Candidato à Presidência pelo Avante, o médico e escritor Augusto Cury defendeu que o Sistema Único de Saúde (SUS) adote o modelo de telemedicina para 80% das consultas básicas, durante entrevista à TV Globo neste sábado (29). Ele negou que haja conflito de interesse na proposta pelo fato de ser embaixador — e até 2023 figurar no quadro societário — de uma empresa de telemedicina. Na entrevista, o presidenciável defendeu ainda taxar bets em 50%, sugeriu reajuste real de 1% do salário mínimo, mas não detalhou como pretende ajustar contas públicas e indicou, por exemplo, que o aumento da produtividade das empresas por meio do uso de inteligência artificial e robótica seria suficiente para tratar do déficit na Previdência.
A menção ao potencial conflito de interesses ocorreu quando Cury foi questionado sobre o seu plano para a saúde. O candidato defende, em seu plano de governo, “desafogar o SUS ao atender certa de 80% das consultas básicas e, assim, as consultas com especialistas que às vezes demoram mais de 50 dias, serão atendidas com maior rapidez”.
“Sob hipótese alguma [haveria conflito]”, afirmou Cury, quando questionado.
Ao ser perguntado novamente sobre a existência de conflito de interesse, Cury disse que “não sou mais embaixador desse programa, sou alguém que tem experiência”. O nome do candidato, no entanto, consta no site da empresa. Cury defendeu que a menção ao seu nome fosse retirada. “Tire imediatamente”.
Médico psiquiatra, Cury afirmou que o modelo de telemedicina é bem-sucedido nos Estados Unidos e na Europa. Disse ainda que respeita o Conselho Federal de Medicina (CRM), mas que ele precisa ser “atualizado” pois o mundo está passando por “uma revolução tecnológica sem precedentes”.
A entrevista começou com um questionamento sobre a dívida pública, hoje em mais de 80% do PIB e em trajetória de alta. Questionado sobre como trataria a questão, Cury não detalhou propostas e falou sobre a necessidade de medidas como corte de ministérios e combate à corrupção. As medidas, no entanto, são mais associadas a ganhos de eficiência do Estado e têm impacto limitado sobre as contas públicas.
Ele também indicou que seria possível economizar com gastos do funcionalismo com o uso de inteligência artificial, sem detalhar a proposta.
“Se tivermos responsabilidade de gerir de maneira adequada e inteligente toda a máquina pública e não contratarmos mais colaboradores, entrarmos com inteligência artificial e digitalizarmos tudo, toda a máquina pública, nós certamente conseguiríamos economizar o suficiente”, disse o candidato.
O candidato afirmou que a dívida pública está “em níveis estratosféricos” e que é preciso fazer um ajuste de gastos com medidas como corte de cerca de 50 mil cargos comissionados, revisão de contratos, combate à corrupção e ajuste no Bolsa Família. Ele defendeu, no entanto, a manutenção do arcabouço fiscal.
Cury também descartou a possibilidade de uma reforma da Previdência, ao afirmar que o problema poderia ser tratado com o ganho de produtividade das empresas.
“Eu não sou a favor de uma nova reforma em hipótese alguma, mas sou a favor de aumentar dramaticamente a produtividade, usando inteligência artificial e robótica e também preparando as empresas para serem 4.0”, afirmou.
Sob a ótica da arrecadação, o ajuste deveria ser feito, na opinião de Cury, com aumento da taxação das bets para patamar acima de 50% – hoje elas são taxadas em 12%. Além disso, ele demonstrou preocupação com os impactos da criação do CBS para micro e pequenas empresas.
Cury defendeu ainda um aumento real do salário mínimo de 1% ao ano. O objetivo, segundo Cury, é que o país desenvolva uma “classe média pujante”.
Hoje, já existe uma regra que prevê aumento real do mínimo. Segundo a fórmula, o aumento deve ser equivalente à inflação somada à variação do Produto Interno Bruto (PIB) registrada dois anos antes. A proposta do candidato, portanto, poderia representar uma alta menor do que a possível no modelo atual, dependendo desses parâmetros.
Ainda sobre o quadro fiscal, Cury disse que pretende cortar entre oito e dez ministérios. No entanto, defendeu a criação de uma secretaria ou ministério de inteligência artificial e da robótica. O órgão seria necessário para “neutralizar a perda do bônus demográfico” e evitar que o Brasil “seja atropelado” e gere “milhões de desempregos”. Cury também defendeu a criação de um ministério da segurança pública.