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sábado, setembro 5, 2026

Com Joaquin Phoenix, Emma Stone e Pedro Pascal, faroeste que disputou a Palma de Ouro está no Prime Video

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Maio de 2020 ainda está perto demais para virar lembrança e longe o bastante para que muita gente já tenha começado a falsificá-lo para si mesma. Máscaras, álcool em gel, ruas vazias, vizinhos fiscalizando vizinhos, teorias conspiratórias disparadas pelo telefone, a linguagem médica convertida em senha ideológica e qualquer divergência doméstica ganhando rapidamente a gravidade de uma guerra civil. Ari Aster entende que o horror daquele período talvez não estivesse no vírus, mas na facilidade com que cidadãos razoavelmente comuns descobriram inimigos em pessoas que encontravam todos os dias no supermercado, na prefeitura, no posto policial. “Eddington” é seu western sobre essa América febril, embora os cavalos tenham dado lugar às caminhonetes e os pistoleiros agora também atirem com a câmera do celular.

Joe Cross é o xerife de Eddington, pequena cidade do Novo México onde a pandemia chega como chegam quase todas as novidades que ninguém compreende direito: cercada de boatos, ressentimentos e gente com certeza demais. Joaquin Phoenix compõe Joe como um homem cujo corpo parece permanentemente em discussão consigo mesmo. Ele se incomoda com a máscara, com as ordens sanitárias, com o prefeito Ted Garcia, com a própria casa e, sobretudo, com a humilhação de sentir-se menos importante do que imaginava. Quando resolve disputar a prefeitura, a campanha não nasce propriamente de uma divergência programática. Tem cheiro de desforra.

Ari Aster e a fronteira de 2020

Pedro Pascal beneficia-se dessa diferença. Seu Ted é um político bem mais treinado no trato público, sabe sorrir, modular a voz, ocupar o quadro e fazer parecer ponderação o que também pode ser vaidade. Aster evita a facilidade de transformar um dos dois em encarnação da virtude e o outro num monstro, e essa recusa é justamente o que deixa “Eddington” tão desagradável nos melhores momentos. Os adversários alimentam-se um do outro. Joe precisa de Ted para justificar sua fúria; Ted começa a precisar de Joe para reafirmar a própria sensatez. Ao redor deles, a cidade vai deixando de ser cidade e assumindo a forma de uma arena.

Aster apresentou “Eddington” na competição oficial do Festival de Cannes de 2025, depois de ter feito seu nome com “Hereditário” (2018), “Midsommar” (2019) e o monumentalmente neurótico “Beau Tem Medo” (2023). O reencontro com Phoenix poderia sugerir outra descida aos infernos particulares de um homem em pane, mas desta vez o diretor espalha a doença por toda a comunidade. Não é por acaso que ele se vale do western, gênero fundado na ideia de territórios em que a lei nunca consegue alcançar completamente os impulsos de quem os ocupa. A fronteira aqui não separa civilização e barbárie. Ela passa pela sala de estar.

Louise, a esposa de Joe vivida por Emma Stone, já está emocionalmente longe dele quando a história começa. A relação dos dois é uma das melhores medidas do filme porque Aster encontra no casamento a versão miniaturizada do que ocorre do lado de fora. Eles habitam a mesma casa, mas não partilham a mesma realidade. Louise se deixa aproximar de Vernon Jefferson Peak, o guru de Austin Butler, um daqueles homens que aparecem quando o mundo parece desabar oferecendo respostas simples demais para problemas que ninguém consegue resolver. A internet termina o trabalho. Em pouco tempo, todos estão falando, postando, acusando, filmando, interpretando sinais. Quase ninguém escuta.

Ari Aster e o excesso

Há momentos em que “Eddington” se torna grande demais para a própria ideia. Aster parece não querer perder nenhum sintoma de 2020 e empilha pandemia, protestos raciais, violência policial, campanhas eleitorais, masculinidade ferida, desinformação, radicalização digital, ressentimento sexual. O resultado deliberadamente sufoca, mas também dilui algumas de suas melhores intuições. Quando o filme se concentra em Joe e Ted, ou simplesmente deixa Phoenix caminhar pela cidade convicto de que todos estão errados menos ele, tudo fica mais perversamente claro.

A certa altura, já importa menos saber quem começou a contenda. A violência adquire autonomia e cada personagem encontra uma razão suficientemente nobre para cometer sua pequena ou grande infâmia. É aí que Aster volta ao horror que conhece tão bem, só que sem cultos pagãos ou cadáveres escondidos no teto. O monstro de “Eddington” é a convicção. E em 2020 houve dela um estoque formidável.

[Fonte Original]

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