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quarta-feira, setembro 2, 2026

Investimentos e consumo em baixa esfriam economia

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— Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

A economia brasileira esfriou rapidamente no segundo trimestre do ano, em um movimento que deve perdurar nos próximos trimestres. O Produto Interno Bruto (PIB) do período cresceu 0,5% em relação ao trimestre anterior, ligeiramente acima do esperado, mas sua composição não disfarça a tendência baixista. O consumo das famílias teve desempenho pior do que o previsto — economistas consultados pelo Valor esperavam aumento de 0,6% e o resultado foi de 0,4% negativo. E, como termômetro pelo lado da demanda, os serviços (69,5% do PIB) evoluíram apenas 0,2%.

Estímulos oficiais à demanda não faltaram. O volume autorizado para crédito garantido ou subsidiado atingiu R$ 281,9 bilhões, ou 2,1% do PIB no ano, e a despesa financeira paga pelo governo federal (exclui juros), após bater recorde em 2025, atingiu, somente nos sete primeiros meses de 2026, 1,09% do PIB, segundo Luiz Schymura, pesquisador do FGV Ibre (Valor, ontem). Além disso, o desemprego apresentou o menor nível da série no período, a população empregada bateu recorde e a massa salarial cresceu 4,7% acima da inflação.

Parte significativa dos estímulos oficiais e a boa forma do mercado de trabalho persistirão por algum tempo, mas a economia pode ter encontrado seu limite para manter-se em expansão acima de sua capacidade, mesmo com anabolizantes. Os juros muito altos, para combater uma inflação resistente, inverteu a roda inicial benéfica da fartura de crédito que impulsionou as atividades. O comprometimento da renda com dívidas é recorde, assim como não para de aumentar o número de empresas em recuperação judicial. Boa parte do aumento da renda — a renda nacional disponível bruta, de R$ 3,348 trilhões no trimestre, é a maior da série — pode estar fluindo para pagamento do consumo passado (dívidas), e outra parte expressiva, pelas camadas de maior renda, para usufruir dos rendimentos que os juros reais perto de 10% ao ano propiciam.

O retrato do segundo trimestre mostrou que os setores que mais crescem, embora não os de maior peso na economia, são os não cíclicos, cujas atividades respondem menos ao aperto monetário, como a agricultura (com avanço de 2,8% sobre o trimestre anterior e 6,8% sobre o mesmo trimestre de 2025) e a indústria extrativa (3,4% e 12%, respectivamente). Exportações agrícolas e exploração de petróleo garantiram o desempenho positivo do PIB. Segundo relatório do Bradesco, excluídos esses dois setores, o resultado seria uma queda trimestral de 0,1%.

Desde o segundo trimestre do ano passado, o PIB decresce sem parar na comparação de quatro trimestres sobre os quatro anteriores. O consumo das famílias, nesse critério, aumentou apenas 0,9%, e menos ainda, 0,5%, na comparação do segundo trimestre contra o mesmo período de 2025. Esse consumo puxa os serviços, cujas atividades também arrefecem — avançaram só 0,2% no segundo trimestre e 1,5% em 12 meses. Outras atividades de serviços, que englobam os prestados à família e os pessoais, movidos pela renda, nada cresceram no último trimestre.

Os investimentos, que garantem a capacidade de expansão futura, estancaram. No acumulado do primeiro semestre, nada cresceram. Ante o segundo trimestre de 2025, caíram de 16,6% para 16,1% do PIB, o menor nível desde o segundo trimestre de 2020 (durante a pandemia). É uma taxa insuficiente para voos mais altos da economia e muito distante do pico de 21,1% do PIB do segundo trimestre de 2013. Esse é um resultado esperado, diante da forte elevação do custo de capital. A taxa de poupança mal saiu de um nível medíocre, de 16,6% do PIB no segundo trimestre, ante 16,5% do primeiro.

As exportações cresceram menos que as importações (0,8% e 1,8%, respectivamente), retirando 0,5 ponto percentual do PIB, de acordo com Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs. A demanda doméstica (soma do consumo das famílias e do governo e investimentos) ficou estável, e a variação positiva dos estoques colaborou com 1 ponto percentual.

As previsões de consultorias e bancos para o PIB vêm caindo, e o último boletim Focus aponta 1,92% para o avanço da economia em 2026 e 1,5% no ano que vem. Os resultados divulgados ontem pelo IBGE podem reforçar uma tendência mais pessimista sobre essa performance, pois o auge do aperto monetário, que levou a taxa Selic a 15% em meados de 2025, mostra seus plenos efeitos agora. A desaceleração da economia já torna irrealista a previsão de crescimento de 2,46% contida no orçamento de 2027, apresentado na segunda-feira. A expectativa de receitas não deve se materializar em um ano em que as contas públicas teriam de apresentar, segundo a peça orçamentária, um superávit de R$ 18,6 bilhões.

O esfriamento da economia abre espaço para que o BC continue com cautela reduzindo os juros. As taxas futuras DI para janeiro de 2027 estão próximas de 13,5%, abaixo das expectativas do Focus para o fechamento do ano, de 13,75%. Sem estímulos oficiais maiores que os atuais e com uma expansão econômica mais perto da potencial, o arrocho monetário poderia finalmente ser suavizado.

[Fonte Original]

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