou minha porta de entrada para o ecossistema Bitcoin e que, olhando para trás, foi quase uma Disneylândia para mim”, conta Lucas Balieiro, participante da primeira turma do programa.

“Depois do programa, fui selecionado para um fellowship e comecei a contribuir diretamente para a Stratum V2 Reference Implementation” — o software de referência do protocolo que dá a mineradores individuais mais controle sobre a construção de blocos.

Um ecossistema que cresce além da organização

O relatório também registra a expansão da infraestrutura em torno do desenvolvimento de Bitcoin no Brasil: foram 67 encontros técnicos de comunidades BitDevs em nove cidades ao longo do ano, mais de 120 estudantes de oito universidades alcançados pelo Bitcoin Students Day, e dezenas de sessões online semanais recorrentes entre grupos de estudo, mentorias públicas e office hours. A Casa21, espaço físico da organização em São Paulo, passou a operar também como infraestrutura técnica compartilhada, com servidores dedicados a testes e pesquisa.

Para o próximo ano, o desafio declarado no relatório é “consolidação com direção”: criar portas de entrada mais contínuas para novos desenvolvedores, por meio de seminários, universidades, comunidades locais e da Casa21, sem abrir mão do acompanhamento intensivo que os resultados da primeira turma mostraram ser decisivo.

O relatório completo está disponível aqui.

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