- Author, João Caminoto
- Role, De Paris para a BBC News Brasil
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João Amoêdo não vai disputar cargo nenhum nesta eleição, mas continua sendo um dos nomes mais cortejados do campo liberal brasileiro.
Fundador e ex-presidente do Partido Novo, do qual se desfiliou em 2022, o empresário e engenheiro carioca, hoje dedicado a cuidar dos próprios investimentos, acompanha a corrida de 2026 com um diagnóstico severo: o de que o eleitor voltará às urnas em outubro movido menos pela escolha do que pela rejeição.
Em entrevista à BBC News Brasil, Amoêdo avalia que essa lógica da repulsa ajuda a explicar o fenômeno recente da campanha, o crescimento do escritor Augusto Cury, candidato do Avante que foi o primeiro da terceira via a alcançar dois dígitos nas pesquisas.
Amoêdo diz que ainda não decidiu se apoiará alguém no primeiro turno, mas admite querer conhecer melhor Cury, sinal de que um eventual apoio não está descartado.
Para Amoêdo, o tribunal deveria ter afastado Moraes, e o silêncio da corte é sinal de um “corporativismo” que corrói a instituição.
Ele também alerta para o risco de um eventual governo de Flávio Bolsonaro, que promete anistiar o pai, e para um país que, refém dos juros altos e da baixa ambição, assiste a outras nações “deslancharem”.

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BBC News Brasil – O que essa crise no STF revela?
João Amoêdo – Uma promiscuidade muito grande entre o setor público e o setor privado. E a questão do Alexandre de Moraes é impressionante. Eu não entendo o posicionamento dele de não ter se afastado lá atrás, e entendo menos ainda o enorme corporativismo do Supremo Tribunal Federal, de alguns membros, em que virou mais importante defender o colega do que defender a instituição.
Alexandre de Moraes deveria ter solicitado o seu afastamento desde o momento em que foi divulgado o contrato milionário da sua esposa com o banco Master.
É uma afronta ao Estado de Direito que o ministro use a instituição e seu cargo para pedir uma investigação contra André Mendonça, em represália à decisão do relator do caso Master de tornar público um relatório da PF com elementos que envolvem diretamente o próprio Moraes.
Suas ações só reforçam que ele precisa sair do STF imediatamente.
Mas há uma série de pessoas envolvidas, e esse jogo de interesses de não abrir, por exemplo, um processo de impeachment contra ele. Certamente há um toma lá, dá cá muito grande em todo esse processo.
Agora mesmo acabei de ler uma notícia de que o Gilmar Mendes disse que a Polícia Federal não deveria cumprir ordens que considera ilegais [nota da redação: segundo relatos na imprensa, Mendes teria defendido essa posição em uma reunião privada com Lula sobre a crise no STF].
Quer dizer, é uma interferência de um poder sobre o outro, sem nenhuma separação. E o que se vê nesse processo todo, que começou lá atrás, muito com o Bolsonaro, é um enorme enfraquecimento das instituições.
Então a gente troca as instituições pelos salvadores da pátria. Uma coisa que sempre me impressiona é que a crítica muitas vezes é feita à instituição. Isso eu combato sempre que posso, porque a gente deve criticar o Alexandre de Moraes, o Gilmar Mendes, mas não o Supremo Tribunal Federal.
Deve criticar o Alcolumbre, mas não o Senado. O Hugo Motta, o Eduardo Cunha, mas não o Congresso. A narrativa de muitos políticos, para ter um posicionamento mais forte e maior atração, tem sido criticar as instituições.
BBC News Brasil – Isso vai dar em alguma coisa, ou vai virar um processo que se arrasta?
Amoêdo – Tenho sido um pouco cético. Eu gostaria que desse, mas não está com cara de que vai dar, porque são tantos os envolvidos. Como disse um amigo meu, de brincadeira, o Vorcaro era a pessoa mais adorada por vários políticos do Brasil. Foi um sistema com tanta gente envolvida e tantos interesses que a estratégia tem sido ganhar tempo, empurrar com a barriga, descaracterizar as provas. Acho que há grande probabilidade de caminharmos por aí, e de pouca coisa acontecer.
BBC News Brasil – É uma ironia, porque em 2022, durante o processo de ameaça à democracia, o STF assumiu um papel de guardião. Mas desde então essa imagem se deteriorou.
Amoêdo – Deteriorou, e é muito triste, porque aquele papel foi necessário e, eu acho, bem-feito. Pode ter havido uma coisa ou outra, mas no geral foi no rumo correto. E eles sofreram muito com a narrativa de que aquilo não devia existir, de que era um controle extremo da liberdade de expressão. Agora, ao se revelarem casos como esse, dá espaço para argumentações muito ruins do outro lado.
A gente deveria conseguir separar duas situações: uma em que o tribunal de fato fez o seu papel, e agora um conflito enorme de interesses. O escritório da esposa de Alexandre de Moraes tem um contrato de R$ 129 milhões com um banco. Mesmo que fosse um banqueiro honesto, do bem, já não faria sentido. Quanto mais um desonesto.

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BBC News Brasil – A direita está tentando usar isso para colar no Moraes, pedir o impeachment, e prejudicar o Lula. Mas também há uma relação do Vorcaro com a família Bolsonaro, o episódio do filme.
Amoêdo – Sim, e isso é terrível, porque ele acaba servindo de munição de narrativa para os dois lados, no momento que interessa a cada um. O que o Supremo deveria fazer era justamente isolar o Alexandre. “Agora você vai cuidar da sua defesa. Nós, aqui, estamos sempre fazendo o que é correto. Não vamos tratar ninguém acima das leis.” Fazer um afastamento. Ele teria tempo para se explicar.
E há outros ministros que, de uma forma ou de outra, aparecem tangenciados por esse processo, a gente não sabe em que profundidade. Ainda assim, vem a desculpa esfarrapada de que seria preciso anular o relatório, porque aquilo era um processo contra o Alexandre. Foi muito questionado por juristas. A gente fica nesse looping, e nada evolui, diante de uma fraude bilionária.
BBC News Brasil – A gente já viu muita impunidade no Brasil, mas parece que hoje isso atingiu outro patamar. Você fica preocupado com o exemplo que fica, sobretudo para as gerações mais jovens?
Amoêdo – Claro, porque o exemplo que estamos dando é um dos principais problemas das lideranças de hoje. Os exemplos para a próxima geração são muito ruins. Tem o Sóstenes, líder do governo na época, que compra um imóvel em dinheiro e faz uma escritura datada depois da denúncia.
[Nota da redação: em dezembro de 2025, durante investigação sobre suposto desvio de recursos de cota parlamentar, a PF apreendeu cerca de R$ 430 mil em dinheiro vivo em um endereço usado pelo deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), então líder do PL na Câmara dos Deputados. O parlamentar disse que o dinheiro era proveniente da venda de um imóvel e que o manteve em casa porque não havia tido tempo de depositá-lo.]
Tem o caso do INSS, tráfico de influência. Tudo vai ficando pelo meio do caminho. “Agora vamos esperar.” E nada é feito. A leitura, para um brasileiro mais jovem, é: para vencer na vida, eu posso fazer qualquer coisa.
E quem está em cima é intocável. A gente fica refém desse modelo. Enquanto isso, o país, com juros muito elevados, tem dificuldade de gerar riqueza, cresce pouco, sem infraestrutura, e vê os outros países deslancharem.
Eu gosto de lembrar que a SK, uma fabricante de chips da Coreia do Sul que ganhou escala há pouco mais de dez anos, chegou a valer mais do que todas as empresas brasileiras somadas na Bolsa. Essa geração de riqueza que se vê em outros lugares, a gente não vê no Brasil.
BBC News Brasil – Nosso grau de ambição é baixo?
Amoêdo – Muito baixo. Eu brinco que, em vez de almejar ser a Austrália ou os Estados Unidos, a gente só não quer ser a Venezuela ou a Argentina. A gente se contenta com pouco. E isso chama a atenção até no debate eleitoral.
Antes, a gente estava preocupado em saber como era a educação na Escandinávia, a indústria na Alemanha. Agora, o exemplo virou El Salvador, com os presidenciáveis se gabando de quem esteve lá para ver um sistema que é ditatorial, num país de escala totalmente diferente da nossa. Isso diz muito sobre a qualidade do debate público.
BBC News Brasil – Como você está vendo o quadro eleitoral neste momento?
Amoêdo – Algumas conclusões, que eu já tinha na cabeça, hoje, com a proximidade e as pesquisas, já parecem óbvias. A primeira, que é uma leitura antiga: esta é uma eleição marcada não pela escolha, mas pela repulsa. Você não quer o Lula porque acredita que ele é corrupto, fez uma gestão ruim, está desgastado para um quarto mandato. Não quer o Flávio porque ele representa o Bolsonaro, o desrespeito às instituições, uma pessoa despreparada.
Aí apareceram o Caiado e o Zema, que claramente adotaram, lá atrás, uma estratégia de submissão ao Bolsonaro e ao bolsonarismo. E o resultado está aí, dois, três por cento nas pesquisas, mostrando o fracasso de governadores que tiveram boa avaliação nas suas gestões e não conseguem passar disso no pleito.
Por causa dessa rejeição, você tem o Renan, do Missão, que teve o mérito de montar um partido, o que não é fácil no Brasil, mas com um discurso muito agressivo, de “prende, mata, vou desrespeitar leis”. E o que me preocupa nele é a falta de histórico. Qual é o histórico do Renan, o que ele fez da vida até hoje, além de ter montado o MBL e criado o Missão? Não dá para testar essa pessoa como presidente da República.
É aí que a gente desemboca no crescimento do Augusto Cury, aquele que provoca uma repulsa menor. Você olha para ele e não sabe exatamente quais são as ideias, o que ele vai fazer. Mas pensa: é uma pessoa experiente, teve sucesso na vida privada, ganhou dinheiro, não precisa da área pública para isso, parece equilibrada. Então, nesse meio, muita gente decide votar nele. É, de novo, o voto da repulsa em relação aos demais, não o da escolha.
BBC News Brasil – Você acha que ele tem potencial de crescer mais?
Amoêdo – Acho que sim. Depois desse primeiro crescimento, acredito numa segunda onda. Muita gente que não o conhecia passou a conhecê-lo. À medida que ele vai aos dez pontos, ganha mais exposição, fica mais conhecido, e a rejeição aos demais permanece firme. Depois virá uma terceira etapa, a de ver se ele tem consistência para segurar esses votos, quando começarem os ataques e os questionamentos. Mas, antes disso, acho que ele ainda tem uma segunda onda de crescimento.
De todo modo, não podemos esquecer que o caso do Banco Master ainda está acontecendo, e que certamente há muita coisa ali envolvendo o Flávio que pode aparecer e enfraquecê-lo. Continuo achando que o quadro mais provável é termos Flávio e Lula no segundo turno. Mas essa subida do Cury acaba com qualquer ideia de que a eleição possa ser liquidada no primeiro turno pelo Lula.
BBC News Brasil – É uma campanha morna?
Amoêdo – Tem sido marcada pela pobreza de propostas, pela pobreza de debate, e por um interesse muito baixo da população. As pessoas estão cansadas do que é prometido, porque sabem que no dia seguinte não será cumprido.
Todo mundo agora tem “compromisso fiscal”, até o Lula. Mas é só discurso. O problema é a transferência que essa taxa de juros promove, dos mais pobres para os mais ricos, e a garantia de uma carga tributária elevada por muito tempo, porque estamos fazendo um rombo nas contas públicas. É inviável investir no Brasil imaginando pagar uma taxa de juros real de sete, oito, nove por cento.
BBC News Brasil – Você não vai apoiar ninguém no primeiro turno?
Amoêdo – Não sei, tenho pensado. Gostaria de conhecer um pouco mais o Augusto Cury, mas ainda não decidi nada. Quero acompanhar um pouco mais para ver o que é.
BBC News Brasil – Você quer conhecer melhor as ideias dele?
Amoêdo – Tenho a curiosidade de conhecer quais são as ideias dele e quem vai estar com ele. No fundo, isso é até mais importante do que as propostas, porque muitas vezes a proposta é o que a pessoa acha que o outro quer ouvir, não necessariamente o que ela fará.
Saber quem são as pessoas ao redor dele diz muito. Hoje, é a candidatura que eu menos conheço. O Caiado e o Zema são mais conhecidos, o Zema até pelo Novo. O Lula, todo o histórico dele. O Flávio, na verdade, fala do Jair muito mais do que de si mesmo, ele não tem liderança própria. E o Renan eu também conheço, mas acho que ele deveria entrar na política para ser avaliado, não estrear disputando a cadeira de presidente da República.
BBC News Brasil – E se no segundo turno tivermos Lula e Flávio, você vê de novo aquela conjuntura de risco à democracia que houve na eleição anterior?
Amoêdo – Isso a gente vai ter que pensar um pouco mais. No caso do Bolsonaro, era mais claro. Abro um parêntese: tradicionalmente, quem está no poder é o favorito para continuar. O interessante é que, no Brasil, nossas escolhas têm sido tão ruins, e os eleitos tão ruins nos últimos pleitos, que o favorito passou a ser sempre quem não está no poder.
Foi assim que o Bolsonaro derrubou o petismo, e depois o Lula derrubou o bolsonarismo. Agora, se o Flávio não fosse tão ruim, o provável é que o candidato de oposição fosse eleito, até pelo índice de desaprovação do governo Lula, que gira próximo dos 50%.
O que me preocupa é que uma das pautas principais do Flávio é propor uma anistia, ou um indulto, ao Bolsonaro, e dar a ele trânsito livre para escolher o ministério, ficar no governo. Acho isso muito ruim e preocupante, porque o Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe.
Imaginar que, dois anos depois, você vai dar a essa pessoa o poder de interferir tão fortemente nos rumos da nação, é preocupante. Uma coisa seria o Flávio dizer: “por razões humanitárias, ele tem uma doença, quero que tenha uma vida tranquila em casa, com os filhos e netos, e vou propor uma anistia ou um indulto.”
Mas trazê-lo de volta como liderança política, para atuar no Executivo, não faz o menor sentido. Ainda mais que o próximo presidente terá um poder de indicação enorme no STF, pelo menos três nomes.

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BBC News Brasil – Apesar de tudo isso, você acredita que o país tem condições de mudar de rumo no médio prazo, se houver vontade política?
Amoêdo – O que me preocupa, e por isso acho difícil que aconteça no curto e talvez até no médio prazo, é que para isso a gente precisaria de três coisas. Primeiro, instituições fortes, que não temos. Segundo, boas lideranças, das quais estamos distantes, quando olho para 2030 e imagino que as apostas são Nikolas, Michelle, Flávio, de novo. E terceiro, uma participação mais ativa da população, especialmente da elite, que é quem teria condições, porque boa parte da população ainda está tentando pagar as contas e ver o que vai comer no dia seguinte.
Nas três frentes, estamos muito fracos. Lideranças não temos, e as que formamos não são consistentes. As instituições foram sendo enfraquecidas justamente por seus membros: quem enfraquece o Congresso é o Alcolumbre, o Hugo Motta; quem enfraquece o Supremo é o Gilmar Mendes, o Toffoli, o Alexandre de Moraes.
E a elite sempre esteve muito mais preocupada com seus interesses de curto prazo e seus privilégios, muitas vezes em ter um político que a atenda, do que em resolver os problemas do país. Quando você junta essas três variáveis, dá um certo desânimo. Fico apreensivo, porque esse mix a gente precisaria mudar para entrar no rumo, e não estamos mudando nenhum deles.
BBC News Brasil – Essa questão da elite é algo que você sempre martelou. É complicada, porque depende da maneira como ela atua, e muitas vezes não acontece.
Amoêdo – Não acontece. Pode haver exceções, mas a regra é essa. Há os que querem estar próximos de quem está no poder, seja quem for, para ter informação, defender seus interesses empresariais, uma tarifa ali, uma isenção aqui, um financiamento mais barato. E aí sobram muito poucos para mudar. Alguns bem-intencionados que sobram, vendo esse cenário, preferem montar uma ONG, se dedicar a um projeto específico, mas não querem entrar na política. Só que a ONG é enxugar gelo, atende um pedaço muito pequeno da população.
Eu ouvi muito isso no Novo. Uma das grandes dificuldades que tive foi atrair pessoas boas, com a vida resolvida, para o partido. As pessoas diziam: “não posso, não vou fazer aquilo.” Se o Novo tivesse caminhado, nesses oito anos, na direção com que foi inaugurado em 2018, poderia ser hoje uma força política importante, quem sabe uma alternativa. A gente vê o Augusto Cury e pensa: será que um candidato do Novo, com a máquina do partido, com valores e princípios, não seria relevante? Acho que sim.
BBC News Brasil – Uma última questão. Você acha que Trump pode tentar interferir na eleição brasileira?
Amoêdo – Acho que não, porque ele está com muitos problemas por lá. A questão da guerra do Irã, a inflação, os juros indicando subida, as eleições de meio de mandato. Ele tem outras prioridades. Não o vejo se dedicando ao Brasil, tem problemas bem mais graves para resolver lá. Acho que vai ficar no discurso, fazer uma coisa ou outra, mas não faz sentido ele alocar tempo aqui.